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quinta-feira, 10 de março de 2011

BILHETE DE IDENTIDADE

Carlos Dugos
BILHETE DE IDENTIDADE

Seja de Inverno ou de Verão
Haja ou não nuvens no céu
Eu, em qualquer estação
Uso sempre o meu chapéu.
Mesmo em dias de sol
Se está frio, de manhã
Não esqueço o meu cachecol
E o meu gorro de lã.
Para desporto, uso boné
Para bodas, a capelina
Usava boininha, até
Para o colégio, em menina.

Nos dias em que estou triste
Quando a saudade me ataca
Eu ponho o meu chapéu preto
Feito em tecido de alpaca.
Um chapéu dá sempre graça
Se com graça é colocado
Quanta mágoa se disfarça
Sob um chapéu derrubado!
E o meu chapéu de praia?
Esse é que não dispenso
Enquanto o olhar se espraia
Vou-lhe contando o que penso.

Ou por isto, ou por aquilo
E às vezes, só por vaidade
O chapéu é o meu estilo
O meu Bilhete de Identidade.

Maria Augusta Silva Neves
in "Turbilhão de Emoções"

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O POEMA DO SONO

Carlos Dugos
O POEMA DO SONO

Inquietamente, o nosso sono demanda à pressa
os seus migratórios voos sobre mim.
O seu provisório ímpeto torna-se perceptível
e tudo, tudo se purifica,
se destila numa vitrina de seda,
dando lugar à
arquitectura dos sonhos.
Deixo escapulir de mim a luz,
como se de uma ternura se tratasse
e o escuro aparece,
solenemente como um intruso.
Na inocência despudorada,
ao idioma do dia seguinte.
Admirável e logicamente, sobreviveu apenas
um bocejo.

Ahhhhhhhhhhhhh!

Kim Berlusa

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

PINTORES QUE PINTAM POR DENTRO

Carlos Dugos

PINTORES QUE PINTAM POR DENTRO

Pintores que pintam por dentro

Quando faltam pincéis!
Quando na tinta não há cor!
Quando tudo é preto!
Quando se esvai a inspiração!
Quando a vida nos trama
É quando nos sentimos em ascensação,
E sem paleta,
Sem pincéis,
Sem cores,
Pinta-se, com os dedos da mão,
O sentir da alma na ardência
e no esfriamento dos amores!

Quando a obra nasce,
Sob luminosa luz,
Reina a calma,
O contentamento,
Por nos termos pintado por dentro!

Silvino Figueiredo
(O Figas de Saint de lá Buraque)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

ESPELHOS

Carlos Dugos
ESPELHOS

Tudo isso não é querer de mais
nem de menos sequer: é querer tanto
que o espelho quando mostra os sinais
e revela a nudez sem qualquer manto

reverbera que sendo quase iguais
o que exibe é de outro que entretanto
percorreu os caminhos naturais
despojado que foi do ar de espanto

de quando transbordava de vigor
a prumo mais erecto do que um pau
de bandeira a subir e a transpor
o fogo das artérias: só é mau

que os espelhos devassem o desgaste
e foquem a nudez a meia haste

Domingos da Mota
in "Bolsa de Valores e Outros Poemas"

sábado, 18 de dezembro de 2010

MARCADOR

Carlos Dugos
MARCADOR

Isto é um marcador
Dum livro, que anda
Sempre contigo,
Que o andas a ler,
Aos poucos,
Mas sê tu
Também um livro
E deixa-te ler por outros.

Aguarda que ele pare
Na página do amor.

Depois, pousa o livro
Na mesinha de cabeceira
E espera que teu leitor
Em ti leia amor,
No teu corpo,
A noite inteira.

E se alguém te disser
Que te amou demasiado
Não queiras
O excesso devolver.
Guarda-o
No cofre da saudade
Para ser recordado,
Para te ajudar a viver,
E no meio dos teus ais
Lembra-te que:
Ninguém
Nunca ama demais.

Silvino T. M. Figueiredo
(figas de saint pierre
de lá-buraque) Gondomar
19/11/2010

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

AQUELA QUEDA!

