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quarta-feira, 25 de julho de 2012

A Senhora de Brabante


A Senhora de Brabante


Tem um leque de plumas gloriosas,
na sua mão macia e cintilante,
de anéis de pedras finas preciosas
a Senhora Duquesa de Brabante.
N'uma cadeira d'espaldar dourado,
escuta os galanteios dos barões.
- É noite: e, sob o azul morno e calado,
concebem os jasmins e os corações.
Recorda o senhor Bispo acções passadas.
Falam damas de jóias e cetins.
Tratam barões de festas e caçadas
à moda goda: - aos toques dos clarins.
Mas a Duquesa é triste. - Oculta mágoa
vela seu rosto de um solene véu.
- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Dizem as lendas que Satã vestido
de uma armadura feita de um brilhante,
ousou falar do seu amor florido
à Senhora Duquesa de Brabante.
Dizem que o ouviram ao luar nas águas,
mais louro do que o sol, marmóreo e lindo,
tirar de uma viola estranhas mágoas,
pelas noites que os cravos vêm abrindo...
Dizem mais, que na seda das varetas
do seu leque ducal de mil matizes...
Satã cantara as suas tranças pretas,
- e os seus olhos mais fundos que as raízes!
Mas a Duquesa é triste. - Oculta mágoa
vela seu rosto de um solene véu.
- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
O que é certo é que a pálida Senhora,
a transcendente Dama de Brabante,
tem um filho horroroso... e de quem cora
o pai, no escuro, passeando errante.
É um filho horroroso e jamais visto! -
Raquítico, enfezado, excepcional,
todo disforme, excêntrico, malquisto,
- pelos de fera, e uivos de animal!


Parece irmão dos cerdos ou dos ursos,
aborto e horror da brava Natureza...
- Em vão tentam barões, com mil discursos,
desenrugar a fronte da Duquesa.
Sempre a Duquesa é triste. - Oculta mágoa
vela seu rosto de um solene véu.
- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Ora o monstro morreu. - Pelas arcadas
do palácio retinem festas, hinos.
Riem nobres, vilões, pelas estradas.
O próprio pai se ri, ouvindo os sinos...
Riem-se os monges pelo claustro antigo.
Riem vilões trigueiros das charruas.
Riem-se os padres, junto ao seu jazigo.
Riem-se nobres e peões nas ruas.
Riem aias, barões, erguendo os braços.
Riem, nos pátios, os truões também.
Passeia o duque, rindo, nos terraços.
- Só chora o monstro, em alto choro, a mãe!..
Só, sobre o esquife do disforme morto,
chora, sem trégua, a mísera mulher.
Chama os nomes mais ternos ao aborto...
- Mesmo assim feio, a triste mãe o quer!


Só ela chora pelo morto!.. A mágoa
lhe arranca gritos que ninguém mais deu!
- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...


- em Claridades do Sul de Gomes Leal

 
declamado por Fernanda Cardoso

Porto Triste e Marginal


Porto Triste e Marginal

A minha cidade está mais pobre
Mais só, mais triste, mais vazia
E tu, e eu e todos nós somos culpados
Todos somos cúmplices, quem diria!
Sabem onde adormeceram os leões alados
Enquanto revolviam a cidade de lés a lés?
No velho Matadouro do Porto, abandonados,
De asas partidas de tantos pontapés.
Repararam-se depois. O Povo pagou
Com os impostos que alguém nos roubou.
E o soldado da Praça de Carlos Alberto?
Sem coroa de louros, sem arma de guerra!...
É esta a minha, a nossa terra?


Finalmente, um golpe de mestria
Roubaram e retalharam a ANJA. Quem diria?
Filha de José Rodrigues. Morava em frente da Cordoaria.
Ontem foi Mercado do Anjo. Hoje, Praça da Capital
Zona nobre da Cidade. Ninho de vida marginal.
Quase acabava “cremada” numa reles fundição
Vendida sem glória, sem plausível razão
Por cento e dezassete euros…dinheiro vil
Escondido, por mãos sujas, em hediondo covil.
 
É este meu Porto desintoxicado de exclusão social
Em tempo breve de qualquer campanha eleitoral
É a cidade abandonada, que apodrece envolta em neblina
Dilacerada por abutres e aves de rapina
Porque te matam, meu Porto?
Que fizeste para tanto te desprezarem?
Oh, Porto, meu Porto, meu berço
Já não há gente capaz de te defender?
Se achares que tal mereço
Não desistas.Não morras sem eu morrer!
 
Lourdes dos Anjos

Cântico Negro

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
José Régio

Declamado por Maria Teresa Nicho

Carta para o Céu


Carta para o Céu 

O endereço que o José Hermano Saraiva nos deixou
Todos sabemos que te vai encontrar. 

É uma morada certa e perpétua,
A ti, caro Pedro, te dizemos que vais gostar dele.
É um homem singular;
Na alegria de viver e de comunicação simples,
Fazia a beleza da Vida. 

Por isso mereceu passar à outra,
Transparente, brilhante e simbólica. 

Peço-te que o aceites, como nós o vimos por aqui,
Olhando o céu enquanto pisava no caminho
Crisântemos para dar expressão à dor da despedida. 

Quando acontecer... fatalidade;
Guarda-nos o lugar junto do nosso irmão.
Queremos estar juncos de novo.
Não pela amizade que nos transmitia,
Tão pouco só pela alegria,
Mas por tudo de bom que possuía. 

E possuía tanto, que contaminados ficamos: 

Por isso merecemos o nosso pedido,
Dai-nos lugar junto dele
Quando for a vez da Eternidade!



Luis Pedro Viana

Emporté par le vent

Emporté par le vent,
Mon esprit plane
Parmi d'autres
Dons le Cosmos,
Dans le bonheur
Dans Ia souffrance.
Je pénètre dans un trou noir
bons le néant
Sons espoir,
Mais...
Je ressors vivant
Avec des idées noires
Qui me traversent cerveaux
Et, compliquent mon existence,
Dans ce monde
Qui nous appelons Terre.
Ce monde
Compiètement traumatisé
Par ces guerres sons fin,
Qui ne finissent jamais.
Ce tas d'ordures,
 Ce tas de merde,
Ce tos d'excréments.
Ces idéologies pourries
Complètement défasers
Ces pitres
Ces pantins,
Ces idiots,
Ces chiens galeux
Sons cosur,
Sons ame,
Dons leurs têtes
Pourries par tant d'haine.
Comme des lumes tranchantes
Qui coupent, même les diamants.
Ces coeurs de pierre,
Ces têtes d'acier
Qui voient le mal
Se planifier.
César Carvalho