terça-feira, 16 de agosto de 2011

FLORAIS OUTONAIS


FLORAIS OUTONAIS

Ténue, a luminosidade fica,
Diminui o dia,
Aumenta a noite.
Mas as estrelas, o sol, a lua,
Permanecem lá,
A brilhar, a brilhar,
E as flores, a nascer continuam!

Amarelado, vermelhado, alaranjado,
Tons comuns se tornam,
As cores, outras, todas,
Num cuidadoso florir unem-se,
Majestosos outonais florais,
Essas incógnitas flores,
Para uns e outros desconhecidas,
Na alma bordadas,
A cor de todas as flores tem!

Estado de espírito,
Outono parece,
Das cinzas, renasce,
Floresce!
Pintado a vários tons,
Garridos, mesclados, discretos,
O outro lado da alma,
Numa dimensão e visão outras,
Florejar sorrisos,
Novo ciclo denunciam,
Qualquer ser encantam,
E nova vida inicia!
Natural,
Como um bom filho,
Da Natureza Mãe!
Cristina Maya Caetano

VERMELHO E PRETO


VERMELHO E PRETO

No raio de sol no calor do lume
na brasa acendida do aceso amor
perpassa às vezes um súbita frio
apesar do fervor no finíssimo gume

Apesar do horror da pretíssima noite
distingue-se às vezes por entre o negrume
um fogo vivo devorando aflito
a sua própria cor…

Esconde, esconde amor estas palavras
o amor que nos une é clandestino
porque hoje a ternura é coisa rara
e tem inimigos à esquina

Esconde, amor, o nosso amor
que é transgressor da vida das viaturas
feita de fumos e lixo deitado à rua
e a ternura não é bem vista nem aceite

Esconde amor que estás feliz amando
agora só quem mata plantas, fere rios
tem o direito de falar e circular
e esses são os donos das cidades

Por isso esconde já os nossos versos
e as mensagens de carinho que trocamos
os automóveis matam, gazeiam
escurecem o mundo onde estamos

Uma frase doce ciciada ao ouvido
ou dita de olhos nos olhos penetrante
com aquela chama calma e sedutora
como é próprio do humano ser querido

Uma palavra assim doce e perfeita
já não se houve no planeta inteiro
porque o som das viaturas é única colheita
de ruídas, no actual viver, cruel, grosseiro

Tanta falta nos faz a doçura da harmonia
que a nossa vida sem ela é insana
e por isso digo aqui em voz baixinho
amor, amor, suave luz, terna alegria…

Com este ritmo coisas, dos gestos
as indiferenças partidas ao meio
e o Universo repleto cada vez mais cheio
das palavras obscenas que se dizem na Terra

No meio das galáxias até já fazem furor
tantas palavras feias que se dizem por cá
e os pobres planetas têm de escutá-las
sem nada terem feito para um tal castigo

As palavras circulam por esse espaço fora
ferindo os átomos em perceptíveis sons
Mostram o que somos, nem maus, nem bons
sons de palavras dum povo que chora.

Com as mãos que temos e que o Sol nos deu
para bater palmas aos nossos locutores
com essas mãos cuidamos de rosas no quintal
e embalamos as crianças dos primeiros dias

Com estas mãos fizemos cordões no 1.º de Maio
e dançamos ao luar da bendita esperança
com elas não devemos alimentar a usura
dos vazios da ideia, campeões da incultura.

Em Setembro cultivei os tempos livres
para alcançar gaivotas sobre o rio
depois, já cansado retirei as asas
e fui pendurá-las num armário

Daí me veio a queimadura de voar
que se insinua pelos dedos onde há unhas
onde sólidos penedos pressupunhas
serem esculturas de homens de outras eras

Em Setembro, porém, cresci todas as tardes
que eram feitas do bolor dos dias
nem sei se ri por dentro ao tocá-las
só sei que se desfizeram nos meus dedos

Em Setembro ouvi música curativa
foi do mais barato que Setembro deu
a quem estava de partida

Donde vem esta luz, este oásis
do Capital, selvagem, triturador
com que engana os papalvos, os ignaros
basbaques das lantejoulas, do circense,
deslizando no visco lisbonense?

Donde vem esta fúria de comprar
este odor mecânico dos berloques
poluição mental e nauseabunda
destes humanos a reboques
em servidão perpétua e tão profunda?

Donde vem?