Carlos Dugos
AQUELA QUEDA!

Já faz um ano!

Lembras-te ainda
daquele Inferno de amar?
Aos olhares interrogavas
se os aplausos eram teus…

E depois?
        Que aconteceu?

Então, já tu passeavas
no teu mundo de ilusões.

Vês, o que são distracções?

Subiste…
       …escorregaste…
               …caíste!

Foram só dois trambolhões!

Miguel Leitão
in Em nome das palavras

sábado, 13 de novembro de 2010

Ó MEU PAÍS

Carlos Dugos

Ó MEU PAÍS

Ó meu País, ó pátria do meu sangue,
das minhas asas, das minhas entranhas,
meu canto doloroso há-de soar
como o vento nos cumes das montanhas.
Como o vento no cume das montanhas
meu canto doloroso há-de soar.
É esta a minha luta, a minha guerra:
cantar cada torrão da minha terra.
Nascemos ambos há mais de oito séculos
e desde então eu sei que sou filha,
não só de cada pai, de cada mãe,
mas de cada regato, cada fonte,
cada falésia, cada penedia,
cada gota de mar, cada raiz
deste antigo país de pedra e mato.
Descendo em linha de Viriato,
de Afonso Henriques e de Egas Moniz.
Nasci na serrania entre penedos,
alcateias de lobos e rebanhos,
tudo isto era já pátria imortal,
Lusitânia a sonhar com Portugal.

Ó meu País, meu canto há-de soar
como soa o trovão na tempestade,
pois para te cantar não tenho idade,
não tenho dimensões, sou mais do que eu.
Ergo os braços e vede! Tenho asas,
e subo pela Fé até ao céu,
e se preciso fosse, ó meu País,
andaria descalça sobre brasas,
lutaria com lobos e javardos,
bebendo fel e mastigando cardos.
Trovadores, a mim! A mim, jograis!
Sai do Cancioneiro, D. Dinis,
vinde cantar e semear pinhais!
Vinde cantar, Luís Vaz de Camões,
que a Pátria está doente de tristeza,
retalhada por ódios e traições!
Vinde cantar, Poetas! Gil Vicente,
vinde cantar, dizer à nossa gente
que o sangue que adobou este País
era sangue de heróis, cuja semente
deu flor e fruto pelos tempos fora!

E agora, Portugal? Agora, agora?
Agora um só caminho, uma só rota,
ó meu País, mas serás tu capaz
de voltar alguns séculos atrás,
não no tempo ou no espaço mas na alma,
na vontade titânica, implacável,
que dos previstos campos de derrota,
a cruz erguida, fez Aljubarrota?

Ó meu País, doente de amargura,
na seara do amor alastra o joio,
há que limpá-la da semente impura,
grão a grão, alma a alma, moio a moio:
agora um só caminho, o da Esperança.
Pode morrer um povo que além-mar,
ignorando terrores e cansaços,
pela força das almas e dos braços,
abriu caminho a golpes de machado,
construiu pontes para galgar rios,
desbravou matas para erguer cidades?
(Lembrai-vos do Mostrengo, do Gigante:
soprava tempestades pelas ventas
mas dobrámos o cabo das Tormentas!)
Atentai! Num dos pratos da balança,
o Mostrengo, o Gigante grosso e imundo;
no outro, Portugal, D. João II!

Ai, quantos, quantos cabos já dobrámos!

Neptuno, Adamastor, bem o sabeis!
Sujeitava-se o mundo às nossas leis,
nós, Portugueses, não! E então agora,
ó meu País, hás-de puxar à nora
ou curvar a cabeça porque és pobre?
Não e não, que ser pobre é não ter Fé,
não ter alma, e nós somos ricos de alma.
Deixa passar as ondas, a maré.
Será longa a viagem, será dura?
Quando é que foram fáceis as viagens,
os caminhos da glória, da aventura?
Bartolomeu, Cabral, Vasco da Gama,
por que preço pagastes vossa fama,
o caminho das Índias, dos Brasis?
Não, Portugal, não és um país pobre
porque a tua moeda não é de oiro,
não é de prata, é de um metal mais nobre.

