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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

GOZAL DO AMOR DESESPERADO

GOZAL DO AMOR DESESPERADO

A noite não quer vir
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.

Mas eu irei,
mesmo que um sol de lacraus me coma as têmporas.

Mas tu virás
com a língua queimada pela chuva de sal.

O dia não quer vir
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.

Mas eu irei
entregando aos sapos o meu cravo mordido.

Mas tu virás
pelas turvas cloacas da escuridão.

Nem a noite nem o dia querem vir
para que eu por ti morra
e tu morras por mim.

                   Frederico Garcia Lorca
                 in “Divã do Tamarij”
                         lido por Luís Nogueira

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

PODIA DIZER-TE…


PODIA DIZER-TE…

podia dizer-te: - teus olhos
trazem-me brilhos de uma lua
cheia de ocultas maresias
e incógnitas marés. ou
montes, montes de soluçados carinhos
e cabelos que são arrepios
dos meus dedos.
não digo
que tuas mãos me ensinam o mundo,
húmidos caminhos de paraíso;
insólitas noites – dias sem prazo –
serenas ficam as folhas que resistem.

podia dizer-te: - és única,
mágico sonho, beijo
sem princípio nem fim.

podia dizer-te ainda mais;
nada mais digo, nem mesmo o que te disse,
digo: sempre gostaste do silêncio
com que te ofereço
estas palavras.

um dia
quando as plantas falarem
dir-te-ão de mim sombras e sorrisos;
embrulhados olhares
percorrerão teu corpo
com a ciência das minhas mãos: sabes,
volto sempre com cabelos à espera de ti.

e é um trémulo desejo que te fala: olá!

Luís Filipe da Silva Nogueira
in “Textos de Amor”
Museu Nacional da Imprensa
Editora: QUIDNOVI

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

De que falamos nós, afinal?

José González Collado
De que falamos, afinal? Nós
a quem os outros chamam poetas?

Saliva é tinta
que escorre e pinta
folhas brancas com letras: mas
são os outros que das letras fazem
os sons; e imaginam (nas letras)
imagens que são
sons sem letras!

E dizemos: morte. Cantando
a vida. Norte. E o caminho
são todos os lados e todas as estradas.
Pontos e vírgulas são nossas Fadas.
E dizemos: tudo. E parece nada!

Dizem-nos: para quê?!...
Porque somos águas, assustamos.
Com tormentas.
Muitas. Quinhentas.
E dizemos: cores. Para que não vejam
o que lhes dizemos.

Escrevemos: sexo. Para que sintam
Amor. Sem ele. Também.
Não, não inventamos estrelas: apenas lembramos
que elas estão lá.
E dor? Ai!, é muito
mais que isso!

Porque falamos, afinal, se ninguém nos quer ouvir?

Gritamos: não digo mais!
E então, só então, têm saudade.

De nós.

Luís Nogueira
lido por Eduardo Roseira

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Estou na manhã do comboio

ALEX DAVICO


Estou na manhã do comboio
que já passou, suavemente desconhecido
e galgando carris de esquecimentos
que jamais vos poderei transmitir: sois capazes de ouvir
o grito de uma rosa?
Passo agora mesmo, aqui
onde não sei ver ninguém e da minha sombra
lembrança alguma restará; dos olhos de quem não esteve
levo a cegueira de um mar que não fui.
Pouca-terra pouca-terra, sou comboio antigo,
um brinquedo sujo em mãos que inventam o menino;
pouca-terra pouca terra, o vapor que transpiro tem o cheiro
das rugas das viagens que não fiz! Pouca-terra pouca-terra,
além vive um monte, a estrada e a esfera, pouca-terra pouca-terra,
há uma frisa que espera, pouca-terra pouca-terra pouca-espera:
áh, o desalento, pouco vento;
silêncio
mudo
pouca terra
pouco tudo!

Adiante, numa curva
a dor sorri: é triste e lindo
o rio aos pedaços, as nuvens nos meus braços
e pouca terra poucos passos: é altura de rasgar o bilhete
para que nunca pare a viagem? Pouca terra pouca aragem
muita dor a vestir a margem!

Pouca-terraaaa, pouca-terrrrraaaaaa, devagarinho
de mansinho, há gente que ainda dorme, pouca terra pouca fome…
Na manhã do comboio, acontece atravessar rios, fios de navalha,
pouca terra pouca palha, pouca-terra pouca-terra, o ruído não atrapalha
e as pontes só caem depois do comboio passar, pouca terra pouca guerra
desejo.
Beijo

Sinto pouca-terra pouca-terra, o gemer da linha
pouca terra pouca minha, descanso a alma
no forno, na caldeira, pouca terra pouca eira;
atravesso a feira, adormeço a esteira, pouca-terra pouca-terra,
algemei a partida, adio a chegada, pouca terra pouco… e nada.

Eh! Eh! Afastem-se!
Vou passar, pouca-terra pouca-terra,
vou passar, pouca terra nenhum mar!

As distâncias que conheceis são gotas d’água
que já não me podem encharcar, pouca-terra pouca-terra,
pouca terra pouco ar: respiro-me.
Sempre que posso. E asfixio a pele que visto
com o desespero que sinto ao ouvir pouca-terra pouca-terra,
pouca terra
aterra
enterra
muito devagarinho pooouuuca-terrrrrrrraaaaaaaaa pooouuuca-
terrrrrrraaaaaaaaa

Para que serve um comboio vazio,
pouca terra pouco rio.
E tanto frio!
Colinas, espinhas, estas viagens
já não são minhas: o bilhete fugiu
antes que o pudesse pagar, pouca-terra pouca-terra,
pouca terra pouco voar.

Estou na manhã do comboio
cujo vento ao passar me oferece um ramo de silêncios;
e é assim que encontro sempre os meus amigos…
pouca terra sempre feridos, pouca-terra pouca-terra,
um dia não é nada, uma manhã é uma vida,
pouca terra pouca vida.

Se eu parar o comboio, se eu o souber parar,
alguém me esquecerá
a chorar…

Luís Nogueira
lido por Eduardo Roseira