terça-feira, 26 de julho de 2011

É PRECISO


É PRECISO

É preciso ficar aqui, entre os destroços,
E cinzelar a pedra e recompor a flor.
É preciso lançar no vazio dos ossos
A semente do amor.

É preciso ficar aqui, entre os caídos,
E desmontar o medo e construir o pão.
É preciso expulsar dos cegos dias idos
A insónia da prisão.

É preciso ficar aqui, entre os escombros,
E libertar a pomba e partilhar a luz
É preciso arrastar, pausa a pausa, nos ombros,
A ascensão de uma cruz.

É preciso ficar aqui, entre as ruínas,
E aferir a balança e tecer linho e lã.
É preciso o jardim a envolver as oficinas:
É preciso amanhã.
             António Manuel Couto Viana,
                   in “Nado Nada, 1977”
      Lido por Miguel Leitão

CÂNTICO NEGRO


CÂNTICO NEGRO

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com os olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “Vem por aqui”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “Vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí.
                    José Régio
        Declamado por Maria Teresa Martins Nicho

sábado, 23 de julho de 2011

Poema de homenagem a Manuel António Pina


Particularmente, neste dia
eu sinto-me lisonjeado
por estar presente, nesta galeria
tão nobre e ilustre convidado.

Nunca fora um almocreve
de políticos, ou governantes
e tudo aquilo que escreve
são temas sérios e relevantes

Poeta, cronista e prosador
de substrato literário elevado
foi por mérito o justo vencedor
do prémio, com que foi  agraciado.

Este nobre e ilustre convidado
é  um homem de plenas convicções
e é um privilégio ter aqui sentado
MANUEL ANTÒNIO PINA
galardoado ,com o Prémio Camões....
Um abraço deste seu simples amigo.

Kim Berlusa

PRAGAS COM PRÉMIO

PRAGAS COM PRÉMIO

            Grandes ou pequenas, todos nós já rogamos pragas a algo ou a alguém que não gostamos. Mas, poucos serão os que confessam ter já praguejado com o que gostam. Eu, por vezes, com o meu Sporting e não só…

            Exemplificando melhor: - Compro de segunda a sexta, a crónica do Manuel António Pina, que traz como oferta o “Jornal de Notícias” e logo que pego nele, maquinalmente olho para a última página, leio o “Por outras palavras” e deliciado com mais uma lição dobro o jornal.

            De quando em vez, um cantinho  diz-me que por motivos de saúde a crónica não será publicada, e é aqui que sai praga:
            - Oh, pá, este Pina só devia adoecer aos fins de semana e mesmo assim de quinze em quinze dias, por causa da crónica no “Notícias Magazine”.
            Uma vez por ano, o mesmo cantinho anuncia-me que o autor da crónica que me anima e alerta, vai estar ausente em férias, nova praga me sai de imediato:
            - Férias (?), com esta crise! Depois o “JN” queixa-se que as vendas baixaram. Este Pina, já devia saber que o pessoal sem a crónica dele durante um mês é o mesmo que ter um GPS espanhol, andamos á deriva!

            - Confesso que só houve um dia em que a falta do “Por outras palavras”, não me fez rogar qualquer praga, até fiquei satisfeito, foi no dia em que a crónica deu lugar à notícia de que o “Prémio Camões” tinha sido atribuído ao Manuel António Pina. Nesse dia li logo “o jornal do Pina”, termo usado pelo Fernando Alves, na crónica “Sinais”, da TSF sobre a atribuição do prémio.

             Finalizo com a informação de que esta crónica, não seria publicada no “JN”, por exceder os mil e duzentos caracteres. O que quer dizer que até nisto do poder de síntese o Pina é muito bom!


eduardo roseira
(Ao Poeta Manuel António Pina com admiração.)
Porto, 18 de Junho de 2011
Homenagem da Galeria Vieira Portuense
lido por Lurdes dos Anjos

A FERIDA


A FERIDA

Real, real, porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste

que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.

Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado! Mas onde encontrar um passado?

