sábado, 30 de abril de 2011

FUNDIÇÃO DO AMOR

FUNDIÇÃO DO AMOR

Muitas gotas d’àgua fazem chuva,
muitos grãos d’areia são desertos,
abraços e beijos fazem amores,
que ficam muito mais perto!

O amor tudo amarra,
quem o tem fica amarrado,
é navio, que não sai da barra,
que navega mesmo parado!

Amor é orvalho da manhã,
são raios do luar,
são beijos que o amor nos dá
de manhã até ao deitar!

O amor guia nossos passos,
para satisfazer de desejos,
de a alguém dar muitos beijos
e cair nos seus braços!

Mas o amor,
o amor real,
o perdido, o fatal,
o de doces gritos e ais,
é quando dois amores se unem
e se fundem, com amor,
em muitos mais!

Silvino Figueiredo
(o figas de Saint Pierre de Lá-Buraque)

A CRÍTICA

A CRÍTICA

Todos temos de dizer mal
Daquilo que os outros fazem,
Consequência formal
Das ideias que nos trazem.

Pensamos saber de tudo
Sem olharmos para nós mesmos.
A escrita é o canudo
Para a crítica que fazemos.

Sempre que ela é construtiva,
Aceitamos de bom grado,
Porém, se é destrutiva,
Aí o caldo fica entornado.

Não nos importa ferir
A pessoa que nos aconselha,
Tentando sempre denegrir
A ideia que é só dela.

Por vezes acreditamos
Que tudo nos acontece,
Toda a crítica respeitamos
E isso nos envaidece.

Ser crítico é ter consciência
Na análise textual,
Mostrar sempre clarividência
Perante a crítica em geral.

João Pessanha
06/03/2010

A LEÃO XIII

A LEÃO XIII

Ó Padre Santo! Meu Irmão! Ó meu amigo
Do velho mundo antigo
- Dá-me consolação, e prova-me que há Deus;
Resolve-me a equação estrelada dos céus;
Admite-me ao Conselho amigo dos Cardeais:
Deixa-me ler, também, na letra nos missais!
Muito que te contar! Não conheces o mundo?
Nunca desceste, padre!, a esse poço profundo?
Metido nessa cela ideal do Vaticano,
Há quanto tempo tu não vês o Oceano?
Nunca viste um bordel! Sabes o que é a desgraça?
Ouviste, acaso, o “pschut”! delas, a quem passa?
Sabes que existem, dize, as casas de penhores?
No teu palácio, há, porventura, amores?
Viste passar, acaso um bêbado, na rua?
Já viste o efeito que na lama imprime a lua?
Ouve: tiveste já torturas de dinheiro?
Já viste um brigué no mar? Já viste um marinheiro?
Que ideia fazes tu das crenças dos rapazes?
Já viste alguém novo, Padre? Que ideia fazes,
Santo Leão!, do Boulevard dos Italianos?
Recordas com saudade os teus vinte e três anos?
Ó Leão XIII! Ó Poeta, essa é a minha idade!
Como tu vês, estou na flor da mocidade!,
Ainda não contei metade de cinquenta.
Começa-me a nascer a barba, o mundo tenta
A minha alma: ah, como é lindo esse Demónio!
Nasci em Portugal. Chamo-me António;
Tenho sido um infeliz…
Um vento de desgraça atirou-me a Paris.
Em pequenino, Padre, ajoelhado na cama.

A erguer as mãos a Deus, ensinou-me a minha ama!
Sabia de cor mil e trezentas orações,
Mas tudo esqueci no mundo, aos trambolhões…
Nossa Senhora te dirá se isto é assim!

- O que há-de ser de mim?

Lá vem a Carlota que embala uma aurora
Nos braços, e diz:
“Meu lindo Menino, que Nossa Senhora
O faça feliz!”

E António crescendo, sãozinho e perfeito,
Feliz vivia!
(E a Dor, que morava com ele no peito,
Com ele crescia…)

Mas foi a uma festa, vestido de anjinho,
Que fado cruel!
E a António, calhou-lhe levar, coitadinho!
A Esponja do Fel…

Vieram as rugas, nevou-me o cabelo
Qual musgo na rocha…
Fiquei para sempre sequinho, amarelo,
Que nem uma tocha!

