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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

PAISAGEM SENTIMENTAL

Victor Silva Barros

PAISAGEM SENTIMENTAL

Rios de suor
leme em lume
cais onde o lodo reveste
qualquer desejo perene,
o barlavento assustado
e o gado desassossegado
neste fim do mundo
ausente,
águas salobras
que afectam os narcisos
gritos de uma voz desasada,
quilhas de barcos do tempo,
relógios de sol parados,
gargantas sequiosas
nos espaços inacabados,
destinos densos,
sílabas encadeadas
em amores finados,
frutos com lábios magoados,
cavernas abandonadas,
facas, gumes, queixumes,
poemas, livros, estantes,
e cada vez mais distante
o amor que se sentiu um dia!
Demónios mordidos,
vampiros caídos,
loucuras pensadas,
preces, risos e terços
presos em cada sermão
na triste procissão
do Senhor dos Aflitos!
Siso, choro e lamento
em ais de cais esquecidos,
filhos de um tempo esgotado
num estendal dependurado
nos quatro cantos do medo!
Momentos únicos do ano,
muros sentados na vida,
arpões, peixes castrados,
pátrias de bocas safadas,
monções, recordações,
porões, aleijões,
no adeus desesperado,
sem sentido e sem passado
ao amor que deixou de ser sagrado!

Maria Olinda Sol

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

DE QUE LADO ESTAREI EU?

Victor Silva Barros
DE QUE LADO ESTAREI EU?

Lados, lados, lados…
De que lado estarei eu?
Estou ladeado de lados
e nenhum deles é o meu.
Lado de cá, lado de lá
lado de fora, lado de dentro
mas continuo sem saber
em que lado me contento.
E o lado, alado que tenho
leva-me a ladear
o lado de onde venho
que é advérbio de lugar.
Há lados, postos de lado
mas em todo o lado é igual
mesmo um lado, desolado
tem o seu lado natural.
E entre o lado certo
e o lado errado
algures está, o lado
que é o meu
mas continuo encurralado
neste mistério intricado
que vai da tua terra ao céu.
Mas digam por todo o lado
de que lado estarei eu?


Kim Berlusa

O PAÍS DAS MARAVILHAS

Victor Silva Barros
O PAÍS DAS MARAVILHAS

Falo-te de um outro país, que não vem nos mapas.
Falo-te de outro país, que não pode ser
medido geometricamente.
Falo-te de um outro país de formas assimétricas
e de coloridos lugares.
Falo-te sim, e sempre te falarei, desse país,
onde todos os sons, não passam de totais
ardis de silêncio.
Falo-te sim, desse país onde o sol, pairando
em luz e pólen, torna o poente ausente.
Falo-te dum céu, onde as estrelas, navegam
presságios serenos, refúgio duma outra dimensão.
Falo-te desse país, que pode ser singularmente
habitado, mas fora da possibilidade de habitação.
Falo-te do país das maravilhas, sem a Alice…

Kim Berlusa

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

POR QUE TEMPO NOVO CHAMAIS?

Victor Silva Barros
POR QUE TEMPO NOVO CHAMAIS?

Por que chamais ano novo
ao tempo que é tão velho,
como tão velho é o fogo
e a água fazer de espelho?

O tempo por nós não passa,
nós é que por ele passamos
e nele deixamos marca
no tempo que lhe gastamos!

Mas se, como diz alguém,
o tempo tem sua idade,
então, meditando bem;
Lar da Terceira idade
é a Terra, na idade que tem,
a rodar na eternidade!

Mas, pergunto eu, de novo:
porquê
chamar novo ao velho,
se tão velho como fogo
e a água como espelho?

É que tempo não tem tempo,
porque tempo não nasceu,
mas sabemos todo o tempo
que cada um tempo viveu!

Silvino Figueiredo

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

NO MEU QUINTAL

Victor Silva Barros

NO MEU QUINTAL

Havia rosas aveludadas
E dálias variadas
E cravos perfumados
E uma ameixoeira
Com frutos doces e encarnados
E uma laranjeira
Que o meu pai plantou.
Havia coelhos brancos
E ratos chinos
Com manchas pretas e amarelas
Que o meu pai criou.
Havia um enorme relvado
Com roupa branca a corar
E do quintal vizinho, apequenado,
Vinham ramos, enormes, duma pereira
Que, connosco, queria morar.
Depois, o silêncio chegou.
O vazio tudo ocupou
Entre as ervas daninhas,
Nas coelheiras vazias,
Na ausência de gestos repetidos,
Entre as palavras que ficaram suspensas,
Há agora a saudade que o meu pai semeou.
No quintal da casa onde cresci
Repousa a madrugada ensolarada
Do Maio florido em que nasci.

Lourdes dos Anjos
in "Nobre Povo"

… AINDA A MANHÃ..

Victor Silva Barros
… AINDA A MANHÃ..

… ainda a manhã
vinha na casa de deus…
anónimo

sob o cinzento manto
esconde-se
a cidade

o sol
tarda
a despontar
para esconder
o alvorecer

…a manhã
ainda vem
na casa
de deus…

Eduardo Roseira
in "O Sorriso de Deus"

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

RECORDANDO

Victor Silva Barros
RECORDANDO

A sã amizade
Nos uniu,
E a falta de loiça
Nos impeliu
A beber de um só copo,
A comer de um só prato.

Muito amiguinhos,
Éramos…
O cão…e o gato!...

