quarta-feira, 30 de maio de 2012

DESPEDIDA

DESPEDIDA

Não pode dar-me quem quer,
Quem pode não me quer dar…
- Quanto me custa escrever:
Amigos, vou-vos deixar!

Aos poucos morre quem parte,
Qual morrer do som dum sino…
- Cansei-me de procurar-te,
Estrela do meu destino!

Meu Deus, meu Deus, lês em mim,
Meus horizontes são perto…
- Faz-se já tarde o meu fim,
Perdido neste deserto!

E eu vi pedras a chorar
Por terem dó do meu pranto…
- Quando meus passos parar,
Serei um louco ou um santo?
………………………………………

Então vão olhei em redor,
Sem ter riquezas por meta…
- Não há tristeza maior
Do que ser pobre e Poeta! 

Manoel do Marco

BATEU-ME À PORTA

BATEU-ME À PORTA

Bateu-me à porta o poema
Com batida meiga e doce
? Virá pagar sua pena
Como se castigo fosse?...
Sentou-se à mesa comigo
E num tom de bem amoroso
Disse o poema orgulhoso
Eu sempre fui teu amigo!...

Do meu lado eu respondi
Com toda a sinceridade
Eu bem me lembro de ti
Basta veres a minha idade…
Que não é muita nem pouca
Só tem os anos que tem
É a voz da minha boca
Que é filha de mim também.

Já levantados da mesa
O poeta e o poema
A culpa já não lhes pesa
Cumpriram a sua pena!...
Depois da porta fechada
Fica o poema sentado
Calado sem dizer nada
Já com o poeta ausentado!...


Silvestre Bastos

in “Poemas da mesma Mãe”

lido por Ana Maria Roseira

NOITE DE FOLIA

NOITE DE FOLIA
S. JOÃO 2010

Noite de folia,
Noite p’ra dançar,
Noite de alegria,
Vamos festejar!

Lá do Céu o Santo,
O bom S. João,
Fica admirado,
Desta animação!

Motivos não temos,
Nada p’ra animar,
Só triste miséria,
O povo a chorar!

Por isso, meu Santo,
És TU o motivo,
Pr’a acalmar o pranto,
Para este ar festivo!

E assim, S. João,
Não fiques espantado,
O povo quer rir,
Da dor está cansado!

É que, Portugal,
Humilde e sofrido,
Tem gente valente,
Por quem é querido!

Portanto bailemos,
Saltando a fogueira,
Hoje é S. João,
Viva a brincadeira!


Alzira Frias
in “Percorrer Caminhos
lido por Ana Maria Oliveira

GERMINAÇÃO

GERMINAÇÃO

Uma folha branca
se apresenta à polpa de meus dedos!
Limpa de emoções e de ideias,
virgem a desafiar a caneta
para que a lavre
e a fecunde,
e dê origem ao texto!
Assim o arado
a sulcar a belga que se oferece ao camponês
e a terra a sentir o grão
e o seu impulso a germinar.

Há algo de sensual em tudo isto:
a entrega, o desflorar,
o sémen, a semente
e o semear
- na leira ou no papel
é tudo igual.
E a vida ou a escrita a erguerem-se
do sacrifício, do suor,
do gozo
do jeito e do hálito do semeador,
e com o timbre de alma
e de esperança que lhe pôs
ao fecundar!


Miguel Leitão

CONTAMINAÇÃO

CONTAMINAÇÃO

Amo tanto as coisas simples, singelas,
os nenúfares, as rosas, malmequeres
e as mimosas em nuvens amarelas!
Amo o sorriso doce das mulheres
com os filhos pequenos nos seus braços,
como se eles fossem todo o mundo.
Amo as aves que voam nos espaços
para morrerem, porém, no chão profundo.

E no enrugado rosto do velhinho
amo os sulcos que o tempo cinzelou,
vivo a mesma saudade do caminho
por onde a mocidade já andou,
amo o velho lar onde se ajeita
preso à terra, às sombras do passado…
A roseira de trepa que o enfeita
e na lareira o fogo consumado!

E amo a pura vida campesina,
onde existe um rei, um rei no milheiral,
um rei vermelho, mas com a mesma sina,
com a mesma cor do sangue pastoral!
E o cantar do galo ao desafio,
o cheirinho ancestral do nosso pinho,
adoro as noites quentes do estio
que fazem crescer no campo o nosso linho.

Adoro o grácil corpo da criança,
sentada no portal do seu inicio,
agarrada ao umbral da esperança,
ansiando do bem o benefício!
Amo, enfim, a vida e em pleno!
Odeio as coisas fúteis, vãs riquezas,
Porém, bebo sem o querer esse veneno
e morro maculada de impurezas!


Maria de Lourdes Martins

MORRER DE PÉ NA PRAÇA SYNTAGMA

MORRER DE PÉ NA PRAÇA SYNTAGMA

Quando se ouviu um tiro na Praça Syntagma,
logo houve quem dissesse: “É a polícia que ataca!”.
Mas não, Dimitris Christoulas trazia consigo a arma,
a carta de despedida, a dor sem nome, a bravura,
e vinha só, sem medo, ele que já vivera os tempos
de silêncio e chumbo do terror dos coronéis.
Mas nessa altura era jovem e tinha esperança.
Agora tudo isso findara, mas não a dignidade,
que essa, por não ter preço, não se rende nem desiste.

