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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

3.

José González Collado
3.

Ouvi os teus passos
do outro lado das árvores
lavei o linho
e temperei o anho

Na cama puz a colcha da alegria
que nas janelas anuncia a festa
no meu olhar todas as cores da aurora
na boca o coração de uma cantiga

Chegaste devagar. Como se o tempo
fosse um menino de cabelos doces

Disseste-me mulher disseste lua
buganvília alfazema cachoeira
disseste água do mar
disseste lava

E um rio atravessou a nossa casa
um pássaro fez ninho na almofada
o fogo amotinou-se na lareira
sobre a mesa nasceu
uma roseira brava.

Rosa Lobato Faria
lido por Lourdes dos Anjos

sábado, 13 de novembro de 2010

AFIRMAS QUE BRIGÁMOS...

Pais Garcia

Afirmas que brigámos. Que foi grave.
Que o que dissemos já não tem perdão.
Que vais deixar aí a tua chave
e vais à cave içar o teu malão.

Mas como destrinçar os nossos bens?
Que livro? Que lembrança? Que papel?
Os meus olhos, bem vês, és tu que os tens.
Não te devolvo – é minha! – a tua pele.

Achei ali um sonho muito velho,
não sei se o queres levar, já está no fio.
E o casaco roto, aquele vermelho
que eu costumo vestir quando está frio?

E a planta que eu comprei e tu regavas?
E o sol que dá no quarto de manhã?
É meu o teu cachorro que eu tratava?
É teu o meu canteiro de hortelã?

A qual de nós pertence este destino?
Este beijo era meu? Ou já não era?
E o que faço das praias que já não vimos?
Das marés que estão lá à nossa espera?

Dividimos ao meio as madrugadas?
E a falésia das tardes de Novembro?
E as sonatas que ouvimos de mãos dadas?

De quem é esta briga? Não me lembro.

Rosa Lobato de Faria
lido por Loudes dos Anjos

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

11.

Jordi
11.

Foi encontrada no cais
muito p’ra lá da manhã
com uma rosa de sangue
no casaquito de lã.

Foi encontrada no cais
donde sonhava partir
como um pardal degolado
que já não pode fugir.

Tinha dois seios pequenos
tinha dois olhos de mar
tinha dois braços morenos
abertos de par em par.

Tinha nos pés os segredos
de cada pedra do cais
tinha um coração com medo
por ser coração a mais.

Foi encontrada no cais
muito p’ra lá da saudade
é um desperdício mais
na lixeira da cidade.

Foi encontrada no cais
onde a morte a encontrou
antes de ir longe de mais
no barco que não parou.

Rosa Lobato de Faria
Dito por Maria Lourdes dos Anjos