quarta-feira, 24 de outubro de 2012

TODAS AS PALAVRAS


TODAS AS PALAVRAS

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras
 

Manuel António Pina
lido por Maria Celeste Dias

RECADO PARA UMA SENHORA


RECADO PARA UMA SENHORA
 
Sim é consigo que falo
para si, que é extraordinariamente boa e santa
tão pura, educada, ma tão desenxabida
- Vá, mostre suas unhas felinas e arranhe
“se elas não estão gastas pelos tachos”
incapaz de ter um mau pensamento sequer:
ou de o praticar no mais recôndito de si
que sabe coser e descoser vidas alheias
até sabe arranhar o piano e ronronar…
até sabe dar gritinhos na cama
como mandam os almanaques de alcova
… e cumpre regular e pontualmente
os seus deveres de esposa
sabe fazer todos os pratos culinários,
os triviais, os bestiais e outras que tais
tão perfeita, tão fria, tão mármore
- Vá acorde! – viva uma vida vivida
uma vida com dois VV muito grandes
acorde, olhe! tudo vegeta, -você também!
- não mais a rotina, a monotonia, esta agonia
este dia-a-dia desgastante que asfixia
tudo em si está morto, amorfo.
Tão pudica que se diz incapaz de estar nua consigo própria:
- que estupor de pudor
Vá, não tenha medo de dizer
que ama tudo e todos, este, aquele e outro
que a cada momento nasce em si uma paixão
que se renova dia a dia; - Vá, diga que ama!
Ame com todas as forças do seu ser
ser
você existe>
Não tenha medo de Si – nem dos outros –
É preciso coragem para ser Mulher
sacuda o papão do sótão
dispa os preconceitos, e nua deite-se
na orla da praia na maré baixa, e então;
… quando a água a de leve
tocar os seus delicados pés, então sim! – deixe-se,
deixe-se possuir pelo mar – a Vida pára! –
deixe e goze o momento supremo que é a água
toda sal crescer dentro de si, e inundá-la toda…
… então sim, viverá e será Mulher
                                                           aceite o meu Recado
- este meu recado.
                                   … mas é muito difícil ser Mulher! 

Aurora Gaia

terça-feira, 23 de outubro de 2012

POESIA NA GALERIA, 20 de Outubro

 
 
 
 
 
 
 
 
 Aurora Gaia
 Aurora Gaia
 Maria Celeste Dias
 Maria Celeste Dias
 Miguel Leitão
 Miguel Leitão
 Kim Berlusa
 Kim Berlusa
 Maria Antónia Ribeiro
 Maria Antónia Ribeiro
 Manoel do Marco
 Manoel do Marco
 Luís Pedro Viana
 Luísa Pedro Viana
 Ana Maria Roseira
 Ana Maria Roseira
 César Carvalho
 César Carvalho
 Fernanda Garcias
 Fernanda Garcias
 
António Cardoso
 António Cardoso
 Ilda Regalado
 Ilda Regalado

Sessão de Poesia na Galeria 20 de Outubro

 David Cardoso
 David Cardoso
 Acilda Almeida
 Acilda Almeida
 João Pessanha
 João Pessanha
 Alice Santos
 Alice Santos
 António D. Lima
 António D. Lima
 Maria Teresa Nicho
 Maria Teresa Nicho
 Fernanda Cardoso
 Fernanda Cardoso
 Eduardo Roseira
 Eduardo Roseira
 Maria de Lourdes Martins
 Maria de Lourdes Martins
 
 Adolfo Castelbranco
 Adolfo Castelbranco
 Fernando Morais
 Fernando Morais
 Idiema
Idiema