Dimitris Christoulas podia ser apenas um pai cansado,
um avô sem alento para sorrir, um irmão mais velho,
um vizinho tão cansado de sofrer. Mas era muito mais
do que isso. Era a personagem que faltava
a esta tragédia grega que nem Sófocles ou Édipo
se lembraram de escrever, por ser muito mais próxima
da vida do que da imaginação de quem efabula.
Ouviu-se um tiro, seco e certeiro, e tudo terminou ali
para começar logo no instante seguinte sob a forma
de revolta que não encontra nas bocas
as palavras certas para conquistar a rua.
Quando assim acontece, o silêncio derruba muralhas.
Aos jovens, que podiam ser seus filhos e netos,
o mártir da Praça Syntagma pediu apenas
para não se renderem, para não se limitarem
a ser unidades estatísticas na humilhação de uma
pátria. Não lhes pediu para imitarem o seu gesto,
mas sim que evitassem a sua trágica repetição.
E eles ouviram-no e choraram por ele, e com ele,
sabendo-o já a salvo da humilhação
de deambular pelas lixeiras para não morrer de fome.

Até aos deuses, na sua olímpica distância,
se perfilaram de assimbro ante a coragem deste gesto.
Até os deuses sentiram desprezo, maior do que é
costume, pela ignomínia de quem se vende
para tornar ainda maior a riqueza de quem manda.
A Dimitris bastou um só disparo, limpo e breve,
para resumir a fogo toda a razão que lhe ia na alma.
Estava livre. Tornara-se herói de tragédia
enquanto a Primavera namorava a bela Atenas,
deusa tantas vezes idolatrada e venerada.
Assim se despedia um homem de bem,
com a coragem moral de quem o destino não vence.

Quando o tiro ecoou na praça de todas as revoltas,
Dimitris Christoulas deixou voar uma pomba,
uma borboleta, uma gaivota triste do Pireu
e disse, com um aceno: “Eu continuo aqui,
de pé firme, porque nada tem a força de um homem
quando chega a hora de mostrar que tem razão”.
Depois vieram nuvens, flores e lágrimas,
súplicas, gritos e preces, e o mártir da Syntagma,
tão terreno e finito como qualquer homem com fome,
ergueu-se nos ares e abraçou a multidão com ternura.
 

José Jorge Letria
lido por Alzira Santos

SUPOSTA MATURIDADE LUMINOSA


SUPOSTA MATURIDADE LUMINOSA

Que olho translúcido, pendurado sob um Sol ardente
Dum iluminismo intermitente.
Que olhar por dentro pelo comum da incerteza.
Que claridade, nem que cinzenta turva,
Que destino augurado não se estica,
Que sacrifício de quem olha o olhar desmerecido.
Que demitente, que demisso.
Que sacrifício existirá, sobre quem, pela luz,
Não deixará de se cair em todas as sombras
Sábias, intransponíveis.
Que existencialismo, que surrealismo, que
pedantismo,
Não cegam,
A clarividência de todos os olhos escachados,
Por tantas ventanias
Por vaporizações de tantos eunucos, num domingo
de Sol encomendado.
 

Virgílio Liquito

ACREDITAR

ACREDITAR

Crês no peso das palavras,
Impedes que o tempo fuja.
Crês na violência do som,
Impedes aos outros de partir.
Crês que o cimento,
Impede as coisas de viver.
Crês que os teus sentimentos,
Te impedem de correr.

Música no parque molhado,
Entre a vida e a morte.
Música no meio do tráfico,
Da minha e, tua sorte.

É, uma técnica de combate,
É, uma forma de sentir.
Um coração que bate,
Há, vinte anos sem sorrir.

Uma vez que ela se foi,
É, uma forma de estar.
Um pensamento que dói,
Neste jeito de cantar.

As luzes, cintilantes no Céu,
Em plásticos tropicais.
Desferlas o teu véu,
Um barco entra no cais.


César Carvalho

QUANDO VIER A PRIMAVERA

QUANDO VIER A PRIMAVERA

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro (7-11-1915)
lido por Ana Pamplona

NÃO ME APETECE


NÃO ME APETECE

Não me apetece…
Não me apetece…

Não me apetece escrever
Não me apetece sair
Não me apetece falar
Não me apetece beijar
Não me apetece sorrir…

Não me apetecem os dias
Não me apetecem as noites
Não me apetecem manhãs orvalhadas
Não me apetece o pôr-do-sol
Não me apetecem as gargalhadas…

Não me apetece ver gente
Não me apetece mentir
Não me apetece ensinar
Não me apetece fugir…

Apetece-me não me apetecer
Apetece-me recordar
Apetece-me olhar o nada
Apetece-me pasmar…

Tudo ou nada, tanto faz
Tanto faz Outono, Inverno
Tanto faz viver, morrer…
Mas não! Dá trabalho apetecer!...


Manuela Barroso
in “Inquietudes”
lido por Teresa Gonçalves

terça-feira, 29 de maio de 2012

PORQUE HOJE É SÁBADO!...


PORQUE HOJE É SÁBADO!...


Que faz um homem ao Sábado? Que diferença faz um Sábado da Segunda-feira? Olho para o sol, não vejo nenhum letreiro dizendo que hoje é Sábado! Dessas coisas o sol não sabe, nem o meu cágado (um analfabeto) que pachorrentamente se passeia no quintal sabe que hoje é Sábado! Nem o macaco, que passeia de ramo em ramo na floresta, nem as marés alteram seu marear, nem os rios as suas correntes correndo pró mar sabem que hoje é Sábado!

