sexta-feira, 22 de julho de 2011

ÚLTIMO POEMA


ÚLTIMO POEMA
«Ó morte que me guiaste, ó morte
amável mais do que a alvorada»
S. João  da Cruz
A dor acompanhar-me-á,
a dor de não ter escrito
o teu nome e de não ter sabido
as perguntas e as respostas; nos teus braços quem me receberá?

E fará tanto frio
que a eternidade
se consumará sem mim no quarto agora vazio
de exterioridade e de contemporaneidade.

Só terei as minhas palavras,
mas também elas são mortais
mesmo as mais banais e mais
próprias para falar de coisas acabadas.

Terei talvez morrido; nunca o saberei.
Nem não o saberei tão perto estarei,
o rosto reclinado no teu peito,
a minha vida um sonho teu, desfeito.

Manuel António Pina
“Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança”
lido por Ana Maria

Como no tempo


Como no tempo
em que rasgava-mos
amplos espaços
ainda em branco
e íamos gravando
nas pedras
a surpresa dos gritos
enrodilhados no suspenso
e vigoroso, pêndulo do sol. 
Como no tempo
em que a memória eclodia
e dardejava na medula
do ainda, puro amor
quando a ausência, de nós
era vernáculo de saudade
e arabesco de  sabedoria.
Como no tempo
em que os sonhos
se mantinham dentro
da transparência
inocente do olhar.

Kim Berlusa

quinta-feira, 21 de julho de 2011

KIM BERLUSA

Passei hoje o dia assim
a entoar silêncios
a desbravar tormentos
a desnudar sentimentos
só para fugir de mim.

Passei hoje o dia assim
a diluir universos
a juntar sonhos dispersos
a medalhar os reversos
só para fugir de mim.

Passei hoje o dia assim
a embriagar-me de nexos
a cegar-me de reflexos
a orgasmar-me de sexos
só para fugir de mim.

E neste caleidoscópio
passei hoje o dia assim
sempre preso a mim próprio
só para fugir de mim.

KIM BERLUSA

Café do Molhe

Café do Molhe

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

                 Manuel António Pina
               “ Poesia, Saudade da Prosa”
     Lido por Ana Pamplona

AZUL

AZUL

A luz, se formos luz. A sombra
se formos sombra: os olhos, sombra;
o coração, sombra; a própria luz
do pensamento, exílio e sombra.

Na infância (pois fomos
jovens um dia) atrás dos reposteiros
o invisível vigiava
o nosso sono desperto.

Agora que acordámos
do amarelo e do azul
e do branco e do azul
e do coração e do azul,

como regressaremos
a este mundo?
(O azul não é deste mundo,
nem os olhos são destes mundo)

À nossa porta batem
inúteis as lembranças: sombras.
Cegámos. Os amigos (sombras)
morreram de doenças de velhos,

o enfarte, a solidão, ou só
de morte, e nem
uma réstia de azul iluminou
o seu último olhar.

Se ao menos tivéssemos
envelhecido sem motivo, sem tempo,
desaparecido para dentro
lucidamente, como uma coisa desprendendo-se.
                
                      Manuel António Pina
                      “ Poesia, saudade da Prosa”
                           antologia pessoal
                   Lido por Irene Lamolinairie

TODAS AS PALAVRAS

TODAS AS PALAVRAS

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa,
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram, levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias:
as minhas últimas palavras.

Manuel António Pina (1943)
in Poesia Reunida
lido por Fernando Cardoso

METADE

METADE

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca

Porque metade de mim é o que grito
Mas a outra metade é o silêncio

Que a música que ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza

Que a mulher que eu amo
Seja para sempre amada
Mesmo que distante

Porque a metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
Nem repetidas com fervor

Apenas respeitadas
Como a única coisa
Que resta a um homem
Inundado de sentimentos

Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma
E na paz que eu mereço

E que essa tensão
Que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada

Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável

Que o espelho reflicta
Em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância

Porque metade de mim
É a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei

Que não seja preciso
Mais do que uma simples alegria
Para me fazer aquietar o espírito

E que o teu silêncio
Me fale cada vez mais

Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba

E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade
Para fazê-lo florescer

Porque metade de mim é plateia
E a outra metade é canção

E que a minha loucura
Seja perdoada

Porque metade de mim
É amor

E a outra metade
Também

Ferreira Gullar
80 anos
Prémios Camões 2010
lido por Leonor Reis e Lourdes dos Anjos

HEGEL, FILÓSOFO ESPORÁDICO?

HEGEL, FILÓSOFO ESPORÁDICO?