Apenas o silêncio me acalma e ilumina
apenas a amargura me dá forças
não consigo perceber a alegria
nem sei que fluxo ri quando se riem.

Donde vem a tristeza isso sei eu
que o Norte tinha com tanta impertinência
ainda era novo e ria na minha adolescência
E agora? Porquê esta amargura? Quem ma deu?

O tempo que passou, as rugas que tão bem se lêem,
é apenas tempo. São apenas rugas
os anos que as fizeram, esses, não se vêem
ficaram lá atrás desfeitos nas alturas.

Agora vivo com o que o Sol me dá
e a apatia quer vingar por dentro dos meus dias
mas eu luto e ferro-me para trincar as frias
alvoradas de inverno. Ora aí está!

Plantamos as ruas, as avenidas
no meio das antigas quintas e pomares
plantamos prisões de cimento e vidro
onde só dormimos pesadelos.

Afogamos a vida com recibos e facturas
inundamos a existência com venenos
de automóveis que chocam uns nos outros
e não vão nunca ao seu destino.

Fritamos as tardes com lixos e dejectos
e emporcalhamos as árvores que restam
com sacas de plástico e ruídos.

Deixamos os filhos neste inferno
sem presente, sem futuro, sem memória
a caixa registadora dá as horas
e os pneus rebentam sem estrondo.

As carcaças dos pobres povoam-se de vermes
e a bandeira nacional ondeia esburacada
ninguém sabe cantar o nosso hino
nem os acordes de Grândola Morena
mas sabem onde comprar o pó
de todos os suicídios colectivos.

Que podia eu fazer senão escrever poesia
como asceta dos sonhos irrelevantes
e burilador de fatais imposturas?

Que podia eu fazer além de imaginar o livro
chamando baixinho no meu quarto às escuras
por um momento desses que são ouro de lei
e que surgem às vezes sem se saber como?...

Ao segredo das curvas, ao sorriso
corpos em movimento que adoçam a paisagem
e as formas juvenis que dançam, que volteiam
riscando o ar de luzes e imagens…

Ao livro aberto sobre a praia reluzente
ao olhar da criança solitário e penetrante
a realidade é feita do que é movente
e só os olhos falam a suprema linguagem…

Fernando Morais
in O Poeta Escondido

POEMA DA ESPERA


POEMA DA ESPERA

A vida é somente espera;
disso tenho consciência.
Minha alma não desespera,
sou feita de paciência.

Esperei crescer um dia,
esperei filhos nascerem,
esperei numa agonia
a hora dos pais morreram.

Nestas esperas, que dores!
Às vezes perdi o norte…
Depois de tais dissabores
fico à espera da morte!

Tudo que esperei da vida
foi por demais e o perdi…
Mas sinto-me agradecida
pelo muito que recebi!

Espero a lua brilhante,
espero a noite calada;
assim, me deito esperando
a hora do zero, o nada!

E no tempo pressentindo
com os olhos feitos vitrais,
a pena que irei sentido
por não esperar jamais!
Sempre esperar…esperar…
esta é a saga do mundo!
Depois de tanto ansiar
cair num sono profundo! 

Maria de Lourdes Martins
in Castelo de Legos

SÉCLO BINTIUM


SÉCLO BINTIUM

Esquecidos os sestércios
E os morabitinos,
São dólares e esterlinos
Os foragidos da forca
E os nobres piratas
São, hoje, almas de apaches
Que, de tomawak com asas
Fazem filmes no Iraque,
Cozem ovos e chechenos
Rapinando bananas,
Petróleo e açúcar de canas,…
O que resta dos ducados e dobrões,
Até ao último ceitil,
Desde os diamantes angolanos
Até ao «pitrol» dos timoranos.

Hoje, os biliões são milhões,
cem, são apenas cêntimos,
E mil é metade de cem,
Na bolsa dos mamões!

Grandes pecados,
Pobres pescadores…
A Terra Nova é Hollywood,
O Hawai é da União,
Viva o nescafé descafeinado,
A cocacola e a cocaína,
Vivam os rambos e a heroína.
«Chuinga», drops e donuts!
Abaixo o bacalhau,
O azeite e as castanhas!
Tudo enlatado,
Mesmo que estragado!
Seios ao léu,
Cartaz visual,
Viva o plástico
E o sexo oral…
Viva o Pentágono!
Abaixo Salomão!
Só resta clonar
Mónica ou Clinton!
É tudo «nice»,
A «overdose» já é fartote…
Ser feliz é ser farrapo

Das alfurjas de Nova Iorque!
E sapatos de ténis,
Brincos nas orelhas,
(Para esquecer os arganéis
Dos porcos sem peste)
É sinal de virilidade!