Imaginem, hoje, Sábado!... dia de descanso, dizem.
Depois vem o Domingo, depois a Segunda e Terça-feira, etc. Todos pretendem ser dias diferentes dos precedentes, mas não, mão o são porque: o tempo não tem calendário, porque em mudança contínua. A prova-lo estão os ditos populares:

- “Agora os tempos são outros”
- “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”
- “Isto agora não é como dantes”
- “Antigamente é que era!”
- “Hoje está tudo mudado”

Estas expressões provam que, afinal, os Sábados de hoje não são como eram os de outrora!

Mas hoje é Sábado! Para que serve o Sábado? Para descansar?
Então não é no trabalho que o homem descansa?
E os milhões que não trabalham!? Para que querem os Sábados?
Para descansar?

Ao Sábado, toda a gente toda a gente devia ir para a cadeia! Lá é que se descansa, ou então ir até ao cemitério ver outros a descansar!
Assim, ao Sábado, dia de descanso, dizem, acabava-se a correria para os Centros Comerciais, pecando-se nas compras ou a ver as montras!

Ao Sábado não devia haver boletim meteorológico, nem farmácias de serviço, nem vendedores ambulantes, nem arrumadores, nem hospitais abertos, nem futebol, nem touradas, nem boxe!... nem ministros de serviço!...
Ao Sábado, porque é Sábado, todos deviam imitar o meu cágado!

Talvez por ser Sábado, é que eu hoje 730576 dias D.C., escrevi este texto olhando, pachorrentamente, para o meu cágado, que, como já disse, não sabe que hoje é Sábado nem que amanhã será Domingo; dia do Senhor, dia em que caiu uma ponte num rio de dor!

Para responder aos avisos de perigo, quiseram contratar o meu cágado!...
Sinto-me culpado.
Talvez, em vinte anos, ele tivesse levado a resposta do ministro e não tivesse acontecido o sinistro.
E porque hoje é Sábado, eu escrevi isto, pensando que Portugal anda ao ritmo do meu cágado!

O autor que aos Sábados faz o que faz noutros dias que não são.

Silvino Figueiredo
Figas de Saint Pierre de Lá-Buraque

DOCE SENSAÇÃO SEM TEMPO


DOCE SENSAÇÃO SEM TEMPO

Do quarto meu,
Levemente,
Para o mundo transportada sinto.
Sem contabilizado tempo,
Uma hora, três horas,
Mesmo um segundo, ser parece.
Que sensação esta será,
Que nada ser é,
Se tudo parado está,
E lá fora,
Onde não estou,
A vida... essa;
Se agita,
Se vive!


Dentro de mim,
Afinal, mesmo eu estou,
Estranha e nova sensação é,
Que mal explicar consigo,
Tão subtil sentimento é.
E sem por ela contar dar,
Indescritível paz,
Por mim desce,
Harmonia acompanha-me.
Por toda a minha coluna passeia,
Se acumula e intensifica,
E o amor expande-se,
Muito para além de mim.


No corpo meu,
Tocar não consigo,
Cada orgãozinho,
Longe do lugar,
Onde estou sinto.
Os olhos, nos olhos não estão,
Ouvidos, nos ouvidos não estão,
Boca, na boca não está,
Vejo, ouço e falo,
E mim, dentro e fora,
Que doce sensação será?
Para mortais tantos desconhecida,
Precisamente aí,
A questão está,
Imortais todos somos,
Almas todas tocamos.


Nessa consciência,
Nada acumular interessa.
Liberdade,
Respeito apenas,
E aí, a calma surge,
E nunca mais,
Nada igual,
É, foi, será!


Cristina Maya Caetano

sexta-feira, 25 de maio de 2012

SAGA TURÍSTICA

SAGA TURÍSTICA
OU BARRETES «BY NIGHT»

Senhor turista
não desista
pois não há
quem lhe resista
ou será da minha vista
isto aqui é tudo seu
ou será meu?

Senhor turista
condescenda
pois há sempre
quem lhe venda
umas cuecas
de renda
para prenda!

Senhor turista
fique alerta
pois tem sempre
a porta aberta
desde que venha
pela certa
à descoberta
duma «aberta»

Senhor turista
aproveite
pois não há
quem o rejeite
todos o querem
para enfeite
da riqueza nacional,
não é por mal!

Senhor turista
intervenha
pois não há
quem o detenha
desde que
fique entretido
com o que leva
de presente
cá da gente

Senhor turista
acredite
pois não tem
outra saída
é melhor gozar a vida
a olhar para os monumentos
são aos centos…

Senhor turista
fotografe
e se for
americano
pode ficar todo o ano
pois quem paga
é sempre o mesmo
por engano!

Senhor turista
não se esqueça
que aqui não paga imposto
o barrete
e o mau gosto
está tudo
por sua conta
faz de conta!...


José Jorge Letria
in “A Arte de Amar”
lido por Eduardo Roseira

INVEJA PURA

INVEJA PURA

Dois piões desconhecidos,
isolados,
sulcando o chão ao girar
- marcas avulsas,
indecifráveis,
de intermináveis corrupios.
Sinais de um cirandar sem ter rumo
- narcísico destino de quem se equilibra a rodar
à volta de si mesmo,
apenas.