E a velha Carlota, revendo-me agora
Tão pálido, diz:
“Meu pobre Menino! que Nossa senhora
Fez tão infeliz…”

António Nobre (1867-1900)
lido por Fernanda Cardoso

ANDANDO POR AÍ

ANDANDO POR AÍ

Quando saio por aí,
encontramo-nos!
Eu podia ser um de vós,
podia ser tudo o que não sou
a caminho do que serei.

Quando saio por aí
não levo espelho,
vejo mundo que do mundo ri
sem em seu olho ver chavelho!

Quando saiu por aí,
vejo quem sofre,
quem chora,
quem ama!
vejo corpos ricos,
mas pobres d’alma!

Quando ando por aí,
ver o mundo bem tento,
quase que de tudo já vi,
só me falta ver por dentro!

Silvino Figueiredo
(o figas de Saint Pierre de Lá-Buraque)

OS SONHOS

OS SONHOS

Parecem bandos de pardais
À solta
Os sonhos… os sonhos
Percorrem mundos ideias
À volta
Os sonhos… os sonhos

E quando a noite cai
O sono solta…
É a saudade que vai
É o sorriso que volta
Ao teu retrato posto
À minha cabeceira
E, sonhando, amor aposto
Que ainda ‘stás
Á minha beira…

Parecem bandos de pardais
Á solta
Os sonhos… os sonhos …

Maria Augusta Silva Neves

NO PAÍS DE MARIA

NO PAÍS DE MARIA

No pequeno país onde nasci
havia harmonia nas ruelas
Depois o mestre tempo mudou fisionomias
e a moral das suas gentes

Todos se puseram a roubar e aos gritos
a puxarem doidos pelos infinitos
a rasgarem o tecido dos espíritos
e ficaram como pedras, mudos, gastos
                        outros mitos vieram
                        encheram as vielas
plantaram bandeiras esfarrapadas
e as mulheres da vida passaram a ser
as mulheres da morte e da sida

e nunca mais houve trigo como havia
e nunca mais a terra foi plantada
e nunca mais se chamou pela Maria

O mestre tempo que mudou fisionomias
retirou-lhes a calma e a harmonia
meteu-os no caixote e na enxovia

meteu-os na prisão, chamada casas
apartamentos sem sol, sem alegria
numa vida de sombras poluídas

Neste pequeno país onde nasci
crescemos pelas unhas e cabelos
a gastarmos a vida com doenças
a comermos um almoço de crenças
a rasgarmo-nos por dentro me desavenças
e nunca mais se chamou pela Maria

Não se passou um ano, mais que um dia
não se passou um século, mais que um mês
neste pequeno país, dorido, rouco
onde a voz dos seus homens violentada
acabou por se calar no dinheirame
acabou por se matar num tal derrame
e ficou a Maria sem madame
e nunca mais as ruas se fizeram
para ter a gente a pé a andar nelas
encerradas nas suas auto matanças
e em vez de Cultura, só cagança
só ódio em vez de vizinhança

Alguns ainda lutaram pr’a virar de rumo
alguns ainda tentaram pôr-se bem e a prumo
(foram todos mortos pelo fumo
dos profissionais da política)

esta história, meus amigos,
é uma história macaca
e acaba aqui com a Maria
que nunca mais se viu…

Fernando Morais
in “Um Estalo na Modorra”

OS CIGANOS

OS CIGANOS

São nómadas por natureza,
Marginalizados por todos,
A raça deles com certeza,
Não lhes ensinou bons modos.

As raízes bem vincadas
Fazem deles os maus da fita.
A sociedade dá-lhes patadas;
Os seus cantares pulsa a via.

São muitas contradições.
Nem todos eles são iguais,
Têm amor, têm ilusões
E sofrem como os demais.

Os ciganos são um povo
Com arreigadas tradições,
Nas veias, sangue fogoso
Convictos nas suas acções.

Têm direito a viver
Sem serem menosprezados,
A sociedade compreender
Que devem ser integrados.

O flamenco é a prova
Deste povo tão alegre,
Ritmado se inova
Em sentimento rebelde.

