sábado, 25 de junho de 2011

VENTO NO ROSTO


VENTO NO ROSTO

À hora em que as tardes descem,
noite aspergindo nos ares,
as coisas familiares
noutras formas acontecem.

As arestas emudecem.
Abram-se flores nos olhares.
Em perspectivas lunares
lixo e pedras resplandecem.

Silêncios, perfis de lagos,
escorrem cortinas de afagos,
malhas tecidas de engodos.

Apetece acreditar,
ter esperanças, confiar,
amar a tudo e a todos.

in Poesias Completas (1956-1967)
Colecção Poetas de Hoje de António Gedeão
lido por Emília Costa

SAUDADES DA TERRA


SAUDADES DA TERRA

Uns olhos que me olharam com demora,
não sei se por amor se caridade,
fizeram-me pensar na morte, e na saudade
que eu sentiria se morresse agora.

E pensei que da vida não teria
nem saudade nem pena de a perder,
mas que em meus olhos mortos guardaria 
certas imagens do que pude ver.

Gostei muito da luz. Gostei de vê-la
de todas as maneiras,
da luz do pirilampo à fria luz da estrela,
do fogo dos incêndios à chama das fogueiras.
Gostei muito de a ver quando cintila
na face de um cristal,
quando trespassa, em lâmina tranquila,
a poeirenta névoa de um pinhal,
quando salta, nas águas, em contorções de cobra,
desfeita em pedrarias de lapidado ceptro,
quando incide num prisma e se desdobra
nas sete cores do espectro.

Também gostei do mar. Gostei de vê-lo em fúria
quando galga lambendo o dorso dos navios,
quando afaga em blandícias de cândida luxúria
a pele morna da areia toda eriçada de calafrios.

Também gostei muito do jardim da Estrela
com os velhos sentados nos bancos ao sol
e a mãe da pequenita a aconchegá-la no carrinho
e a adormecê-la
e as meninas a correrem atrás das pombas e os meninos
a jogarem ao futebol.

A porta do Jardim, no inverno, ao entardecer,
à hora em que as árvores começam a tomar formas estranhas,
gostei muito de ver
erguer-se a névoa azul do fumo das castanhas.

Também gostei de ver, na rua, os pares de namorados
que se julgam sozinhos no meio de toda a gente,
e se amam com os dedos aflitos, entrecruzados,
de olhos postos nos olhos, angustiadamente.

E gostei de ver as laranjas em montes, nos mercados,
e as mulheres a depenarem galinhas e a proferirem palavras
grosseiras,
e os homens a aguentarem e a travarem os grandes camiões
pesados,
e os gatos a miarem e a roçarem-se nas pernas das peixeiras.

Mas... saudade, saudade propriamente,
essa tenaz que aperta o coração
e deixa na garganta um travo adstringente,
essa, não.

Saudade, se a tivesse, só de Aquela
que nas flores se anunciou,
se uma saudade alguém pudesse tê-la
do que não se passou.

Marcelo Rebelo de Sousa
in “Os poemas da minha vida”
lido por Teresa Gonçalves

PEREGRINOS


PEREGRINOS

Um Poeta não bajula,
Não se verga ou tergiversa,
Sempre contra a tirania,
Vaidades não turibula.
E, na sorte mais adversa,
Sonha sempre melhor dia...

A dar amor,
Que não mata a fome
- Mas conforta -
Um Poeta verdadeiro
Dá a metade da manta
Ao mendigo que tem frio...

São lágrimas de Poetas
Muitas das águas dum rio!
                   Manoel do Marco

quarta-feira, 22 de junho de 2011

CONFIDÊNCIAS

CONFIDÊNCIAS

Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! traze tinta encarnada para escrever estas coisas! tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros
lido por Eduardo Roseira

«Breve história de sombras, ensombramentos e assombrações»

«Breve história de sombras, ensombramentos e assombrações»

Foi à sombra de uma frondosa árvore
que me deu a assombrosa ideia de
escrever uma pequena prosa que versasse
as sombras, os ensombramentos e as assombrações.
Até porque sei, que há imensa gente
que vive na sombra, tal qual um espião
e gente há que vive no vulgo dizer-se
à sombra da bananeira.
Há gente que julga viver, sem sombra
de pecado e isso é um tremendo erro
sombrio, tal como gente que diz viver
permanentemente assombrado, por assombrações
lá do além. Mas há quem faça das sombras
uma arte. As sombras chinesas
por exemplo, essa arte milenar que ainda
hoje encanta miúdas e graúdos. A maneira
de um artista plástico sombrear um desenho
é sinónimo de capacidade artística acima
da média. Quem caminhar ao sol
nunca se livra da sombra. Por falar em 
sol, eu até poderia apanhar um pouquinho
do dito, mas nem sombras, saio daqui.
É que está-se tão bem à sombra que vocês
nem imaginam…
                                         Kim Berlusa

terça-feira, 21 de junho de 2011

O S. JOÃO DO BONFIM

 