Voltas e reviravoltas às cegas, sem tino!
Todavia, de permeio,
houve um tempo em que o acaso
nos colocou face a face e nos quedou,
e os nossos olhos,
deslumbrados,
se cruzaram e se entenderam
e as nossas mãos,
sequiosas,
se ofereceram e se buscaram.
Em radiosa clareira,
fundiram-se então nossos passos
e os corpos, alvoroçados, envolveram-se
em momentos jubilosos de uma loucura feliz.

Eu não sei qual foi o tempo,
nem quando,
nem quanto foi,
mas sei
que as esferas entoavam música da sua harmonia
e que o mundo readquiria o estádio virginal
dos seus começos.
Os anjos vieram todos, em reboada,
outra vez,
envoltos em luminosidade e pureza.
E lá de cima,
do alto da sua janela,
começaram a espreitar,
arregalando os olhos
como se a vida e o nosso enleio
tivessem escapado à sua ordem,
adquirindo foros de maldade,
falta grave ou de pecado.

Mas nunca o Éden tinha estado tão frondoso,
tão florido e tão festivo,
e via-se bem
que aquele olhar de soslaio,
aquele tom reprovador
que a corte angelical ostentava,
era apenas um disfarce
a trair o seu despeito,
e a pôr cá fora
a inveja que a todos roía. 

Miguel Leitão
9 de Maio de 2012

O DIA DA POESIA


O DIA DA POESIA

O Dia da Poesia
E o Dia da Primavera
Resolveram chegar juntos,
Nesta data, nesta Era!

Pois se os dois são só Beleza,
No seu mais puro estado,
Têm que vir de mãos dadas,
Dando ao Mundo o que é sonhado!

E o seu quinhão de Alegria
E de Harmonia singela,
Diminuem a Tristeza,
Tornam a Terra mais bela!

Por isso, nós, os Humanos,
Devemos valorizar
A Natureza florida
E os Poetas a cantar!


Alzira Frias
in “Percorrer Caminhos”
21-03-11
lido por Ana Maria Oliveira

ESPELHO BAÇO

ESPELHO BAÇO

De manhã ao levantar
Através de um espelho baço
Vi um velho já carcaço
Olhar para mim a chorar.

Fiquei muito entristecido
E tive de lhe dizer;
Ó amigo você está a ver
Que se parece comigo?

Devo ter a sua idade
E não estou desanimado
Porque não lembro o passado
E aceito a realidade!

Temos rugas, somos velhos
Mas a vida é mesmo assim;
Todos os seres têm seu fim
Oiça bem os meus conselhos.

Eu não o quero ver mais
Assim triste e abatido;
Venha sempre ter comigo
Ambos somos iguais.
 

António Bastos
in “Poemas da mesma Mãe”
lido por Ana Maria Roseira

POESIA NÃO TEM HORA


POESIA NÃO TEM HORA

Poesia não tem hora
vem de dentro para fora
desnudando as palavras
sem cor.

Poesia,
é um hino de amor;
a clave de harmonia,
sem preconceitos
ou tangidos conceitos…

Poesia
é brisa mansa que transporta
para bem mais longe,
num cântico que não posso calar;
me faz voar,
qual pássaro louco
de um lado para o outro,
sem saber onde poisar…

Poesia
que fazes de mim guerreira;
asceta,
desde a hora primeira,
me fortalece,
aquece
e me completa.

Poesia é hora dilecta!...
 

Libânia Madureira

Composição de Leonor Reis


(… Ana Almeida Santos)
No meu Outono existe uma hora morna
Que se desprende dos segundos

(Ana Maria Oliveira)
Se nos sentirmos tristes, não há
Beleza ou alegria que nos encante

(Ana Soares)
Belezas, únicas…
Fazendo da tela uma paisagem
Intemporal.
Difícil de deslumbrar

(Luís Pedro Viana)
Chovem as primeiras gotas
Da época do meu Outono
No Inverno que aviso
É mais lento o voar
Mas grato à vida fico
Poder contigo chorar.

(Maria Augusta Silva Neves)
Inverno arrasta tristeza
A vida perde o fulgor
E a árvore da natureza
Perde as folhas e perde a cor.

(Maria Lourdes dos Anjos)
Com  três sílabas de poema
Ou quatro de poesia
Se faz da saudade um tema
Para um hino à alegria
 

Composição de Maria Leonor Reis

NOCTURNO


NOCTURNO

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava…

Era, no corpo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão..
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era, no gira-discos, o Martírio
De São Sebastião, de Debussy
Era, na jarra, de repente um lírio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança. 

David Mourão-Ferreira
(1927-1996)
lido por Amândio Vasconcelos

QUERO LÁ SABER!...


QUERO LÁ SABER!...

Quero lá saber…
Do futebol ou da corrupção…
Que o goleador seja forte, mole ou durão…
Que a bola parta a televisão…
Que suba mais a inflação…
Que haja muito mais droga…
Que mandassem p’ra rua o Catroga…
Que me considerem reformado ou excedentário…
Que o chefe da oposição continue a ser o Mário…
Que ilibem Belezas do processo…
Que não haja democracia de sucesso…
Que as vírgulas custem 120 mil contos…
Que os corruptos sejam uns pontos…
Que a Ponte Salazar aluiu…
Que mandem o Povo pr’áquela que o pariu…
Que todos os dias se denuncie mais um corrupto…
Que seja incompetente o director de uma repartição…
Que não subam mais os salários…
Que não acabem com os salafrários…
Que não haja concertação social…
Que os ministros ganhem bem ou mal…
Que Boliqueime seja, agora, a capital!!!
Tudo isto… já nada tem de anormal…
Porra!... Só não me conformo…
Que uma Ferreira se tenha tornado dona
Do aumento da minha parca reforma!!!