Cabelos rapados,
Por excessos de lêndeas,
Ou compridos,
Para imitar a putéfia,
Não sendo Lucrécia,
É sinal masculino!
E o telemóvel?
É moderno,
É uma cabine na mão
Ou no ouvido, de borla!

«Notáveis»…
Batráquios, aracnídeos,
Extraterrestres,
Desenhos animados,
Borrados…

E que mais, que mais?
Que mais? Batatões, saltões,
Com «música-barulho»
Desde os queixumes dos escravos,
Até ao desespero
Dos índios encurralados!

Noitibós de discoteca,
Herdeiros de doutores
Com filhos de «chaufeurs»
E de jardineiros,
Dizendo-se não pais de filhos
Das filhas de caseiros!
Roceiros, volframistas,
Actores de bailes de Cascais,
Autores do «periúdo» em Portugal,
Antifascistas «argelenses»
Sem penas do Tarrafal!...
Augustos, divinos,
Fidelíssimos, beatos,
Camarlemgos,
Santos com vida,
Veneráveis…
Sanguessugas, vampiros…
Espectadores de archotes humanos…
Da ciência sem dogmas!

Esclavagistas,
Fabricantes de mulatos!
- Oh, Maria!
Tira os óculos de «cabelo»
Para não ganhares brancas!
Verás que após a menopausa
Parecerás uma sueca,
Lourinha…
Não sendo «puteca».

Quem comia francesinhas
E rilhava pregos
Vê-se, agora, lamber «gelatti»
E a devorar pizzas…
Grandes, familiares, médias!
Quem foi «borrachão»,
«Homem de tasco»,
Amigo de Noé e convidado de Caná,
Hoje, ou é papa-hóstias sem vinho
Ou lambe-botas de moralistas,
Socialistas ou fascistas,
Filhos de Constantino,
Esquecendo romanos,
Suevos, vândalos e alanos,
Bêbados de whisky,
Esquecidos dos leprosos,
Muito honrados,
Sendo «sidosos»…

Nabos, pacóvios,
Não de Bordalo Pinheiro
Mas de importação da CEE…
Adeus Zé Povinho…
Bravo, Ambrósio!
Um biscoito para parlamenteiros,
Um copo de vinho para ministros,
Mais uns quilos de ouro
Vendidos sem riscos…

Assim, é que é!

- Que havemos de fazer?
- Sexo!
Pronto remédio para tudo:
Parkinson, Alzheimer,
Foot-ball, roc and roll…
- Remédio para tudo?
- Menos para a SIDA,
Doença pela América vendida!...

Manoel do Marco

sexta-feira, 29 de julho de 2011

No cais dos anseios


No cais dos anseios
ficam apenas
ermos barcos
de rumos incognitos
e redes com sonhos abortados.
No cais dos anseios
ìmpias as amuradas
jà exaustas ,pelo ciclo
das estaçôes
debruam o pasmo
do inerte desencanto
em horas desprovidas
de inòqua  realidade
e povoadas de solidâo.
Enquanto a brisa,susurra
aos ouvidos de toda a gente
que o frio da nostalgia
lhe morde a epiderme.
Kim Berlusa

PALCO


PALCO

Quando surjo no palco da vida,
o espectador fica expectante,
não sabe se sou actor principal,
palhaço ou figurante!


Quando rio não faço rir,
quando choro não me levam a sério,
não sabem se sou tenor
ou menino de coro!

A vida é um palco.
o resto é maquilhagem,
com muito,
muito pó de talco!

Nem sempre um fidalgo,
-com muito pó de talco-
que vai em rica carruagem
iguala do cavalo a linhagem!

A vida é um palco,
com muito,
muito pó de talco!

Silvino Taveira Machado Figueiredo

À PAZ


À PAZ

poderia escrever-te palavras de momento,
palavras, só palavras, nada mais.
mas não.
no meu sentir, entrego-te meu sentimento
orando, para na vida sermos todos iguais.

bela em ti mesmo como a primavera,
desejada ardentemente no sofrer,
és no espaço uma pomba singela,
num mastro, sinal de amor p’ra se ver.

voando ou acenando quero-te viva,
semente a crescer em todo o peito,
sem reis de ventos mas flores de brisa
com o perfume do amor perfeito.