João Pessanha
09/07/2010

SOU PAVÃO

SOU PAVÃO

Sou um pavão,
gosto de me pavonear,
sei andar pelo chão,
mas também sei voar!

Há quem me queira imitar,
mas belas penas não tem!
quando as quer mostrar
causa penas a alguém!

Eu não!
sou um belo pavão!
quem não
que se reduza á sua pobre condição,
nunca me pode imitar!

Eu ando pelo chão,
mas também sei voar!

(Inspirado num pavão do Palácio, no Porto)

Silvino Figueiredo
(o figas de Saint Pierre de Lá-Buraque)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A VENDA DOS BOIS

A VENDA DOS BOIS

I

O velho, entrara triste: a pé, junto ao lar,
Estava a companheira, absorta, a meditar.

- Mulher, a fé perdi, falei a toda a gente,
E ninguém me valeu! – E ela, com voz tremente:
            “Dize-me: e o brasileiro?”
            - Esse foi o primeiro.
Bati, fui ter com ele à casa do jantar.
Expliquei-lhe ao que vinha… entrou a gracejar:
“Com que então você quer livrar o seu rapaz?...
            Vizinho, tão mal faz!
Deixe-me ir cada qual à sorte e ao seu destino!
Seu filho é um mocetão valente e muito digno
De servir o país…”

                        E descascava um fruto…
Desatei a chorar… “Homem, não seja bruto!
A farda não é morte…”
                        E disse mais e mais
- Cousas de quem não sabe a dor de uns tristes pais!
E, enquanto o velho punha a vista lacrimosa
Nos brasidos, a voz da mãe, aflita e ansiosa,
Perguntou: “e o prior?”
                        - Negou, negou também –
            A angustiada mãe
Retorcia o avental com mão febril, ardente.

No silêncio da noite, então, distintamente,
            Um profundo mugido,
            Triste como um gemido,
Longo e longo chorou no lúgubre aposento…
            Entreolharam-se os dois…
Nisto, acode à mulher um estranho pensamento…
            “Temos ainda os bois!
Vendámo-los!” E ria…
                                   O entristecido olhar
Do velho lavrador de lágrimas nublou-se.
            E entrou a suspirar:
- Uns pobres animais, a quem só mingua a fala
Para serem cristãos! Parece que me estala
No peito o coração… Vender os infelizes!...
Pois seja assim, mulher! Farei o que tu dizes…


II

            Vinha rompendo a aurora
Risonha, virginal, feliz como um noivado.
Das aves à compita, o trémulo trinado,
Entre as balsas, gorgeava. Era em descanso a nora.

No entanto, o lavrador, tremente e vacilante
Com um ladrão nocturno, ou como um namorado,
Abriu, de par em par, as portas do curral.
            Súbito, nesse instante
Volveram para a entrada os bois o olhar leal,
            Bondoso, humano e franco.
            Que festiva alegria
O frequente menear das caudas traduzia
Resvalando em seu forte e musculoso flanco!

            O velho, antigamente,
Tinha sempre, ao chegar, uma palavra amiga,
            Um dito, uma cantiga,
A que sempre um mugido alegre respondia.
Mas, naquela manhã, silenciosamente,
            Fatal como o dever,
O velho foi buscar, a um canto, uma correia,
             E lançou-a a tremer
Dos anafados bois, às pontas recurvadas.

E saíram os três.
            Nos côncavos da aldeia
Choviam as canções das aves namoradas.


III

No cais, há o moirejar das fábricas ruidoso.
            Feroz e discordante,
Junta-se à voz humana, arfar estrepidante
Dos valentes pulmões das máquinas inglesas.
            Em novelos, ansioso,
Golfam as chaminés o denso e o escuro fumo
            Que ascende e toma o rumo
Do claro e vasto azul, vazio de tristezas.

Como um cetáceo ingente, encarvoado e feio,
            Um enorme vapor
            Por outros, avulta em meio.
Em seu largo convés, a marinhagem canta
E, na faina febril; as âncoras levanta.

