sexta-feira, 22 de julho de 2011

ÚLTIMO POEMA


ÚLTIMO POEMA
«Ó morte que me guiaste, ó morte
amável mais do que a alvorada»
S. João  da Cruz
A dor acompanhar-me-á,
a dor de não ter escrito
o teu nome e de não ter sabido
as perguntas e as respostas; nos teus braços quem me receberá?

E fará tanto frio
que a eternidade
se consumará sem mim no quarto agora vazio
de exterioridade e de contemporaneidade.

Só terei as minhas palavras,
mas também elas são mortais
mesmo as mais banais e mais
próprias para falar de coisas acabadas.

Terei talvez morrido; nunca o saberei.
Nem não o saberei tão perto estarei,
o rosto reclinado no teu peito,
a minha vida um sonho teu, desfeito.

Manuel António Pina
“Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança”
lido por Ana Maria

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