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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

VERMELHO E PRETO

Jorge Murillo Torrico


VERMELHO E PRETO

No raio de sol no calor do lume
na brasa acendida do aceso amor
perpassa às vezes um súbito frio
apesar do fervor no finíssimo gume

Apesar do horror da pretíssima noite
distingue-se às vezes por entre o negrume
um fogo vivo devorando aflito
a sua própria cor…


Esconde, esconde amor estas palavras
o amor que nos une é clandestino
porque hoje a ternura é coisa rara
e tem inimigos à esquina

Esconde, amor, o nosso amor
que é transgressor da vida das viaturas
feita de fumos e lixo deitado à rua
e a ternura não é bem vista nem aceite

Esconde amor que estás feliz amando
agora só quem mata plantas, fere rios
tem o direito de falar e circular
e esses são os donos das cidades

Por isso esconde já os nossos versos
e as mensagens de carinho que trocamos
os automóveis matam, gazeiam
escurecem o mundo onde estamos

Fernando Morais
in "O Poeta Escondido"

sábado, 13 de novembro de 2010

NÃO HÁ VAGAS

JORGE MURILLO TORRICO


NÃO HÁ VAGAS

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz e o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
  está fechado:
  “não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

          O poema, senhores,
          não fede
          nem cheira

Ferreira Gullar (Brasil)
dito por Eduardo Roseira