Naquela espessa nau, um velho, um lavrador,
Entre a faina do cais, fita o dolente olhar…
é que ali dentro, vão os bois, o seu amor…
            E àquela mágoa intensa
            E inenarrável dor
Responde a descuidosa e gélida indiferença
Dos Homens, e dos Céus, e do profundo Mar…

Gonçalves Crespo (1846-1883)
 lido por Fernanda Cardoso

HÁ NESTE POEMA

HÁ NESTE POEMA

Mais do que palavras balbuciadas
há neste poema, gritos imortais
há feridas abertas pelas amarguras
névoas encalhadas num longínquo cais.

Mais do que fronteira do deslumbramento
há neste poema rumos de luar.
Há o fulgor presente, despertando o tempo
filho dum futuro ainda por chegar.

Pulsos latejando novas alvoradas
espasmos de dor em lânguido tremer
num ventre gerando mortes projectadas
que têm um dia só para viver.

E se as gargantas ficam caladas
em odisseia muda e serena
mais do que palavras balbuciadas
gritos imortais, há neste poema!

Kim Berlusa

HINO AO ASNO

HINO AO ASNO

Eu canto o Asno!

Se o concepcionismo crítico
De certo político
Se tivesse hostilmente ocupado
- Devotado –
Da personalidade do Asno,
Não haja dúvida de que este país
Embaideirava em arco…

Eu canto o Asno,
Irmão do burro
Casmurro,
Mas paciente.

- Burro? Inteligente!

Que ganha um Poeta
Que em rima vã de pateta
Se esforça, a versejar,
Tecendo louvores
A burros e doutores?
Que importa que a vaidade,
O egoísmo ou a caridade,
Consagre o Homem?

- A meu lado eles não comem…

Eu canto o Asno,
O burro, igual a gente,
Porque mama, dá ao dente,
A tudo assiste impávido
E que, de tanto comer,
Parece ficar grávido.

Tem músculos, é forte,
Desde a nascença até à morte
Com nada se atrapalha.

O tempo…
Gasta-o a comer palha!…

É casmurro?
- Não. É burro!...

Quando qualquer político
- Amostra ou raquítico –
Arrecada um grão de glória
Porque o nome mete na História,
Ponham-lhe aos pés esta legenda:
- Discípulo do ASNO.
Que ninguém a emenda…

O burro
Merece bem um centenário,
Uma estátua, um relicário,
Um panteão,
Uma oração.
Que os sábios do amanhã
Reconheçam o seu trabalho
Com afã,
Justiça e Verdade,
Pois o burro,
Discípulo do Asno,
Trabalha a bem da comunidade!

Deixo-vos este testemunho
Sendo verdade que um burro
É doutor, se carregado de livros,
Como a uma alimária que sei
- Cujo nome não direi,
P’ra que não ouçais tremendo urro –
Apenas falta um ano
Para que seja burro…

Aceitai a minha impertinência,
E de voz baixa,
Porque temo esturro,
Longe de mim a maledicência:

- Ao princípio tudo era burro,
E agora…
O ASNO fez-se ciência!

Manoel do Marco

MÃOS ABERTAS

MÃOS ABERTAS

Abro as mãos e nada tenho,
O que tive, dei-o, por caridade;
Mesmo o que possa ter, não retenho,
Sou fruto do amor e da verdade.

Mesmo que a dor me alimente,
Com presságios de encantamento;
Abro as mãos e de repente
Solta-se pelo ar o sofrimento.

Sou o apóstolo de mãos abertas
Que enxuga as lágrimas da dor;
Nas esquinas com gente, nas ruas desertas,
Nasce em cada canto uma flor.

Jorge Vieira
in "Manhãs Inquietas"

MENINOS, MEUS MESTRES

MENINOS, MEUS MESTRES

A minha vida era ainda madrugada
Dela, sabia muito pouco, quase nada
O meu caminho era um perfumado jardim
Sem geada, sem pedras duras, sem erva ruim
Não sabia que havia meninos sem manhãs de Sol
Com dias de lágrimas e noites sem lençol
Não percebia o sofrimento de crescer sem alegria
E, muitas vezes, magoei sem saber o que fazia
O meu Quim, e outro Quim e outro e outro mais
Ensinaram-me os dias tristes, dos meus tão desiguais
E os meninos todos com quem tanto, tanto aprendi
Fizeram de mim a “cota” feliz que hoje está aqui!

