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quinta-feira, 28 de junho de 2012

DEVAGAR

DEVAGAR

Devagarinho, vamos devagar,
porque esta rua é muito ladeirenta
e as nossas forças másculas rebenta
se nós tivermos pressa de chegar…

Devagarinho! Vamo-nos poupar
como quem poupa o trigo que alimenta,
o azeite que era a antiga luz do lar
e o vinho loiro que nos dessedenta…

Devagarinho! Vamos sabiamente
trepando a encosta agreste e má que a gente
deve esforçar-se sempre por vencer.

Devagarinho! Calmos e a sorrir,
pois quanto mais depressa se subir
quão mais depressa temos que descer…

Oliveira Guerra
in "Algemas"

sábado, 16 de junho de 2012

CANSAÇO


CANSAÇO

Estou cansado como se tivesse
trazido o mundo às costas até aqui
sem repousar nem ter uma benesse
de bem estar que tanto apeteci.

Estou cansado e sinto que falece
cada vez mais forte que eu ergui
à altura deslumbrante que entontece,
mercê duma vontade que perdi…

Estou cansado e vejo que não tenho
razão bastante, pois de perto venho,
embora já de longe eu julguei às vezes…

estou cansado e penso com tristeza
que era afinal pequena a fortaleza
que se deixou vencer pelos revezes.
                 
OLIVEIRA GUERRA

sábado, 9 de junho de 2012

SANGUE

SANGUE

Amasso a carne dura dos meus versos
entre os dedos gretados
e dou-lhe as formas que desejo dar-lhe
com golpes imaginados
e fico depois revendo
as formas encontradas,
as formas do meu sangue e dos meus nervos,
as formas desejadas.
Mas fica em mim a angústia latejante
de que esta carne viva do meu ser
é morta para o mundo que a não sente
nem pode compreender.
Sangue das minhas veias, corre em vão,
escoa-te a pouco e pouco
até ficar vazio o coração.
Sangue das minhas veias corre e seca
sobre a terra batida
sem deixar a nódoa ou mancha
da extinta vida…
                  

Oliveira Guerra
in “Algemas”

terça-feira, 5 de junho de 2012

O OLHAR


O OLHAR

Senhor, que maravilha o nosso olhar
que dentro dele cabe e vibra o mundo
e milhões de anos de luz vinda de longe,
do Infinito sem fundo…

Gota de orvalho, o nosso olhar contém
em si todo o Universo,
profundidades sem fim,
desde o berço…

E quando a morte o cega
e o nosso olhar morreu
há menos um espelho onde se vá
reflectir o céu…

                Oliveira Guerra

sábado, 5 de maio de 2012

VERDADE

VERDADE

Vive-se mal quando a vida
não satisfaz a ambição,
quando se vive querendo
e quando se quere em vão.

Vive-se mal e é penoso
suportar uma sentença
que nos põe sonhos no peito
e os mata desde  nascença.

Porquê ter sonhos p’ra vê-l’os
destruídos um a um
e todos tão bem nascidos
e satisfeitos nenhum?...

           Oliveira Guerra
in "Algemas"

sábado, 21 de abril de 2012

INDEPENDÊNCIA


INDEPENDÊNCIA


Musa liberta, desfere
se podes, um fraco voo,
mas vai atrás de ti mesmo
e apenas disto que eu sou…

Não subas nunca nas asas
dos outros que vão à frente.
Que nunca digam que tu
vais nas asas doutra gente…


Musa liberta e humilde,
desfere o teu fraco voo…
Sobe se podes, mas vive,
vive apenas do que eu sou…


Alma que buscas no espaço
um rumo de vida nova
liberta-te e foge dos outros,
vai atrás da tua trova…


Procura o teu próprio céu,
aquele que é teu somente,
aquele céu que não é
de muitos, de toda a gente…


E se o não vires não insistas,
desce os degraus um a um,
não busques mais, não procures
e desce à vala comum…

                      Oliveira Guerra
in "Algemas"

quarta-feira, 11 de abril de 2012

CORAÇÃO


CORAÇÃO

Tu, coração, és fonte de energia
vibrante e quente que nos faz viver,
sentir alguns momentos de alegria,
passar anos imensos a sofrer.

Tu és alfim, mais dia menos dia,
(porque sofreste) a mina de saber
onde encontramos a sabedoria
que o sofrimento inspira a todo o ser.

Tu és, oh! coração misterioso,
ingénuo às vezes e outras criminoso,
o nosso gozo e a nossa maldição!

Como eu queria, pobre e atormentado,
nunca te ter sentido ou escutado
 - ou ter-te sepultado, oh! coração!