Teresa Gonçalves
in “pleno verbo”

quinta-feira, 28 de julho de 2011

PLANÍCIE


PLANÍCIE

Esta forma de ver como eu sinto
a planura,
a lisura do homem que eu quero que exista.

Esta forma de ver como eu sinto
o amarelo e a luz
e o vermelho da terra
e da carne
e do sangue
e do grito que abafa cá dentro.

Esta forma de ver como eu sinto
é ver planície por dentro,
é sentir
em mim a abrasar
o fogo que a ressequiu.

Esta forma de ver como eu sinto
é nostalgia,
é saudade: Salamanca lá atrás,

          a frescura, o oásis,
          a festa, o capricho,
          a arte,
          o sonho da minha infância

a sobrevoar a vida.

Esta forma de ver que é da alma
 e que os olhos ajudam
dói,
mas faz viver e dar conta da vida.

Esta forma de ver como eu sinto
não é ter olhos na alma,
mas alma que chega a eles.
      
Miguel Leitão
in "Em nome das palavras"

QUE IMPORTA?

QUE IMPORTA?

Que importa a vida se eu não sei viver
conforme eu sei que vive toda a gente
e se eu não sei, infelizmente, ser
o que outros são: tranquilo e indiferente?

Tenho as tristezas que é costume ter,
porque elas surgem para toda a gente,
mas também tenho muitas a nascer
que a ninguém nascem, muito certamente…

E enquanto os outros buscam disfarçá-l’as
com gozos e alegrias e matá-l’as
cobrindo-as com champanhe e com amores

eu fico-me a cismar nas minhas penas
e se elas por ventura são pequenas,
pensando nelas, fazem-se maiores!...
         
Oliveira Guerra
in "Algemas"

quarta-feira, 27 de julho de 2011

COLORIDAS FOLHAS

COLORIDAS FOLHAS

Folhas!
Tamanhos múltiplos,
Distintas espécies denunciam.
Desenvolvimentos diversos,
Tal a evolução de cada vivo animal ser,
De bebé, criança,
A jovem, adulto, velho, caduco.
Nas folhas,
Desmaiadas cores,
O declinar da vida anunciam.
Coloridos graciosos,
Alegria do inicio exibem.
Tal multicolor salteado,
Em qualquer ser,
A aura evocam,
Tal como um arco-íris,
Que do céu vindo,
Em paz,
À terra se reúne.

Vivas folhas,
Próprio cheiro,
De uma vida, aromas.
Perfume doce,
Suavidade tudo invade.
Já ácido perfume…
Histórias, outras contam,
Contrariedades, até,
Em estranhas visíveis reentrâncias.
 Mas… a simplificada leveza,
Sempre à natureza retorna!
Tal como brancas folhas,
Das páginas de um livro cativas,
Onde nova história se recomeça,
E um diferente final,
Reescrever se pode.
Distinta fase,
Ao sabor do vento,
Secas folhas voam,
Sem mágoas,
Sem atrás volverem,
Não se importando,
Que logo, logo,
Novas folhas renasçam!
Cristina Maya Caetano

No totem do tempo


No totem do tempo
persiste a ruptura
e as lágrimas soltas
à tona dos olhos.
Persiste a palavra
já calcificada
nos ossos dos lábios
O sonho perdido
no resto do sono
de uma noite que è
ainda criança.
No totem do tempo
assaz escultura
ruge a verdade
bem incrustada
e contemplativa
na imensa textura
que se chama, vida .

Kim Berlusa

POEMA SECRETO


POEMA SECRETO

Há um poema secreto
desde o Big-Bang,
desde que Deus registou sua identidade,
cada verso está em cada estrela,
em cada planeta,
as rimas são em constelações,
os versos andam por aí,
secretos, dispersos
e formam teoremas,
infelizmente,
à Terra não chega luz suficiente,
para lermos esse poema secreto,
apenas se olha para as estrelas,
para a Lua,
para outros planetas,
mas,
para para ler esse poema secreto,
continuamos ceguetas!
não temos luz!
embora,
não falte quem se julgue iluminado,
mas não passa duma sombra,
que na sombra tomba, por certo,
e o poema continua secreto!
............xxxxxxxxxxxxx.............
Autor deste original e inédito;
Silvino Taveira Machado Figueiredo
(Figas de Saint Pierre de Lá-Buraque)
Gondomar

Não valia a pena esperar


Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos!
Estávamos sós e essa solidão éramos nós;

Era indiferente sabê-lo ou não,
Ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
O grito era a própria indiferença.