O S. JOÃO DO BONFIM

Da padaria Santa Clara solta-se o cheiro da regueifa quente
Doa arredores da cidade vai chegando um mar de gente
Estremunhada e coscuvilheira aparece a lua
Ao som de testos e bombos, uma rusga desce a rua
Nas janelas há enfeites de papel e balões coloridos
Ao desafio, cantam-se refrões mil vezes repetidos
-AI ORVALHEIRAS, ORVALHEIRAS, ORVALHEIRAS
E VIVA O RANCHO DAS MULHERES SOLTEIRAS.
-AI ORVALHADAS, ORVALHADAS, ORVALHADAS,
E VIVA A RUSGA DAS MULHERES CASADAS.

No céu do Porto o nevoeiro adensa-se e esfria
E obriga a rodopiar até ao nascer do dia
No rosto há o gosto acre do alho porro e da erva cidreira
A cidade cheira a sardinha assada que pinga na broa caseira
Na madrugada, espevita-se o carvão para o caldo verde quentinho
Depois, ateia-se o fogo com malgas de barro donde esborda o vinho.
Enchem-se as ruas de foliona multidão
ONDE TODOS SÃO POVO. SEM TÍTULOS OU BRAZÃO
Nos bairros há bailaricos e mexericos
E até a atrevida viúva com o "home" ainda quente
Dá "duas voltas do vira" com o vizinho da frente

Ao romper do dia,em cada canto, há arrolados
Há beijos e juras de namorados. E nove meses passados,
Há a cinza das fogueiras apanhada aos braçados
E a orvalhada da tripeira noite sanjoanina,
Para umas trouxe um moço, para outras, uma menina!


in NOBRE POVO
EDIÇÕES GAILIVRO
LOURDES DOS ANJOS

CUIDADO


( enfermeiro da alma )
CUIDADO

eu vou tocar as estrelas
vou tocar para as estrelas
o sorriso é interino
não quer sorrir pra ninguém
o meu sol é muito intenso
mas não sabe que é um Sol
e nem disso quer saber.

O meu rio tem peixes
e os meus peixes não dão filhos
meus generais são febris
meus soldados desarmados
meus canhões estão calados
comigo nada dá certo
por isso me vou embora
não pude continuar
nos sítios onde parei
aqui não quero ficar

Aqui não posso escrever
vou já tocar as estrelas
ponho um piano nas nuvens
e vou gostar de compor
vou tocar para as estrelas
onde me quero lembrar
onde me esqueço de ser
quero ficar e não posso
quero doer e não doo
quero viver a sorrir
mas não há sorriso algum
e então levanto voo
não pude continuar
nos sítios onde parei
aqui não quero ficar
vou morar para as estrelas
vou tocar música nelas
e se morrer que se lixe
à morte já eu me dei

Naquele dia em que ela
fez do amor desamor
agora vou todo torto
pelas ruas da cidade
sou mais que vivo sou morto
e nunca fui divertido
nem pratico a gargalhada
e perdi de vez o timbre
da paciência e da constância
estou contente de ser pardo
estou feliz de desespero
de todo o mal que me fez
de todo o bem que não faço
não sorrio pra ninguém
e tenho pena de mim
se nada disto mereço
não pude continuar
nos sítios onde parei
aqui não quero ficar

Pese embora algum momento
de flores, campos, montanhas
fujo, fujo, sempre a fugir do passado
corro, corro, e correndo ganho tempo
para viver as tristezas
vivê-las a cem por cento
pois nada mais me consola
pois nada mais me incomoda
pois nada mais me garante
que estou vivo, sigo adiante.

Fernando Morais

ESPLANADA


ESPLANADA

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.
               
Manuel António Pina
in Poesia, Saudade da Prosa
uma antologia pessoal
lido por Alzira Santos

MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL


MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA
SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL

Nunca mais,
A tua face será pura, limpa e viva,
Nem o teu andar, como onda fugitiva,
Se poderá nos passos do tempo tecer:
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos,
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais, amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência.
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais, servirei senhor que possa morrer.