Manoel do Marco

quinta-feira, 24 de maio de 2012

ERROS DA NATUREZA

ERROS DA NATUREZA

O que se passa no mundo
que ninguém pode entender?
Tanto ventre infecundo,
homens que deixam de o ser
e ledos trocam de sexo!
Vidas nascidas de engano…
Assim, cruzam-se sem nexo
e menos crianças por ano!

Que loucura vemos nós
vinda dos longes da terra!
Se cá voltassem os avós
a este viver que aterra,
como encarar tais ,aleitas?
Donde vem esta loucura,
estas vidas imperfeitas,
tão distantes da natura?

Fazem-se lautos casamentos,
diz-se por eterno amor…
porém, esse sentimento
transforma-se em estupor!
Casam homens entre eles,
Mulheres se unem também
e querem ter filhos deles,
mas não resulta ninguém!

Há barrigas de aluguer
que fecunda sem ser mãe;
mas não é pra quem o quer
que é muito caro também!
E assim caminha o mundo!
O que mais ‘inda veremos?
Um desencanto profundo
de querer o que não temos?

Viram o mundo do avesso!
Que dirá um psicólogo?
É um erro, é um tropeço
ou na terra um imbróglio?
Seja o que for, quem vier,
não é azeite, nem é óleo,
será homem? Será mulher?
Será a culpa do petróleo?


Maria de Lourdes Martins

Março 2012

COLINA


COLINA

És a colina que fica presa ao meu olhar feito de assombro.
Os teus olhos
feitos de rochas pregadas no chão
fixam os meus.
Os teus cabelos
feitos de urze e de giesta
são a carícia da minha face.
As tuas mãos
feitas de árvores
são a pele que percorro e que me acalma.
As grutas que te penetram
são os ouvidos dos meus segredos,
dos meus sorrisos.
A tua boca
rasga-se na encosta
que sorri nos regatos
que te cantam na espuma
e no borbulhar das nascentes.
E beijo a tua boca
quando me inclino para saborear a tua água
que rebenta num repuxo,
das entranhas da terra.
E escorre pelos meus lábios em fio,
pura e cristalina,
caindo em gotas no meu peito.
E sorrio por este beijo tão belo,
tão nosso!

A terra e o meu corpo.
A água e eu!
E o meu corpo deita-se
na terra quente,
repousando o meu eu
na flor rosada do rosmaninho.
O sol cai.
Caem os olhos da colina juntamente
com os meus.
Durmo de mãos dadas com a urze e a giesta.
Não há espaço
porque não há
limites.
Não existe tempo,
porque não tenho
todo o tempo!
Existe a música das cigarras no espaço
e que vai enfeitando o meu tempo,
deleitando e aquietando
a minha alma.
É aqui… onde tenho todo o tempo do tempo,
no tempo que me pertence!
O agora,
é o tempo que existe em mim!

Manuela Barroso
in “Inquietudes”
lido por Alzira Santos

QUE REPÚDIO, QUE DESGOSTO!


QUE REPÚDIO, QUE DESGOSTO!
 

    “Mãos que te movem,
    Belas que argamassam
o finito.
    E os teus olhos
enigmáticos, doces…
    Por aí não se ficam.
    E nem a áurea da tua
bipolaridade,
    Do teu sorriso, te traia.
    Restar-te-ão as palavras
construídas, tão iguais,
    Tão diferentes dos
gestos das tuas mãos,
    Quiçá sob os feixes do
teu olhar, tão suave, meigo.
    E com que dureza, e que
condescendência.”


Virgílio Liquito

agarrar o prazer


agarrar o prazer
de ser um todo
e apenas ser
agarrar o prazer
da cor do saber
apenas de ler
agarrar o prazer
de não pensar
apenas de te ver
agarrar o prazer
de fechar os olhos
e desatar a correr
agarrar o prazer
de sonhar o poema
e depois de o ter
agarrar o prazer
de não pensar
apenas fazer
agarrar o prazer
de ser um todo
e apenas ser…


Teresa Gonçalves

A MUDANÇA

A MUDANÇA

Hoje estou aberto ao mundo.
começo pela porta da alegrai controlada
e pela janela dos sorrisos

e suponho que vou de cidade em cidade
em busca do outro que já fui

quero pedir perdão aos que mordi as canelas
com a minha indiferença e orgulho
quero pedir perdão pelas palavras de raiva
e de despeito, quero abrir-me ao mundo
como homem novo, mudado, diferente
que esquecer aquele que troçou,
escarneceu, de quem não teve
a minha visão do presente e do futuro
quem não estendeu os braços da amizade
aos que não sabiam o suficiente sobre
a sociedade do lucro e da má fé,

Não era esse o caminho justo do poeta
nem era essa a tarefa primordial

educar as massas é sobretudo amá-las
mesmo estando doutro lado da barricada
e elevá-las pelo amor ao patamar poético
educar as massas não pode ser com atitudes
de despeito e orgulho.
A sabedoria tem vários caminhos
e um deles é explicar a vida em todos os seus
complexos trilhos,
em todos os recuos e avanços…

àqueles que nos escutam, trata-los como filhos,
e aos que nos atacam mostrar-lhes o caminho.