Manuel António Pina
in “Os Livros”
lido por Leonor Reis

A POESIA VAI


A POESIA VAI

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –

Manuel António Pina
in “Poesia, Saudade da Prosa”
lido por Maria Lourdes dos Anjos

UMA PROSA SOBRE OS MEUS GATOS

UMA PROSA SOBRE OS MEUS GATOS

Perguntaram-me um dia destes
ao telefone
por que não escrevia
poesia (ao menos um poema)
sobre os meus gatos;
mas quem se interessaria
pelos meus gatos,
cuja única evidência
é serem meus (digamos assim)
e serem gatos
(coisa vasta, mas que acontece
a todos os da sua espécie)?
Este poderia
(talvez) ser um tema
(talvez até um tema nobre),
mas um tema não chega para um poema
nem sequer para um poema sobre;
porque é o poema o tema,
forma apenas.
Depois, os meus gatos
escapam de mais à poesia,
ou de menos, o que vai dar ao mesmo,
são muito longe
ou muito perto,


Manuel António Pina
in “Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança”
lido por Maria de Fátima

sexta-feira, 22 de julho de 2011

KIM BERLUSA


Nâo sei se há um poeta em mim
nem nunca o irei saber
sei é que sinto um frenesim
que me impele a escrever.
Eu nâo sei bem porque escrevo
pois é algo inexplicável
mas embrenho-me no enredo
desse mistério insondável.

Nâo sei se há um poeta em mim
porque um poeta é um mundo
que sem ter principio nem fim
É elevado e profundo.
O poeta com seu olhar
vê tudo para alem do óbvio
tem a paz no respirar
e nâo faz odes ao ódio.
Mas com todo este frenesim
que me impele a escrever
nâo sei se hà um poeta em mim
nem nunca o irei saber..
KIMBERLUSA

AGITADOR


AGITADOR

Nesse tempo oferecíamos sonhos ao domicílio
Tocávamos harpa nos labirintos da vila
Dedilhando com amor as caixas do correio

O ar aparafusava a nossa emoção
Em distintos silvos de comboio
E a amizade toda de mão na mão
Nesse tempo encarava a vida sem desdém
Desfolhava os panfletos em papel de seda
Vestidos de arco-íris e esperança.

O homem que punha a liberdade nas caixas do correio
Era o anjo nocturno da cidade
era o tempo do rio nos lavar a cara
nas auréolas do sono e da luta

já não tínhamos medo porque tínhamos razão
acordávamos nos outros uma ideia nobre
de revolução.

Fernando Morais

À ANA NO DIA DO ANAVERSÁRIO


À ANA NO DIA DO ANAVERSÁRIO

Havia uma flor!
Nem eu sabia
onde é que a flor havia,
mas tanto fazia,

Talvez houvesse
onde ninguém soubesse
ou fosse uma flor de estar a haver
só na minha imaginação,
ou não fosse uma flor, fosse uma canção.

Nem a flor sabia
que existia.
Em qualquer sítio, sem saber, floria.
E se fosse uma canção cantava e não se ouvia.

E isso acontecia
no meu coração.
Não sei se era uma flor se uma melodia,
era qualquer coisa que havia
e cantava e floria
dentro de mim sem razão.

Ia pela rua e ninguém diria.
As pessoas passavam
e eu dizia:
«Bom dia!»
e ninguém suspeitava
o bom dia que fazia
em qualquer sitio
que dentro de mim havia!
Só eu sabia e sorria,
levando-te pela mão.

Alzira Santos
3/7/1980

ÚLTIMO POEMA


ÚLTIMO POEMA
«Ó morte que me guiaste, ó morte
amável mais do que a alvorada»
S. João  da Cruz
A dor acompanhar-me-á,
a dor de não ter escrito
o teu nome e de não ter sabido
as perguntas e as respostas; nos teus braços quem me receberá?

E fará tanto frio
que a eternidade
se consumará sem mim no quarto agora vazio
de exterioridade e de contemporaneidade.

Só terei as minhas palavras,
mas também elas são mortais
mesmo as mais banais e mais
próprias para falar de coisas acabadas.

Terei talvez morrido; nunca o saberei.
Nem não o saberei tão perto estarei,
o rosto reclinado no teu peito,
a minha vida um sonho teu, desfeito.

Manuel António Pina
“Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança”
lido por Ana Maria

Como no tempo


Como no tempo
em que rasgava-mos
amplos espaços
ainda em branco
e íamos gravando
nas pedras
a surpresa dos gritos
enrodilhados no suspenso
e vigoroso, pêndulo do sol. 
Como no tempo
em que a memória eclodia
e dardejava na medula
do ainda, puro amor
quando a ausência, de nós
era vernáculo de saudade
e arabesco de  sabedoria.
Como no tempo
em que os sonhos
se mantinham dentro
da transparência
inocente do olhar.