Sophia de Mello Breyner                                           
lido por Fernanda Cardoso

cerce à vida _ cerce ao mundo 1971-2010


cerce à vida _ cerce ao mundo 1971-2010

ó sonhos de primaveras floridas!
se eu vos tive
para onde foram
porque partiram
sabendo, eu vos desejar
alimentar a vida que aspiro?

sinto ter saltado o espaço do tempo
declinando inutilmente
anos de espera a erguer um amor
sem tatuar os sonhos desejados.

assim resta-me entregar
sem cópia nem rascunho
a vida que aspiro
às noites de luar ausente.

se um dia, a Deus, eu for chamada
a prestar contas de tudo o que aqui fiz
dir-lhe-ei: sou uma revoltada
por me dar uma vida que não quis

por ver tanto vilão abençoado
e tanto canalha protegido
por ver tanto inocente mutilado
a silenciar na alma o seu gemido

e Ele, tão distanciado,
cego, dorminhoco ou distraído,
permite que a sua criação
semeie um inferno de dor
por ambição

que me julgue então como entender
como eu tantas vezes O julguei
ser justo, misericordioso e com poder
pra descobrir, afinal, que me enganei.
                         

painel multicor; volume I, 2004 
Teresa Gonçalves
in Pleno Verbo

LILIANA/ AS CANÇÕES


LILIANA
AS CANÇÕES

O coração necessita de afinação, como os rádios.
Por vezes, em simultâneo, executamos duas canções,
e uma perturba a outra,
e não é bom para os ouvidos.
Mas qual o botão que afina o coração?
Não é assim tão fácil.
                   Gonçalo M. Tavares       
lido por Ana Maria

S. JOÃO


S. JOÃO

Tradicional da cidade
É o S. João no Porto
Escape da intensidade
Concentrada do desporto.

Meu S. João dançarino
O teu dia enfim chegou
Lindo sonho de menino
No carrossel acordou.

A noite é toda tua
Martelinho, manjerico, e balão
Os bailes com cascatas lá na rua
Dão alegria a esta multidão.

Pimentos a bela sardinha
São tradição secular
O fogo no rio á noitinha
Nostalgia em teu olhar.

S. João rapioqueiro
És meu rei no arraial
Patrono e o pioneiro
Desta festa sem igual.

Te venera toda a gente
Teu coração é amor
És amado eternamente
Meu S. João Meu Senhor
                   João Pessanha
                    10/06/2011

ÉTER


ÉTER

Òh, éter da minha mente
meu espaço sideral
luz mortiça e dormente
minha falésia do essencial.

Òh, sim de todos os sins
nave imensa dos meus nãos
Pátria imberbe dos confins
que se diluem pelos chãos.

Òh, placenta de memórias
habitáculo do meu ego
pedra basilar de histórias
que exultam o meu sossego.

Òh, figuras adjacentes
pintadas de cicatrizes
despidas nos reluzentes
palácios de meretrizes.

Òh, centurião dos tempos
de gládios infinitos
esgrime meus sentimentos
trespassa todos os gritos.

Òh, éter da minha mente
cavalgante anestesia
mantêm-me sempre presente
nos prados da Poesia!
                                   Kim Berlusa

18 de Junho 2011



 Domingos da Mota
 Eduardo Roseira
 Eduardo Roseira
 Eduardo Roseira



 Emília Costa
 Emília Costa
 Kim Berlusa
Kim Berlusa

POESIA NA GALERIA, 18 Junho 2011

 Manoel do Marco, Domingos da Mota, Kim Berlusa e esposa


 Fernando Morais e Domingos da Mota
Antonieta Silva, Teresa Gonçalves

 Kim Berlusa

 Kim Berlusa
 José Nuno e Eduardo Roseira




sexta-feira, 17 de junho de 2011

A MINHA ESSÊNCIA


A MINHA ESSÊNCIA

Escrevi teu nome na areia
para que as ondas o apagassem.
Teu nome foi-te nas águas…
     … e tu ficaste.

Gritei teu nome à montanha
para que os ventos o arrastassem.
Teu nome sumiu na aragem…
     … e tu ficaste.

Lancei teu nome às ravinas
para que o abismo o engolisse.
Teu nome caiu no vale fundo…
     … e tu ficaste.

Chorei teu nome na noite
para que o escuro o sorvesse.
Teu nome desfez-se em sombras…
     … e tu ficaste.

Tu ficaste… e ficas sempre,
encastrada na minha alma!

Por mais que trucide o teu nome, o esmigalhe,
o reduza a amarelecida poalha
a arrastar-se, inútil,
pelos becos da memória,
tu teimas em permanecer,
sempre cá, a fazer parte.

É uma questão de natureza,
não de nomes ou lembranças.

Não és acrescento como algo de movível,
adjacente.
Não é como timoneiro em barco
ou piloto em avião
que se ausentam se o comando
não se torna imprescindível.

Realidade constituinte do meu eu,
integras a minha vida
e o meu ser,
alimentando o que penso
e o que sinto,
o que digo e o que faço.

Eu sou tu…
     … e tu sou eu!

E se conseguisse arrancar-te de mim,
eu não seria!

Pelo menos…
     …não seria como sou!

Miguel Leitão
in O tempo e as coisas

VAGAS SOBRE VAGAS


VAGAS SOBRE VAGAS

Nestes breves momentos sou, respiro,
saudosa dos que já antecederam
e rezo orações neste retiro
aos setenta e dois anos que morreram.