Acabaram no mundo as Descobertas,
já são velhas de mais as velhas rotas,
já não há no planeta ilhas desertas,
povoadas de sáurios e gaivotas?
Que importa, meu País, se ainda és capaz
de descobrir, em vez de continentes,
penínsulas de amor, ilhas de paz
onde possam viver as tuas gentes?
Ergue a cabeça, acalma a tua dor.
Qual o país sem nódoa ou cicatriz?
O vendaval sacode folha e flor;
pode o fruto cair, fica a raiz.
Coragem, Portugal! Doem-te as chagas?
Mas não serão catanas nem adagas
que te farão esquecer essa glória:
sangue e suor, vitórias e derrotas,
com tudo isto é que se faz a História.
Na vida de um país há bom e mau:
Jesus, e era Jesus, chorou no Horto,
sofreu, e só depois subiu ao Céu.

Não, Portugal, não és um País morto,
que Deus é o timoneiro desta nau
e chegaremos todos a bom porto.
É de pedras e cardos o caminho?
Que importa? Tudo é vida, rosa e espinho.

Vem de longe, da História, a nossa herança
de Fé, de Caridade, de Esperança.
De regresso dos quatro continentes,
das Áfricas, das Índias, do Brasil,
da Austrália, do Japão e das Antilhas,
serão estas, acaso, as Novas Ilhas
onde irão aprovar as caravelas
do meu país em busca do futuro?
São asas, vede, as enfunadas velas,
Portugueses, de pé! Saltai o muro,
os arames farpados do terror,
que não há neste mundo Adamastor
capaz de destruir a Nova Aliança
do Portugal da Fé e da Esperança.

Alcateias de lobos esfaimados,
embrulhados nas sombras dos poentes,
cobiçam em redor dos povoados,
o sangue dos rebanhos inocentes.
Alerta, Portugal! Cada ribeiro
murmura, gota a gota: «Tem cautela!»
e de cada pinhal, cada pinheiro
é vigilante, atento sentinela.

Tens inimigos, sim, gente estrangeira
que sempre cobiçou teu património
e movida por artes do demónio
em África rasgou tua bandeira.
(Só a verde e encarnada porque a outra
no coração do Povo está inteira.
Só a verde e encarnada, a transitória,
que a eterna, a verdadeira, para sempre
há-de ficar nas páginas da História.)
Ó povos de além-mar, vossa tristesza
são saudades da pátria portuguesa.
Entretanto, atentai! Ainda lá estamos
e estaremos no muito que sofremos,
e estaremos na língua que falamos.

Bem mais triste é o irmão ao seu irmão
mostrar o punho sem lhe dar a mão.
Tem, porém, fé, que o próprio inimigo
há já muito perdeu as ilusões,
não ignora que Deus está contigo,
e Deus, ó meu País, sabe o que faz:
deu-te santos e heróis, deu-te Camões,
deu-te o Mar Tenebroso, deu-te as ilhas
e metade do mundo em Tordesilhas,
mas tem mais, muito mais para te dar,
não praia ou ilha ou continente ou mar.
Não é com lutas ou com Descobertas
que se faz hoje a verdadeira História.
A quem importam hoje ilhas desertas?
Não, com certeza, ao povo português!
Na mata virgem foste pioneiro
e nas rotas salgadas o primeiro,
mas hoje, ó meu País, a tua glória,
o teu destino é descobrir a paz,
e o mundo saberá mais uma vez
de quantas maravilhas és capaz!

Fernanda de Castro
in "Poesia II"
dito por Lourdes dos Anjos

sábado, 30 de outubro de 2010

CARTA PARA UM AMIGO

Carlos Dugos
CARTA PARA UM AMIGO

Meu prezado Amigo:

Obrigado pelas imagens que, por e-mail, me enviou. Não entro no jogo da retribuição porque não tenho à mão, nenhuma imagem especial e, se a tivesse, não saberia como fazer-lha chegar. Envio-lhe PALAVRAS que, muitas vezes, também são bonitas!
As palavras dizem, contam, descrevem, ensinam, provam, justificam e explicam. Com palavras podemos fazer muitas coisas às pessoas: prometer, elogiar, bendizer, abençoar, amaldiçoar, ameaçar e ofender. Com elas acariciamos e exprimimos o nosso amor; com elas fazemos mal e projectamos o nosso ódio.
Há palavras que abatem, arrasam, e aniquilam uma pessoa, mas há também as que nos põem em pé, nos sustentam e dão vida. O que elas nos dizem pode acalentar-nos, tornar-nos feliz ou, então, diminuir-nos, empurrar-nos pela ladeira da desventura.

