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quarta-feira, 16 de março de 2011

Não sei se isto é amor

José González Collado
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te, não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno…
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo…
Eu não sei que mudança a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

                                           Camilo Pessanha,
                                                            in "Clepsidra"
                                                        lido por Miguel Leitão

CREPÚSCULOS

José González Collado
CREPÚSCULOS

Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d’ais comprimidos…
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados,

Sentem-se espasmos, agonias d’ave,
Inapreensíveis, mínimos, serenas…
- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos brancas d’anemia…
Os teus olhos tão meigos de tristeza…
- É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.

                                                   Camilo Pessanha
                                                            in Clepsidra
                                                   Miguel Leitão