Oliveira Guerra
in "Algemas"

sábado, 14 de janeiro de 2012

PARA QUÊ

Porfírio Alves Pires, in: www.galeriavieiraportuense.com
PARA QUÊ

Trabalhas, homem, nessa aparelhagem
que te dá mundos de comodidade
e que te leva, como a fresca aragem
na asa encantada da velocidade…

Trabalhas, lutas, buscas na miragem
feita de luz e viva claridade
um reino imaginado à tua imagem
de fulgurante materialidade…

Trabalhas tanto e desprezivelmente
preso ao trabalho, o coração e a mente
continuarão em plena escuridão.

E sem saberes o que és, meu presunçoso,
contente no teu meio aparatoso,
chamas a isto civilização…
            
Oliveira Guerra
in Algemas

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

CONSELHO


CONSELHO

Não tens dinheiro? Que importância advém
do facto de não teres o vil metal
com que se compra do outro mundo o Bem,
com que se vende deste mundo o Mal?

Encolhe os ombros, ri-te com desdém
e sê superior ao capital,
mostra a vaidade, e a altivez de Alguém
que sabe de si mesmo o que é que val’…

Mas olha: Se ele um dia, esse dinheiro
chegar como tardio caminheiro
à tua mão soberba e indiferente,

não lh’a retires, não! Sê generoso,
abre-lhe a porta e bom e carinhoso,
guarda-o na burra como toda a gente…
                                     
Oliveira Guerra
in “Algemas

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

CULPA

CULPA

Eu vejo que ninguém de mim se abeira
senão para levar do que eu tiver
alguma coisa, mesmo que eu não queira,
porque de nada vale o meu querer…

É sempre variável a maneira
de na fazenda entrar e de comer:
Às vezes é subtil e feiticeira
e tem às vezes sanha e mau par’cer…

E fico então, sombrio, a cogitar
que é minha culpa, que hei-de ‘inda expiar
com penas duras, lágrimas e dores.

Porque eu não sei zelar os meus haveres
e tal descuido induz os fracos seres
a descambarem em salteadores…

Oliveira Guerra
in "Algemas"

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

QUE IMPORTA?

QUE IMPORTA?

Que importa a vida se eu não sei viver
conforme eu sei que vive toda a gente
e se eu não sei, infelizmente, ser
o que outros são: tranquilo e indiferente?

Tenho as tristezas que é costume ter
porque elas surgem para toda a gente,
mas também tenho muitas a nascer
que a ninguém nascem, muito certamente…

E enquanto os outros buscam disfarçá-l’as
com gozos e alegrias e matá-l’as
cobrindo-as com champanhe e com amores

eu fico-me a cismar nas minhas penas
e se elas por ventura são pequenas,
pensando nelas, fazem-se maiores!...

Oliveira Guerra
in "Algemas"

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

MENDIGO E REI

MENDIGO E REI

Eu tenho precisão de ser amado
como a raiz precisa de humidade.
Tirem-me tudo e deixem-me engolfade
num sentimento de alta claridade.

Deixem-me pobre e triste e esfarrapado
que eu não me queixo mais dessa humildade
que me fez  pena e trouxe desterrado
quando surgiu a dura adversidade.

Eu nada quero, mas não me tireis
o pão dos  mendigantes e dos reis,
o pão do amor, o belo e nobre pão.

Eu quero ser mendigo a muitas portas,
pedir, vádio e nu, nas horas mortas,
mas ser escravo e rei dum coração…

                        Oliveira Guerra
in "Algemas"

sábado, 12 de novembro de 2011

MEDOS

MEDOS

Eu fui um príncipe encantado e ledo
que divagava à noite pelos montes
muito abraçado à sombra do arvoredo.
bebendo as águas de sombrias fontes…

E nesse tempo eu não sentia medo
dos mais estranhos vultos e horizontes,
embora me dissessem em segredo
que havia bruxas sob algumas pontes…

Hoje que eu tenho neve nos cabelos
(o que não é razão para esconde-l’os)
já ninguém vem falar-me de bruxedos.

Mas eu, agora, calmo, triste e mudo,
vejo um perigo em toda a parte e em tudo
e tenho medos, tenho muitos medos…

Oliveira Guerra
in "Algemas"

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

ASPIRAÇÃO

ASPIRAÇÃO

Não quero contentar-me com o que faço
tal como o pintor louco, meu amigo,
que julga qualquer mancha, qualquer traço,
acima já de crítica ou perigo…

Sei que o artista tem de, passo a passo,
buscar do teto da Arte o doce abrigo
e, duro e persistente e sem cansaço,
lutar para vencer, lutar consigo…

Chegando ao termo, o prémio a recolher
não deverá talvez satisfazer
qualquer carência, ainda que banal:

Mas viva em nós a luminosa ideia
de termos dado um fio à branca teia
dum património de Arte social.