Ninguém morreu de morte tão natural como Hegel.
Alguns anos antes tinha descoberto, horrorizado,
que Deus o havia colocado
no centro de Tudo.
Morreu como um bárbaro: subitamente o seu

coração parou de bater, e inclinou levemente
a cabeça sobre o lado direito.
É sempre Outro quem escreve (Como poderia o escritor, ele
[próprio, mesmo quando é
um Filósofo, reconhecer o que está ali para ser escrito?)

Quem escreveu o poema A Eleusis que Hegel, já 200 anos,
dedicou a Hölderlin? Porque combateu Hegel a positividade?
A que descobertas chegou Schelling, conservador em Berlim,
entre
os seus papéis? Que mão deitou fogo, em 1946, à Sala dos
Apócrifos do Museu Gnóstico de Tübingen?


Manuel António Pina
in “Poesia, Saudade da Prosa”
uma antologia pessoal
lido por Danyel Guerra

Última parte da sessão de Homenagem a Manuel António Pina

Manuel António Pina



Manuel António Pina
Manuel António Pina a agradecer a homenagem prestada declamando
um poema inédito de sua autoria





 Oferta de uma serigrafia de António-Lina ao homenagiado de modo a
agradecer a sua presença

 A menina Leonor foi a escolhida para tirar o número sorteada desta sessão
 A serigrafia "Tempestade no Douro" de António lido saiu a Ana Maria



 João Pessanha com Manuel António Pina

quarta-feira, 20 de julho de 2011

TUDO O QUE TE DISSER

TUDO O QUE TE DISSER

São feitas de palavras as palavras
e da melancolia da
ausência da prosa e da ausência da poesia.
É o que falta que fala
do lugar do exílio
do sentido e da falta de sentido.

Tudo o que te disser
tudo o que escrever
sou eu a perder-te,

cada palavra entre
o que em mim é corpo
e é nela sopro.

        Manuel António Pina
     in “ Nenhuma Palavra, Nenhuma Lembrança”
         Lido por João Pessanha

A EQUAÇÃO DE DRAXE

A EQUAÇÃO DE DRAXE
 (Numa exposição de Ilda David’)

Entre duas águas
(entre H e HO)
corre uma água só
transportando a equação do mundo
até ao mais fundo
sítio do coração,
onde se torna vida o mundo
e a água respiração.

Vinda do mundo,
corre para dentro a vida da pintura,
entre tempo e tempo,
líquida e pura.
Volta-se uma última vez para trás,
e a única coisa que dela vês
é o seu olhar olhando-
-te e desprendendo-se de ti.

                             Manuel António Pina
                             in “ Nenhuma Palavra, Nenhuma Lembrança”
                                      Lido por Ana Maria

AMOR COMO EM CASA

AMOR COMO EM CASA

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
                               Manuel António Pina
                               in “ Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo.
Calma é Apenas um Pouco Tarde”
                                       Lido por Miguel Leitão

A BOCA E OS OUVIDOS

A BOCA E OS OUVIDOS

As palavras depõem
contra o coração,
que não quer dizer nada
nem ouvir nada.

As suas mãos alheias
tocam balbuciando
o meu coração.
Como se lhes negará o meu coração?

A baba do sentido
devassa a minha boca
com sórdidos ouvidos.
Como me calarei? Sem que palavras?

Oh, apenas um instante de silêncio,
uma palavra de
harmonia e solidão,
de morte e de indistinção!

            Manuel António Pina
            in “ Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança”
            Lido por Irene Lamolinairie

PALAVRAS INSONORAS

PALAVRAS INSONORAS

Há base de palavras insonoras
e alicerçadas num tempo irrepetível
irrompe doutras noites castradoras
a luz imperturbável do tangível.

Qual Fénix renascida dos escombros
no oblíquo olhar das coordenadas
constelações pungentes nos assombros
são o esplendor de silhuetas desnudadas.

E dos idílicos despojos inventados
pelos relógios que batem a desoras
fenecem gritos na voz de tão calados
em decibéis de palavras insonoras.


Kim Berlusa

POESIA 20 JULHO 2011

 Maria de Fátima
 Maria de Fátima

 Maria Teresa Martins Risco
Maria Teresa Martins Risco
 Maria Teresa Martins Risco 
 Maria Teresa Martins Risco 
 Maria Teresa Martins Risco 
 Maria Teresa Martins Risco 
 João Pessanha
João Pessanha
Manoel do Marco
Manoel do Marco
 Manoel do Marco
 Irene Lamolinairie
 Irene Lamolinairie
 Irene Lamolinairie
 Irene Lamolinairie
Irene Lamolinairie
Kim Berlusa a ler um poema seu em homenagem a Manuel António Pina
 Kim Berlusa
 Kim Berlusa
Kim Berlusa
 Ana Pamplona
 Ana Pamplona
 Ana Pamplona
Ana Pamplona