Miguel Leitão
in Em nome das palavras

EQUAÇÃO DIFERENCIAL

Victor Silva Barros
EQUAÇÃO DIFERENCIAL

Escolhi um dos fios da ilusão
e depois fiz-lhe o nó de pescador
que abraçado ao pescoço da paixão
mantenho sob a pele do nosso amor:

ora o vento nos sopra de feição
e encharca de luz e de fulgor,
ora passa feroz como um tufão
que roça o limiar do desamor

Mas o nó que nos prende pelas veias
e desata os enredos desta vida
não destece o amor tecendo teias,
nem nos deixa perdidos, sem guarida:

e mesmo que não diga o teu nome,
penso em ti quando a sede vira fome.

Domingos da Mota
in Bolsa de Valores e Outros Poemas

sábado, 13 de novembro de 2010

A COMICHÃO DO POEMA

Victor Silva Barros

A COMICHÃO DO POEMA

Assentado me estou
numa estrutura
de pura literatura.
Minha avó me aconselha:
escrever sem que torça a orelha
comer sem que estoire a barriguinha;
melhor é tentear do que fazer poemas de cernelha
pegados à moda antiga.
Melhor de facto avó do que sonetos
pegados com saliva
são estes tersos versos de formiga:

   uma palavra preta
   com cem patas
   apoquenta o poeta
   que a procura de gatas.

   Pica-lhe o traseiro
   entra-lhe nas unhas
   faz-lhe o mal primeiro
   do que a caramunha.

   A palavra insecto
   corre-lhe nas pernas
   ameaça o recto
   e as partes internas.

   O poeta cata
   fala mais barato
   chamando-lhe ingrata
   descalça o sapato
   e ei-lo que mata
   o poema-chato.

José Carlos Ary dos Santos
in Insofrimento In Sofrimento, 1969
lido por Eduardo Roseira

sábado, 30 de outubro de 2010

SUFOCO

Victor Silva Barros
SUFOCO

Sinto o coração a sufocar no peito,
Dolorido,
Congestionado,
A estoirar
Com a pressão de afectos
Que se avolumam
E atropelam,
Sem enxergarem a porta de saída.

Aí se amontoam
E permanecem como forças vivas,
Pungentes,
Revoltadas
Que nem condenados
Injustamente encarcerados
Entre grades de prisão.

Sinto o pensamento a emurchecer no cérebro,
Paralisado,
inútil,
incapaz de achar os sons,
as palavras,
os movimentos,
os simples gestos
adequados à saída dos afectos,
à sua expansão na claridade.

Aí lhes seria dado arejar,
Ver o dia,
Respirar a luz da vida e do sol
A que têm direito.

Sinto os olhos negros de cegueira,
Movendo-se,
Em vão,
Numa paisagem opaca.

Olhos negros de cegueira,
Não descortinando ninguém
Cuja presença
E cujo olhar
Desencadeiem o que se vai acumulando em mim.

Ninguém a rasgar uma janela
Que me oxigene por dentro,
A fim de que saia a angústia
E entre a esperança.

É o eterno sufoco:

Como quem tem um espinho atravancado na alma!

Miguel Leitão
in Em nome das palavras

LETRA A LETRA NASCE O TEXTO

Victor Silva Barros

LETRA A LETRA NASCE O TEXTO

Letra a letra a casar sílabas
Se vão construindo as palavras
- a outra face do espelho
Do nosso mundo mental.

Palavras que ancoram coisas,
Arrastando-as até nós: paisagens,
Homens e bichos;
Casas, cidades, nações,
Montanhas, nuvens e mares,
Alegrias e pesares;
Projectos e aspirações…

Tudo fica à nossa frente
Por milagre das palavras!

Enfileiradas,
Em linha,
Vão-se transformando em frases:
Desejos, ordens, perguntas,
Negações e
Afirmações portadoras da verdade
Por que alguns homens se batem.

Frases que fazem sentido e que
Podem ferir como espinhos
Ou facas em nosso peito!
Ás vezes sabem-nos bem,
Como veludo macio a roçar em nossa pele,
Ou como iguarias de mel
A adoçar-nos a vida!

Juntando-se umas às outras,
Aves de Outono em bandos,
Vão cumprindo o seu destino.

Elevam-se, pairam, volteiam, mas
Fiéis à sua rota,
Acabam por desaguar
Em textos que falam do mundo
Lá de fora e cá de dentro.
(Qual deles mais importante?
Qual deles será mais real?)

Afinal
Todo o discurso:
Vidas descritas, narradas,
Cochichos de amor e canções;
Negociações conversadas,
Louvores e representações;
Sermões pregados no púlpito,
Simples notas de encomenda ou
Cartas comerciais;
Escrituras de notário,
Notícias, revistas, jornais,
Apontamentos diários,
Conferências, actas, lições,
Ciência deixada aos vindouros
Ou saber proverbial;
Poemas saídos do peito
Romances, dramas, comédias…

Tudo tem na sua base
Pequenos trejeitos de boca,
Ligeiros gestos de dedos!

Ar e tinta…
… nada mais!

Miguel Leitão
in Em nome das palavras

TÂNTALO

Victor Silva Barros
TÂNTALO

Era Inverno. Erguia-se o muro do frio.
Eu tinha as asas caídas
E estavam geladas meus passos,
Lançavas-me de longe um sorriso,
O teu sorriso de festa.
E eu, morto de sede, não podia ir bebê-lo. Entre nós
Uma cortina de vazio e de silêncio.

Ó Tântalo,
Há quantos milénios perpetuas teu sofrer?
Porque não te cumpres de vez e esgotas tua pena?

Ainda tenho que ser eu a provar do suplício?

Miguel Leitão
in Em nome das palavras

domingo, 15 de agosto de 2010

Auto-conhecimento

Victor Silva Barros
in: http://victorsilvabarros.blogspot.com/

Auto-conhecimento

Silvino Figueiredo (o Figas)

Melhor amigo não tenho
Que a própria consciência
É com ela que me avenho
No bem e na indecência