Hoje estou aberto ao mundo
à compreensão do que sou e do que digo
não posso entrar no mundo para o criticar
sem primeiro lhe dar um aval de resposta
sem a mais simples palavra confiante
não devo iniciar o meu discurso…

Estar aberto ao mundo é não o ver como atrasado
é não o ver com os olhos de tudo o que já sei
mas sim apertar a sua mão de parceiro
nesta viagem de aprender
pedir uma hora, ou um dia, ou um mês de atenção
para explicar a outros, olhando-os nos olhos
o que aprendemos da vida e dos tempos
e de como tudo o que existe é um dom
da Natureza e uma prática dos homens livres.

Hoje estou aberto ao mundo
porque me sinto capaz de o entender

e feliz de estar vivo nesta curva da estrada
definitiva para o amanhã.
Hoje sinto-me calmo e sereno
para vos falar ao coração e à inteligência
para que se não perca a grandeza humana
conseguida há séculos de esforço colectivo.

Hoje quero propor-vos a palavra cansada
da esperança e do estudo
e que todas as conquistas do passado
para a busca da felicidade, assentem na boa vontade
e no equilíbrio de quem tem a sorte de ensinar.

Hoje estou aberto ao mundo.
Vejo o rio Lima e o rio Homem
vejo as flores amarelas da campina
afagadas pelo sol de São Mamede em Guimarães
vejo os rochedos de Porto Corvo reluzindo
à espuma do Atlântico, deste mar encantado
com os saberes de Bartolomeu Dias

vejo os mirtilos de Condeixa-a-Velha
a um metro apenas do museu de Conímbriga
e a gloriosa faina das nuvens brancas na Afurada.

Vejo como o Douro adormeceu na cama do Areinho
e ouço à distância dos tempos a água salutar
da Fonte da Rija.

Vejo a imensidão de Castela no forno do Estio espanhol
com os seus coelhos bravios, às centenas, saltando
e correndo como bailarinos,

Vejo Barcelona nas suas avenidas radiantes
apinhadas de gente em férias que sorri
em fins de semana prazenteiros,

Vejo Beja e Olivença com os seus montes como seios de
Diana, perfeitos e aos pares e o povo alentejano contando
histórias de malandros, à porta de casas caiadas, iluminadas de
fraternidade,

Vejo e sinto Alcobaça e Caldas da Rainha e Porto de Mós,
vejo aquelas serranias onde Viriato foi maior que Roma
e as grandes Serras apontadas ao céu,

Vejo Nazaré com as suas casinhas de pescadores (agora
alugando quartos) numa atarefada propaganda turística
de boca em boca, à maneira bem nossa, para ajudar aos
fins de mês,

Tudo isto me leva para longe. Tudo isto me faz divagar e
compreender estas pessoas e a sua capacidade de luta.
Parece-me claro como água da fonte que este povo não quer imiscuir-
se nos problemas políticos do país, devido à forma como os políticos
se comportam com o povo,

Vejo e sinto como o Cinema nos traz, de bandeja, os países
longínquos, seus usos e costumes. Ouço a voz do Dalai Lama, no
extremo oriente, cujo povo tem olhos expressivos de muita sabedoria
natural,

Vejo e sinto os descendentes da Pérsia que tanto podiam ter herdado
dos seus antepassados, se não fossem as guerras e a cobiça alheia. A
riqueza que amealharam com as guerras, noutras batalhas a perderam,

Vejo e sinto, crise após crise, como o povo do Iraque continua a
sofrer,
vejo e choro por essa África imensa onde a desigualdade é total, onde
todos os impérios vão buscar escravos, ouro e petróleo, deixando-a
com doenças, com fome, com degradação,

E vou adoecendo lentamente
pelo mal que vejo existir em terras que já deram tanto ao resto do
mundo que as despreza e oprime.

E relembro aqui Abdel Kader, argelino, colocador de alcatifa, que
conheci pessoalmente e todos os árabes, meus colegas de trabalho na
Fábrica Duco, nos arredores de Paris, combatentes pela liberdade e
independência da Argélia.

Assim como também MARA, famosa candora espanhola de Jaen,
resistente anti-franquista, cuja lembrança me dá tanto prazer e
admiração. No seu Restaurante: O Maravdi, juntavam-se além de
espanhóis, franceses universitários que discutiam filosofia e artes,
entre eles alguns poetas. Isto passou-se em 1979 na Rua de la
Montagne Sainte Geneviéve em Paris.

Assim como também os meus amigos e condiscípulos das “Noites-
Universidade, operários da Fábrica Renault em Boulogne. Billancourt
cujo destemor e valentia me ensinaram a viver o perigo e a
fraternidade.

E recordo sobretudo PARIS a capital da Felicidade reconstruída,
assumida, nas suas noites de glória e juventude que eram noites de 24
horas, onde a medida de ser homem se colocava para além dos
números e das matemáticas. 

