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quarta-feira, 30 de maio de 2012

NÃO ME APETECE


NÃO ME APETECE

Não me apetece…
Não me apetece…

Não me apetece escrever
Não me apetece sair
Não me apetece falar
Não me apetece beijar
Não me apetece sorrir…

Não me apetecem os dias
Não me apetecem as noites
Não me apetecem manhãs orvalhadas
Não me apetece o pôr-do-sol
Não me apetecem as gargalhadas…

Não me apetece ver gente
Não me apetece mentir
Não me apetece ensinar
Não me apetece fugir…

Apetece-me não me apetecer
Apetece-me recordar
Apetece-me olhar o nada
Apetece-me pasmar…

Tudo ou nada, tanto faz
Tanto faz Outono, Inverno
Tanto faz viver, morrer…
Mas não! Dá trabalho apetecer!...


Manuela Barroso
in “Inquietudes”
lido por Teresa Gonçalves

quinta-feira, 24 de maio de 2012

COLINA


COLINA

És a colina que fica presa ao meu olhar feito de assombro.
Os teus olhos
feitos de rochas pregadas no chão
fixam os meus.
Os teus cabelos
feitos de urze e de giesta
são a carícia da minha face.
As tuas mãos
feitas de árvores
são a pele que percorro e que me acalma.
As grutas que te penetram
são os ouvidos dos meus segredos,
dos meus sorrisos.
A tua boca
rasga-se na encosta
que sorri nos regatos
que te cantam na espuma
e no borbulhar das nascentes.
E beijo a tua boca
quando me inclino para saborear a tua água
que rebenta num repuxo,
das entranhas da terra.
E escorre pelos meus lábios em fio,
pura e cristalina,
caindo em gotas no meu peito.
E sorrio por este beijo tão belo,
tão nosso!

A terra e o meu corpo.
A água e eu!
E o meu corpo deita-se
na terra quente,
repousando o meu eu
na flor rosada do rosmaninho.
O sol cai.
Caem os olhos da colina juntamente
com os meus.
Durmo de mãos dadas com a urze e a giesta.
Não há espaço
porque não há
limites.
Não existe tempo,
porque não tenho
todo o tempo!
Existe a música das cigarras no espaço
e que vai enfeitando o meu tempo,
deleitando e aquietando
a minha alma.
É aqui… onde tenho todo o tempo do tempo,
no tempo que me pertence!
O agora,
é o tempo que existe em mim!

Manuela Barroso
in “Inquietudes”
lido por Alzira Santos