Kim Berlusa

quinta-feira, 21 de julho de 2011

KIM BERLUSA

Passei hoje o dia assim
a entoar silêncios
a desbravar tormentos
a desnudar sentimentos
só para fugir de mim.

Passei hoje o dia assim
a diluir universos
a juntar sonhos dispersos
a medalhar os reversos
só para fugir de mim.

Passei hoje o dia assim
a embriagar-me de nexos
a cegar-me de reflexos
a orgasmar-me de sexos
só para fugir de mim.

E neste caleidoscópio
passei hoje o dia assim
sempre preso a mim próprio
só para fugir de mim.

KIM BERLUSA

Café do Molhe

Café do Molhe

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

                 Manuel António Pina
               “ Poesia, Saudade da Prosa”
     Lido por Ana Pamplona

AZUL

AZUL

A luz, se formos luz. A sombra
se formos sombra: os olhos, sombra;
o coração, sombra; a própria luz
do pensamento, exílio e sombra.

Na infância (pois fomos
jovens um dia) atrás dos reposteiros
o invisível vigiava
o nosso sono desperto.

Agora que acordámos
do amarelo e do azul
e do branco e do azul
e do coração e do azul,

como regressaremos
a este mundo?
(O azul não é deste mundo,
nem os olhos são destes mundo)

À nossa porta batem
inúteis as lembranças: sombras.
Cegámos. Os amigos (sombras)
morreram de doenças de velhos,

o enfarte, a solidão, ou só
de morte, e nem
uma réstia de azul iluminou
o seu último olhar.

Se ao menos tivéssemos
envelhecido sem motivo, sem tempo,
desaparecido para dentro
lucidamente, como uma coisa desprendendo-se.
                
                      Manuel António Pina
                      “ Poesia, saudade da Prosa”
                           antologia pessoal
                   Lido por Irene Lamolinairie

TODAS AS PALAVRAS

TODAS AS PALAVRAS

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa,
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram, levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias:
as minhas últimas palavras.

Manuel António Pina (1943)
in Poesia Reunida
lido por Fernando Cardoso

METADE

METADE

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca

Porque metade de mim é o que grito
Mas a outra metade é o silêncio

Que a música que ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza

Que a mulher que eu amo
Seja para sempre amada
Mesmo que distante

Porque a metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
Nem repetidas com fervor

Apenas respeitadas
Como a única coisa
Que resta a um homem
Inundado de sentimentos

Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma
E na paz que eu mereço

E que essa tensão
Que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada

Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável

Que o espelho reflicta
Em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância

Porque metade de mim
É a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei

Que não seja preciso
Mais do que uma simples alegria
Para me fazer aquietar o espírito

E que o teu silêncio
Me fale cada vez mais

Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba

E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade
Para fazê-lo florescer

Porque metade de mim é plateia
E a outra metade é canção

E que a minha loucura
Seja perdoada

Porque metade de mim
É amor

E a outra metade
Também

Ferreira Gullar
80 anos
Prémios Camões 2010
lido por Leonor Reis e Lourdes dos Anjos

HEGEL, FILÓSOFO ESPORÁDICO?

HEGEL, FILÓSOFO ESPORÁDICO?

Ninguém morreu de morte tão natural como Hegel.
Alguns anos antes tinha descoberto, horrorizado,
que Deus o havia colocado
no centro de Tudo.
Morreu como um bárbaro: subitamente o seu

coração parou de bater, e inclinou levemente
a cabeça sobre o lado direito.
É sempre Outro quem escreve (Como poderia o escritor, ele
[próprio, mesmo quando é
um Filósofo, reconhecer o que está ali para ser escrito?)

Quem escreveu o poema A Eleusis que Hegel, já 200 anos,
dedicou a Hölderlin? Porque combateu Hegel a positividade?
A que descobertas chegou Schelling, conservador em Berlim,
entre
os seus papéis? Que mão deitou fogo, em 1946, à Sala dos
Apócrifos do Museu Gnóstico de Tübingen?


Manuel António Pina
in “Poesia, Saudade da Prosa”
uma antologia pessoal
lido por Danyel Guerra