Fernando Morais
in “Ao Povo do Mundo

A TUA AUSÊNCIA

A TUA AUSÊNCIA

A tua ausência
Que me faz sofrer
A ausência dos teus beijos
Ao amanhecer
A ausência do teu corpo
Sobre o meu
Quando fazia-mos amor
A ausência das tuas carícias
Quando me vias chorar
A ausência das tuas malicias
Quando me vias sonhar
A ausência das tuas palavras
Quando nos amava-mos
Volta para ao pé de mim
Vem não me faças mais sofrer
Vem deitar-te ao meu lado
Amar-te-ei até morrer
 

César Carvalho

MAIO FLORIDO


MAIO FLORIDO

Nos registos antigos
As lendas da tua Viana
Têm nos trajes garridos
Das terras do vale do Lima
O belo que a todos fascina
E enche os olhos perdidos.
O noivo seduzido
Ao ver a noiva trajada
Imagina sua rainha
No vestido preto bordado
O oiro no peito poisado
Nas mãos o ramo cheio
Oh! Do teu Maio florido.
O tempo vai com promessas
De tudo mudar de repente
De sul para norte a rodar
Põe as pessoas avessas,
Mas alma do seu folguedo
Fazem alegremente o cortejo
E vivem os seus festejos.
O dia foi um retrato
Poente no Cabedelo
E vê-la a cidade basta, mas…
Doce é adormecer
Junto do teu cabelo.


Luís Pedro Viana
in “Rotary Club”
Abril de 2012

PACIÊNCIA

PACIÊNCIA

Oh, que demora,
Oh, como aquilo,
Tão ardentemente eu desejo.
Como acontecer, não acontece!
Que fazer, devo?
Se esperar,
Minha capacidade ultrapassa,
Oh paciência,
Tu, que mais forte do que eu, és,
Que fazer, devo?

Longa, a marcha humana é,
Lentamente renascendo e vivendo,
Consciência mesmo ter preciso,
Sem nada prever, apenas possível o futuro tornar,
Desejo de gratificação instantânea esquecer devo,
Mesmo que vagarosa a descoberta de mim mesma ser.
O caminho, para modificações mais profundas restringe-se,
Devagar, outros estados de consciência provocam,
Alimentos de uma continua espiral,
Mesmo de acordo com o que o meu sistema aceita.
E quanto, às deficiências minhas,
Sem de um dia para o outro desaparecerem,
Outras visões mostram,
E então a mão à palmatória dou.

Oh, paciência.
Ensinas-me com os meus problemas não resolvidos viver;
Quais os meus desejos não identificados são, perceber;
E sem resposta, quais as minhas questões são.
Tudo isto, paciência,
A renunciar às gratificações instantâneas, incitou-me,
De gestos impulsivos, não fazer,
De cometer enganos, impediu-me,
Fazer coisas que não estou preparada, forçar evitou.
Obrigada pois, paciência,
Por das forças mais discretas e poderosas do universo seres!

Cristina Maya Caetano

CANTAR DE VIVO PARA UM CAMARADA MORTO

CANTAR DE VIVO
PARA UM CAMARADA MORTO

Nas mãos do vento uma guitarra arde.
É tarde. É tarde. E o meu poema pouco.
Que um deus qualquer a tua fúria guarde.
Que qualquer deus te ame. Ou qualquer louco.

No fundo do olhar morre a gaivota.
É cedo. É cedo. Vai gritando o vento.
E leva em cada asa uma derrota.
E põe no céu de Abril o sofrimento.

É cedo. É tarde amigo. Ai é tão cedo!
É tão macia a noite. E negra a cama.
coberta com lençóis do teu segredo.

Para ti não há loiros. Não há fama.
E enquanto um povo lavra o chão do medo
o poeta rasga as veias sobre a lama.

Joaquim Pessoa
lido por Lourdes dos Anjos

EU AMO

EU AMO

Eu amo o teu gravador de chamadas
Ela não me abandona
e repete vezes sem conta
a tua voz.


Pedro Mexia
in “Menos por Menos”
lido por Ana Pamplona

OBRA

OBRA

Acordei,
a meu lado um corpo de mulher,
dormiu com o meu,
que fiz eu?
dormi apenas ou houve sobreposição de pernas?
sim,
aconteceu qualquer “coisa”
sei que foram apenas minutos!
levantei-me,
abri a janela,
vi “putos”,
regressei à cama,
voltei-me para ela,
acariciei-a,
logo me lembrei da “obra”
que tinha feito em minutos!...

Silvino Figueiredo
Figas de Sant-Pierre de Lá-Buraque

CARTA A DANIEL FILIPE.


CARTA A DANIEL FILIPE.

Para ti, Lá na distância tão distante tão longe, longe.

Perdoa-me este chamar-te,
este acordar-te do teu sono;
Perdoa-me por favor.
- AGORA e AQUI mas tão tarde,
entendo a tua mensagem, os teus desabafos
Como lamento os momentos tão mal vividos
e ainda os que não vivi.
Só agora alcanço o sentido, e o sofrimento contido
quando dizias: - “Estou farto!”,
Perdoa-me mas estas palavras faziam-me impressão,
Eu julgava que ser bom, ser sensível, ser inteligente,
Ser poeta era tudo.
Julgava eu ser exagero a dor posta no papel,
Quase que feria os meus olhos, os meus ouvidos de pobre menina,
tão pobre e tão estupida como analfabeta.
- Assim não podia entender que,
alguém além de mim dissesse:
“Estou farto” mas…. AGORA e AQUI já te compreendo,
Já sei o que tu querias dizer-me quando dizias: - “Estou farto”
E eu não te entendia.
Perdoa-me por só agora te dizer, o que então te podia ter dito e não soube:
- “Estou farta”,
Farta de tanto cansaço, de tanto esperar coisa nenhuma,
De tanta miséria que me cerca, Meu Deus!
… e assim continuo eu que não sou EU
e pasmo como tudo segue igual, impassível
sem que nada nos toque,
sem que os outros sintam ou vejam a tortura que sinto nos outros,
e em MIM.