Oliveira Guerra
in Algemas

terça-feira, 20 de setembro de 2011

SAUDADE

SAUDADE

A minha irmã Saudade é companheira
que não me desampara um só momento,
como se houvera feito um juramento
de conviver comigo a vida inteira.

Às vezes, fatigado à sua beira,
eu penso abandona-l’a, e, nesse intento,
procuro companhia mais palradeira
que possa dar-me algum contentamento.

Mas como abandonar por um só dia
em troca duma insípida alegria
a velha amiga a quem eu não resisto?

Se conseguisse dela separar-se,
dela eu voltava logo a aproximar-me,
com novo apego nunca dantes visto…

Oliveira Guerra
in Algemas

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

CORAÇÃO

CORAÇÃO

Tu, coração, és fonte de energia
vibrante e quente que nos faz viver,
sentir alguns momentos de alegria,
passar anos imensos a sofrer.

Tu és alfim, mais dia menos dia,
(porque sofreste) a mina de saber
onde encontramos a sabedoria
que o sofrimento inspira a todo o ser.

Tu és, oh! coração misterioso,
ingénuo às vezes e outras criminoso,
o nosso gozo e a nossa maldição!

Como eu queria, pobre e atormentado,
nunca te ter sentido ou escutado
- ou ter-te sepultado, oh! coração!

Oliveira Guerra
in "Algemas"

quinta-feira, 28 de julho de 2011

QUE IMPORTA?

QUE IMPORTA?

Que importa a vida se eu não sei viver
conforme eu sei que vive toda a gente
e se eu não sei, infelizmente, ser
o que outros são: tranquilo e indiferente?

Tenho as tristezas que é costume ter,
porque elas surgem para toda a gente,
mas também tenho muitas a nascer
que a ninguém nascem, muito certamente…

E enquanto os outros buscam disfarçá-l’as
com gozos e alegrias e matá-l’as
cobrindo-as com champanhe e com amores

eu fico-me a cismar nas minhas penas
e se elas por ventura são pequenas,
pensando nelas, fazem-se maiores!...
         
Oliveira Guerra
in "Algemas"

sexta-feira, 15 de julho de 2011

SEM RUMO

SEM RUMO

Eu já não sei o que há-de ser de mim
por este andar, por este ruim caminho,
pois não me é dado ver qual seja o fim
a que ele me conduz, tanto é daninho.

Vejo-me aqui (não sei por onde vim
aqui parar!) metido no escaninho
do meu problema, como num jardim
um melro engaiolado, à vista o ninho…

Quero fugir e bato em vão as asas,
penso morrer e sinto ardentes brasas
queimando, vivo, todo o coração.

E dizem que há lugar no mundo imenso
p’ra todo o ser, enquanto eu vejo e penso
que nem a morte é a minha salvação…

Oliveira Guerra
in Algemas

sábado, 9 de julho de 2011

CALO-ME, SIM…

José González Collado
CALO-ME, SIM…

Calo-me, sim, mas fica no meu peito
a mágoa obscura, de olhos verdejantes
e de sorriso triste, liquifeito,
como o das algas verdes e onduladas…

Calo-me, sim, mas fica em mim o jeito
de errar no mundo como sombra dantes
e de sentir no ouvido o som desfeito
de vagas que morreram, sussurrantes…

Calo-me, sim, mas fica a luz de neve,
luzindo nos meus olhos, onde esteve
o sol dos trigos, vivo e redoirado…

Calo-me, sim, e irei pelas herdades
beber nas fontes negras das saudades,
matar a sede em águas do Passado…

Oliveira Guerra
in "Algemas"

quarta-feira, 6 de julho de 2011

TRISTEZA

TRISTEZA

Sempre fui triste sem saber porquê,
naturalmente porque o Demo o quis:
A gente é como nasce e ninguém crê,
mas todo o bem e o mal vêm da raiz.

Sempre vivi com o ar de quem não vê
nada em redor e o que se faz ou diz,
como que à espera de que se lhe dê
o que lhe baste para ser feliz.

Sempre andei só por entre a multidão,
cabeça curva, oculto o coração
que, de medroso, muito resguardei:

Mas vai um dia, oh! meu amor, surgiste
e fez-me esta loucura ainda mais triste
 e foste embora e triste cá fiquei!

Oliveira Guerra
in "Algemas"