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quinta-feira, 10 de março de 2011

DOURO, MEU RIO

António Ameneiros
DOURO, MEU RIO

Este Douro que apartou os montes,
Com gente e sonhos e barcos fez pontes,
Fez vales e penhascos e socalcos
Fez vinhedos ostentando caprichosos penteados
Fez margens com gosto de mel
Fez vidas amargas de fel
E fez-se rio
Este Douro que enegreceu o xisto
Fez-se amor, ódio, perdição
Fez medo, feitiço, devoção
Fez braços de vida e de morte
Fez-se Mundo, Porto e Norte
E fez-se Rio
Este Douro inquieto e guerreiro
Que descansa nos braços do povo tripeiro
É um mar sereno quando, ao entardecer,
A cidade Invicta se deixa envolver
No seu manto de nevoeiro frio
E, ternamente, lhe chama: Douro, Meu Rio!

Maria Lourdes dos Anjos
lido por João Pessanha

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O SECRETÁRIO DE ESTADO

Ameneiros
O SECRETÁRIO DE ESTADO

(pequena história para adormecer crianças irrequietas)

Face à rua do outro lado
vivia o poema interno
da varanda e do telhado
espreitava o movimento
dessa rua do Inverno.

Um Secretário de Estado
sempre em mau estado ia
vestia saia e casaco
conforme lhe competia
e colarinho engomado

Ia ele devagar
e muito compenetrado
a ninguém dava os bons dias
e a rua do outro lado
tinha um poema interino
que estava a ser vigiado
com cuidado Diamantino.

O Secretário de Estado
ordenara aos seus serviços
que não perdessem pitada
dos passos desse poema
na rua do outro lado.

Queriam ver se apanhavam
esse poema interino
nalguma falta maior
que lhe mudasse o destino
mas o poema era esperto
não se deixava apanhar
fugia pela fechadura
mudava o lado da rua
e nunca ficava perto

Quis a má sorte que um dia
o Secretário de Estado
ficasse de lumbalgia
e o poema dançou
na varanda e no telhado
na rua do outro lado
que era o lado donde via
tudo o que tinha passado.

E houve muita alegria
e os serviços pararam
e toda a gente se ria
com o poema contente
da rua ficar de frente
à casa do Secretário
que de nada se apercebia.

Vestia agora pijama
ficava o dia na cama
e fazer, nada podia.
Os serviços na Farmácia
às voltas com a receita
e o poema interino
a tratar da papelada
que de uma forma perfeita
elegesse outro regime
onde todo o secretário
prestasse contas à gente
conforme a lei define
em plena Democracia.

E da varanda ao telhado
o poema cantava o fado
e toda a malta dançava
nem perseguidos havia
na rua da Poesia
na rua do outro lado.

Fernando Morais
in "O Poema do outro lado"

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Bestiário/1

António Ameneiros

Bestiário/1

Grandes tubarões:
fervilham, fervem nas águas
amassadas: exploram.

Agitam os cardumes
que perseguem, e apavoram
o peixe miúdo.

Tantas, tão hiantes as piranhas:
eléctricas, vorazes, espectrais,
no mundo feroz dos canibais.

Infestam. Abocanham-(se).
Alardeiam. Arreganham os dentes.
Banqueteiam-se.

Domingos da Mota

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Avé Porto

António Ameneiros
Avé Porto


Salvé, ó Porto! Velho Porto Antigo,
Que já não és só nosso, és Mundial!
Nosso orgulho por ti não tem rival,
Pelos sem-voz, eu te bendigo!

Velho Senhor, atento e sempre amigo
Da honra e da justiça por igual,
Da plebe audaz, invicta e leal
Sempre ao teu lado, a lutar contigo.

Em regosijo repicaram sinos,
- Saudosos sons dos tempos de meninos –
Enchendo o ar com vozes de cristal…

Eu te saúdo, ó Porto, com carinho!
E aqui te auguro: - sempre em teu caminho
Serás farol, luzeiro em Portugal!

Maria Ramajal Jorge, in Porto em Poesia
dito por Jorge Vieira