Lourdes dos Anjos
in "Nobre Povo"

VINHAS

VINHAS

Tremeluzindo
Gaia é uma luz
e fingindo, na poeira em que a encobriram,
ser mais verde do que é
no conjunto de bosques e vinhedos que já teve.

Aos soldados do tempo
lá nos vai dando notícias
de quem a deixou migrar
vestida de andorinha.

Tremeluzindo
Gaia apoia-se no rio
como se fosse o chão de sua vida.

Fernando Morais
in "Voltar a Gaia"

LÁ LONGE

LÁ LONGE
(ao meu amigo muana i?nhama)

lá longe
nas terras de muana
e malangatana[9],
onde o longe
fica ao virar
do mais próximo
dos embondeiros

lá longe
em terras cor malangatana.
onde o tudo e o nada
se cruzam no além.

lá longe
por terras de muana
passou um ingénuo rapaz
que nunca quis ser homem.

lá longe
guerra a guerra
sem o saber
ele fabricou a paz.

hoje
aqui bem perto
navega nas marés do destino
bem incerto
o rapaz que continua
a ser
muana-menino.

Eduardo Roseira
in A Colheita Intima

SOLIDÃO

SOLIDÃO

Me sinto sempre isolado
Pois tudo o que me rodeia,
Sentimento, dor e pecado,
Vai tecendo a minha teia.

Só, não é solidão,
Ser só não é solitário.
Será a vida sem perdão
Nas contas de um presidiário.

É viver sem ter ninguém
Mesmo estando acompanhado,
Saudade de quem já não em
O destino desencontrado.

Ser autónomo eternamente
Como se o próprio destino
Me mostrasse complacente
O caminhar do peregrino.

Mesmo cá dentro de mim
A solidão me atormenta.
Serei seara ou jasmim
Na sina que me afugenta.

A paixão e o amor
Andam sempre tão juntinhas,
A solidão é pavor
No quarto onde dormimos.

João Pessanha
18/03/06

MORAR EM TI

MORAR EM TI

No silêncio da tua ausência
tu estás sempre presente,
amor é doce demência
que invade a minha mente!

A mente guia o corpo
na busca d’amor eterno,
sem mente um corpo é morto,
sem amor é um enfermo!

Minha mente não está aqui,
mas, embora daqui ausente
está sempre a morar em ti!

Quando do encontro for hora,
parecerá que sempre em ti estive
e nunca de ti fora!

Silvino Figueiredo
(o figas de Saint Pierre de Lá-Buraque)

OH AS CASAS! AS CASAS! AS CASAS!...

OH AS CASAS! AS CASAS! AS CASAS!...

Oh as casas, as casas, as casas…
as casas nascem, vivem e morrem.
Enquanto vivas, distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala.
As casas que eu fazia em pequeno…
onde estarei eu, hoje, em pequeno?
Onde estarei aliás eu, dos versos, daqui a pouco?
Terei eu casa, onde reter tudo isto,
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas, essas parecem estáveis
mas são tão frágeis, as pobres casas!
Oh as casas, as casas, as casas…
mudas testemunhas da vida
elas morrem, não só ao ser demolidas,
elas morrem com a morte das pessoas.
As casas, de fora, olham-nos pelas janelas.
Não sabem nada de casas, os construtores,
os senhorios, os procuradores.
Os ricos, vivem nos seus palácios,
mas a casa dos pobres é todo o mundo!
os pobres, sim, têm o conhecimento das casas!
os pobres, esses, conhecem tudo!

Eu amei as casas, os recantos das casas.
Visitei casas, apalpei casas.
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade!
Sem casas, não haveria ruas,
(as ruas onde passamos pelos outros,
mas passamos principalmente por nós)
Na casa nasci e, hei-de morrer.
na casa sofri, convivi, amei!
na casa atravessei as estações,
respirei – ó vida, simples problema de respiração.
Oh as casas, as casas, as casas!...

Ruy Belo
lido por Fernanda Cardoso