Presente, apenas presente;
a memória, presente;
a esperança, presente.

E, no entanto, houvera um tempo
em que tínhamos sido talvez felizes,
quando não nos dizia respeito a felicidade,

e em que tínhamos estado perto
de alguma coisa, maior que nós,
ou do nosso exacto tamanho.

Como um animal devorando-se
por dentro de si mesmo,
consumira-se, porém,

o pouco que nos pertencera; os dias e as noites;
a certeza e o deslumbramento; a cerejeira e a
palavra «cerejeira» ainda em carne, na jovem boca.

Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse,
nenhuma renúncia que nos prendesse
ou nos libertasse, nenhuma compaixão que

nos devolvesse o ser,
ou o mesmo,
ou fosse a morada de algo inumano como um coração!

Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior
nenhumas pálpebras se abriam
como poderíamos não nos ter perdido?

Entre 10 elevado a mais infinito
e 10 elevado a menos infinito,
uma indistinta presença impalpável, na indiferença azul,

sós,
sem ninguém á escuta,
nem a nossa própria voz.
       
Manuel António Pina
in “ Os Livros”
lido por Fernanda Cardoso

A POBREZA DOS OUTROS


A POBREZA DOS OUTROS

O padre que, na infância, nos dava a catequese pregava a pobreza no púlpito mas, fora dele, tinha vinhas e senhorios e dizia-se que pagava as jornas mais avaras da região. Um dia em que apareceu com um carro novo, um Taunus azul escuro, o Américo, filho do taberneiro, pôs-lhe uma inocente questão teológica: porque é que Cristo andava a pé ou de burro e não de automóvel? O padre António ofendeu-se; respondeu que burro era ele, Américo, porque no tempo de Cristo não havia automóveis e que, se houvesse, Cristo teria um carrão. Nesse dia, a catequese foi sobre o pecado da
inveja e o Américo teve que prometer que se iria confessar.
Ocorreu-me esta história ao ler na DN que o Papa virá a Portugal (três horas de viagem) num avião adaptado para lhe assegurar o máximo conforto. “O espaço ocupado pela 1.ª classe terá um quarto com cama para o Papa, outro para o seu secretário pessoal, uma casa de banho, uma casa de banho com chuveiro, um salão social e até uma pequena capela”.
            Aprendi a lição do padre António e não duvido de que, se no seu tempo houvesse aviões, Cristo também andaria com cama, salão social e capela trás de si.
                                          
 Manuel António Pina
                                   in “Por outras Palavras”
mais crónicas de jornal
lido por Lourdes dos Anjos

terça-feira, 26 de julho de 2011

O QUE ME VALE


O QUE ME VALE

O que me vale aos fins de semana
é o teu amor provinciano e bom
para ele compro bombons
para ele compro bananas
para o teu amor teu amon
tu tankamon meu amor
para o teu amor tu te flamas
tu te frutti tu te inflamas
oh o teu amor não tem com
plicações viva aragon
morram as repartições

Manuel António Pina
lido por Ana Pamplona

SE


SE

Incógnita? Interrogação?
Esta palavra real
Procura? Ou afirmação
Seu significado total

O se sempre me diz
Que na verdade há ficção
Intrínseca em sua raiz
Profunda nessa questão.

Mas o se pode ser esperança
De uma causa conseguida
Ao acontecer será bonança
Como o prolongar da nossa vida.

Se eu pudesse viajaria
Nesse cosmos apaixonante
O se me levitaria
Para uma paz tranquilizante

Interrogo-me? O se tem mesmo valor
Tem resposta para tudo
Coeso sem nenhum pudor
Ficar por vezes tão mudo.

Se cantasse se amasse com paixão
Se sofresse com o stress da dor
O se me traria a ilusão
De ser um eterno conquistador.
                             João Pessanha

JUNTO À ÁGUA


JUNTO À ÁGUA

Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.

Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz da infância, que o teu silêncio me chamasse.

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos

e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitecer em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.          
                         lido por Alzira Santos