Conheçamo-las e estejamos conscientes do seu poder. Respeitemo-las e saibamos usá-las para que se mantenham como arma dócil e obediente, fazendo exactamente o que queremos que elas façam, procurando que não prejudiquem ninguém.

Apreciemo-las no seu poder e contemplemo-las nos matizes com que se apresentam: há palavras de mutas cores e podem ser proferidas em muitos tons, conforme a alma de quem as diz. Por isso podem ser perigosas, traidoras, revelando aos outros o que não lhes queremos mostrar!

Eugénio de Andrade diz-nos a seu respeito:

São como um cristal,
As palavras.
Algumas, um punhal,
Um incêndio.
Outras,
Orvalho apenas,

Secretas vêm, cheias de memórias.
Inseguras navegam:
Barcos ou beijos,
As aguas estremecem,

Desamparadas, inocentes,
Leves.
Tecidos são de luz
E são a noite.
E mesmo pálidas
Verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escutas?
Quem as recolhe, assim,
Cruéis, desfeitas,
Nas suas conchas puras?

Pois é, as palavras seduzem-nos:
Como o cristal, são duras e, simultaneamente, frágeis e delicadas!
Transparentes e, ao mesmo tempo, conseguem camuflar os maiores segredos do mundo!
Atraem-nos pelo brilho e musicalidade, tal como são capazes de nos devorar, precipitando-nos no mais fundo dos abismos.

Elas são, de facto, no dizer de Eugénio, como um cristal. E, com ele, perguntamos também: - Quem as escuta? Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras?

Não dê importância a estas reflexões.

Aceite só um abraço.

Miguel Leitão
in Em nome das palavras

RENOVOS

Carlos Dugos

RENOVOS

Vieste a cavalgar numa aragem de sol e
Derrubaste os muros que me
Cercavam no meu
Quintal quotidiano.

De repente fez-se dia.

Ergui-me e
Percorri trilhos de luz
E de promessa.

Do chão surgiram esperanças
E todas as primaveras floriram.

Miguel Leitão
in Em nome das palavras

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

BOTÕES DE PUNHO

Carlos Dugos
BOTÕES DE PUNHO


Mesmo que de madrepérola,
de osso, vidro ou marfim
o botão cosido ao punho
é corriqueiro,
sempre um objecto banal.
Útil,
necessário,
mas não conseguindo ir além
de mero serviçal
de uma peça de vestuário.

Sem ter existência autónoma
nem vida própria, pessoal,
vive em função da camisa
a que está agrilhoado,
sem outra razão de ser
que não seja
a de lhe manter
o punho abotoado.

Não conhecendo liberdade
nem margem de movimentos,
está preso à fatalidade
de morar em pobre casa
e de não poder sair,
nem sequer por uns momentos,
do punho da humilde manga
daquela peça de vestir.

Para além da escravatura,
-- horizonte dos seus dias --,
corre o risco de afogamento
se a camisa vai a lavar,
ou de grave queimadura,
se alguém a engomar.
E não consegue sobreviver
à peça a que foi costurado,
e esta se rompe e se acaba,
ou se o dono a põe de lado.

O fim que lhe está reservado
é ser jogado no lixo
e, mesmo aí,
continuar acorrentado
ao velho trapo,
esquecido e abandonado,
por estar fora de serviço.

Distinto, com categoria
é o clássico botão de punho
feito de prata,
de ouro branco ou amarelo.
Pode ser de fantasia,
mas com pedra a reluzir
de tal jeito
que apregoe a toda a gente
a “classe” de quem o usa:
um aristocrata perfeito,
não a fingir,
mas a sério,
um “gentleman”
um verdadeiro senhor.