Quantas vidas vivi numa só vida!...
Quantos rastos de sangue dei ao mundo!
Agora fico exangue, estarrecida,
à espera do meu trágico segundo.

O antes e o depois, pólos contrários,
e pelo meio a vida, o que restou;
ai como adoro os bens hereditários
perdidos no depois onde não sou.

São pólos que se tocam, se entrelaçam,
todos os dias me levam para o nada…
Quando a noite me abraça, as dores descansam,
ensaio a morte em cada madrugada!

Porque me apego tanto aos bens terrenos
e me definho em rugas, sempre aos ais?
Porque não são meus dias mais serenos
se o antes e o depois são tão iguais?

Só aos deuses pertence a eternidade.
Nós somos fogos-fátuos, lama e pó.
Ontem rasguei um corpo, é já saudade…
hoje morro de espanto, triste e só.

Se o ventre que me trouxe jaz também,
vencido pelas vagas desta guerra,
eu sigo obediente minha mãe,
pró infecundo ventre, sob a terra!

Maria de Lourdes Martins
in Castelo de Legos

quinta-feira, 16 de junho de 2011

VISITANTE NOTURNO

VISITANTE NOTURNO

Entra o luar na minha casa à noite
como entra, silencioso, nas demais.
Oh! meu poeta, diz-me onde é que doi-te
pois chegas sempre triste e triste vais.

Porque andas branco? Há sempre quem te acoite
com a alma inteira e braços e braços fraternais,
e ninguém há no mundo que se afoite
a por-te fora. Quando queres, tu sais…

Dize o que tens, oh! meu irmão vadio,
oh! vagabundo imenso, irmão do frio,
oh! habitante de desertas salas.

Dize o tens, se podes tu dizer-m’o
pois ele há mágoas que não têm termo
e às vezes não há termos p´ra contá-lás…

Oliveira Guerra
in Algemas

LUGAR DO TORNE


LUGAR DO TORNE

Se dos meus olhos correu água da nascente
das mãos caiu a terra de semente
por isso nasceu um ranço de alecrim
na margem desse rio donde vim.

Escolhi o lugar de envelhecer
já que ninguém escolhe onde nasce
trouxe pão e queijo para a vontade de comer
e um intervalo de tempo para a pesca.

Que a intensa claridade refaz-se
todos os dias no cantinho da poesia
já não saio daqui desta morada
silencioso Torne onde acostei.

Fernando Morais
in Voltar a Gaia

quarta-feira, 15 de junho de 2011

SAUDADE QUE A MINHA ALMA SENTE


SAUDADE QUE A MINHA ALMA SENTE

Do lugar que tu bem sabes
vejo a paisagem que certo dia
me ensinaste:

São telhados e telhados
a perder de vista
com chaminés, clarabóias, antenas,
postes e fios,
um entrelaçado de fios
a esquartejar o céu azul
que nem chumbo a separar
os pedaços
coloridos
de um vitral.

Só elevada perícia na visão
e no voo
permite às gaivotas driblar
e desenhar
seus brancos traços
de espiral,
sem ficarem cativas,
de asas suspensas
nos ardilosos fios metálicos.

Para lá dos telhados,
o Douro,
a querer aconchegá-los
em jeitos de cachecol.

Mais além do rio,
na margem de lá,
o casario,
a cidade ao espelho,
o Porto a mirar-se
em águas douradas e mansas.

Para cá dos telhados,
estou eu,
aqui.

Eu,
na vertigem da paisagem
dos telhados e telhados
a perder de vista.

Eu,
sem ti,
mas não só.
Comigo,
este vazio.

E a tingir o que vejo, de tons de nostalgia,
esta saudade pungente,
profunda,
que a minha alma sente.

Miguel Leitão
in O tempo e as coisas"

REFÚGIO


REFÚGIO

Antes de ser, o não ser;
antes de tudo, o nada!
O fio que ando a tecer
é malha desencontrada…
E neste velho tricotar,
a trama que ainda teço
já não me deixa notar
qual o direito ou avesso.

A vida é ar que acontece…
pequena gota de sangue,
semente que floresce
e que no mundo se expande!...
Com o prazer se anuncia,
com alegria decorre,
coa tristeza denuncia,
ser com a dor que se morre!

Dentro da animalidade
cada visão é diferente.
Com tanta disparidade
pergunto insistentemente:
será verdade o que vejo?
Quem vive, vive a matar,
conforme seja o desejo,
ou a fome a comandar!

É mundo em contradição,
todo em sangue mergulhado!
Mata a gazela, o leão,
conflito programado!

Jamais quereria a vida,
tudo em mim morreria,
se eu te visse desvalida,
se acabasses, poesia!

Maria de Mourdes Martins
in Castelo de Legos