- Tudo segue igual, o mar é sempre mar,
e eu continuo a esperar que o mar seja alguém!
- As árvores são sempre árvores,
e eu continuo a esperar que alguém seja árvore que em mim cria raízes!
- Tudo segue igual, nada se modifica, por exemplo:
            - a guerra tornar-se paz,
            - a dor em alegria,
            - a fome tornar-se em pão,
            - a desesperança em esperança.
- Tudo segue igual,
            até faço amor como os outros,
            até vou às compras, ao cinema
            caminho pelas ruas, a ver a agitação, azáfama dos outros,
            o atropelarem-se uns aos outros na vã tentativa
            de chegarem primeiro seja ao que for onde for
                                                           (parecem abutres)
            e… e então são pisadelas, encontrões, apalpões e perdões…
            e lixe-se o parceiro “antes ele que eu”
            (pensa aquele senhor gordo só pança, só unto de tanta fartura)
Estou farta!
Farta cansada
Cansada de muito esperar,
Esperar e querer muito
Mas não sei o quê ou quem

E – é tão tarde
E não tenho coragem para levar a mão ao puxador da porta
e sair de dentro de mim,
É tarde… muito tarde…
E neste esperar que vejo?
Cães abandonados, esfomeados.
Lá vai a pobre mulher, cheia de filhos, cheia de barriga até à boca
cheia de miséria até à ponta dos cabelos sujos e incertos
cheia com um mundo dentro dela,
e ela cheia do Mundo,
tão cheia, a barrotar!
Caminho e procuro nos rostos a minha imagem
E encontro-me em cada um que passa
Vejo-me e então;
- Sou um Mundo,
- Sou um velho senil,
- Sou uma criatura sem pai,
- Sou um pobre pedinte disforme,
- Sou a prostituta que passa provocante de cu a dar a dar,
- Sou a pequena aprendiza de cabeleireiro, a tremer de frio dentro da bata rota e de mãos gretadas,
- Sou a criada roliça para todo o serviço, a sonhar com a cidade,
- Sou aquela velha mirrada acocorada em qualquer esquina da dor,
- Sou um par de namorados no vão de uma escada,
- Sou aquela senhora toda empertigada de sabedoria que não passa cartão,
- E também a pobre idiota Amélinha batateira.
- Ah! é verdade!!!
- Sou também o homem da banha da cobra “O Sr. Machado” que tanto me encantou na minha meninice.
- Sou ainda a pobre rapariga tão pobre como analfabeta que não te entendeu quando dizias: - “Estou farto”.

Tudo segue igual, e eu a sonhar
e eu na lua mas com os pés na terra,
e eu a querar voar, a querer partir
mas cada vez mais presa ao barro que me moldou.
Cansada de corpo mas mais ainda d’alma
mas como o meu corpo e alma são um só, confundo
e por vezes não sei se é o corpo ou a alma que me dói.
… mas os outros também não sabem, e não sentem meu Amigo
e riem-se e não querem saber porque se riem,
e não querem saber porque choram.
Fazem alarde da riqueza que não tive, e não querem saber porquê!
Todos os dias morrem poetas, pobres e os outros…
E talvez sem saberem porquê;

Eles também estavam fartos, fartos das misérias deles e dos outros…
Mas eles, os POETAS, sabiam porquê!
Tinhas razão: - tudo segue igual, e u, continuo a amar,
Amar cada vez mais, procurando a poesia que perdi em ti.
Aquela poesia verdade sem a qual não posso viver;
Por isso asfixio nesta monotonia em que as pessoas fingem
que não sabem que estão fartas
“Mas estão fartas”!!!
E continuam a fingir que vivem;
E não sabem que estão irremediavelmente mortas.
… e eu continuo a coser, a lavar, a pontapear peúgas,
amar este, aquele, toda a gente,
tentando desesperadamente a poesia em mistura com a cozinha,
as batatas, as cebolas e o verde das couves, o verde esperança,
a querer acreditar em fadas “que tão mal me fadaram”
…. Mas tudo segue igual,
E eu tão confusa que não diferenço entre o corpo e alma,
a dor e o amor,
o riso e o choro,
a vida e a morte…

Tinhas razão Meu-Amigo-Tão-Longe
Quando dizias
“ESTOU FARTO!”.


Aurora Gaia

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Apresentação do livro de Carlos Val "Nono Sentido"

Conceição Bernardino sob
o pseudónimo de Carlos Val
in “Nono sentido”




 Ana Maria Roseira declama Carlos Val
 Eduardo Roseira
 Alzira Santos

Poesia na Galeria

 César Carvalho
 César Carvalho
 Ana Pamplona
 Ana Pamplona
 Aurora Gaia
 Aurora Gaia
 Libânia Madureira
 Libânia Madureira
 Bernardete Costa
Bernardete Costa