Dotado de autonomia,
é independente da roupa que alinda
e, a fim de se instalar
conforme é de seu querer,
são postas ao seu dispor
não uma, mas quatro casas
para se poder mover.

Aplicado em punho duplo
nos pulsos de um cavaleiro
é apreciado por si,
pelo que é
e pelas suas qualidades
-- a elegância que possui,
a beleza que encerra,
o material que o constitui,
mais que o valor em dinheiro.
Depois,
no caso de uma herança,
pode ter ainda outro mérito:
o de ter sido pertença
de um cidadão emérito
ou de alguém
a que se queria muito bem.

Por isso é sempre estimado,
e dotado
de vida longa,
sobrevivendo às gerações.

Tenho um par aqui ao pé,
em caixa desconjuntada
que retiro da gaveta
forrada
a estopa ou pano de linho.
Abro religiosamente a caixa,
com cuidado
e com carinho,
como quem espreita uma relíquia
ou um objecto sagrado.

Alinhados,
dentro dela,
e a fitar-me, esbugalhados,
aí estão eles, que nem olhos:
dois lindos botões prateados,
enfeitados
com uma pérola amarela.

Eram o luxo de meu Pai,
nos seus tempos de rapaz
e de galã.

Mas certo domingo,
de manhã,
anunciava o sino a missa,
aproximou-se de mim,
era eu moço pequenino,
e, com um doce beijo na testa
aplicou-mos na camisa
a fim de eu poder brilhar
no primeira comunhão!


Que importante me senti,
que ufano,
que crescido,
que vistoso figurão
no meio dos outros meninos!

Passei mais tarde a usá-los
sempre que era ocasião,
em dias santos, dias de ano,
em reuniões, solenidades,
acontecimentos mundanos
e encontros sociais.

E quem ficava vaidoso
e quem se orgulhava mais
não era eu,
mas meu Pai.

Cá estão eles a olhar para mim
com ares de repreensão
por os ter aqui retidos,
completamente esquecido
de os passar,
como seria meu dever,
a meu Filho,
rebento jovem
de outra e nova geração.

Miguel Leitão

domingo, 15 de agosto de 2010

A PALAVRA

Carlos Dugos
in: http://eaobranasce.blogspot.com/

A Palavra

Silvino Figueiredo (o Figas)

A palavra é átrio de entrada
Onde outras palavras entram
Esperando que alguém as apresente
Ou represente
Que lhes dê a mão
E as guie até ao lugar
De seu exacto significado
Da sua real intenção.

Uma palavra só
Só uma palava
É nada
Ou é algo com acção
Ou então
Não passa do átrio d’entrada

Palavra só não faz ária
Nem cantoria
Nem poema
Nem poesia
Uma pedra só
Não faz jogo de dominó.

Palavra só
É como um só camelo
No deserto
Não faz caravana.

Uma palavra só
Não tem chance
De romance.

A palavra amor
Por exemplo
Até pode significar
A abóbada dum templo
Mas a palavra amor
Sozinha
Isolada
Sem mais nada
É comezinha
É nada.

Uma palavra
Precisa de acção
Doutra palavra
Estar acompanhada
Por exemplo
Com a palavra fazer.

Então sim,
Uma à outra ligada
Formam uma caravana
Que levará o amor ao seu templo:
À cama
Ou até mesmo
À caravana...
Com camelos a ver...

domingo, 8 de agosto de 2010

LINHA DO MAR de Miguel Leitão

Carlos Dugos
in:http://eaobranasce.blogspot.com/
LINHA DO MAR

Miguel Leitão

Dilato os olhos,
Fascinados!

Percorro o azul que se oferece
Na pureza da ampla curva
Horizontal,
Alongada,
Aberta:

- a fronteira entre o céu e o mar.

Assim teu corpo,
Viola curvilínea,
Fascinante,
Distendida,
Oferecendo-se a meus dedos
Que acendem na noite baladas de fogo,
Baladas de amor:

- a fronteira entre a vida e o sonho.

do livro de poemas "Em Nome das Palavras"