quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O DISCURSO


O DISCURSO

Meus senhores,
Não tenho o dom da eloquência nem pretendo que me assistam de olhos voltados. Apenas gostaria que me dessem atenção. A minha gramática é parca, mas tenho a certeza que me perceberão.
Vós que carregais nos ombros o fardo ingrato de serem presidentes de grandes empresas, tendes também o fardo de terem nos ombros, o peso das mortes e o flagelo da miséria humana.
Como simples trabalhador, apenas sei manejar a enxada e colher as frutas e os legumes. Não sei manusear frases e nunca falei perante um auditório de gente importante.
Vós sóis ricos numa sociedade que preza o rico. Eu somente sou o pobre que trabalha na terra. Não tenho intenção dela sair, pois sei que ali é o meu posto.
Também não tenho o direito de vos tirar nada do que possuem. O que tenho chega para me manter vivo e atento.
Pediram-me em nomes dos outros trabalhadores que fizesse um discurso. Mas eu não sei fazer discursos, só falo o que me entende a mente.
Depois de falar sobre as nossas diferenças, só tenho algo a acrescentar:
Vós, senhores poderosos podem ser ricos. Podem ter grandes mansões e até fábricas de munições. Terão por certo os filhos e netos a estudarem em grandes colégios. Mas de uma coisa tenho a certeza. A vossa riqueza não se compara à minha pobreza. Porque eu tenho a terra e as mãos. Tenho o pão que amasso e os sonhos que são só meus. E por isso sou mais ricos que vós.
Perdoai-me senhores as minhas palavras, mas creiam que entres nós, a minha riqueza é muito maior que a vossa.
                                           Eduarda
in Blog’s “SOL”
                                    lido por Eduardo Roseira

MEMÓRIA DE ABRIL


MEMÓRIA DE ABRIL

Em Abril nasceram cravos
em sítios inverosímeis:
pelas íngremes calçadas,
no alcatrão das estradas
e nas longas avenidas!
Como se as próprias vidas
não nos coubessem no jeito,
lá fomos de cravo ao peito
pra saudar a liberdade!
Vermelho, cor da razão,
cada cravo um coração
e era o fim da opressão!

Cravos em sangue passando…
eram clamores intensos!
Um povo enfim libertado
dum já longo e triste fado!
Eram os mais belos hinos,
eram do povo os destinos!...
E assim, serenamente,
como se a alma ordenasse,
despertámos os sentidos.
Não fomos mais paus mandados.
Sem sangue nas mãos, só cravos…
deixamos de ser escravos.

Ganhamos a liberdade;
mas a fome, essa, voltou…
Ofuscou-nos tanto a luz
que descurámos a cruz!
Acabou-se o pé de meia
e a nossa grande epopeia
vai fenecendo no tempo…
Faltam Zecas, Adrianos,
falta a garra, falta a tropa
e abundam os burlistas,
pululam oportunistas
e torpes capitalistas!

Demos exemplos ao mundo
coa revolução dos cravos!
Povo de brandos costumes
e temperados ciúmes…
Embora de pouca sorte,
amamos pra além da morte,
como Pedro, como Inês!
Não foi conto, não foi lenda,
aconteceu na verdade;
em nós somente a loucura,
um trauma, uma amargura
nos põe a mente obscura.

Homens como Egas Moniz,
referência portuguesa,
parece ao mundo uma lenda,
arrastando a triste senda
da sua honra ultrajada,
vai de família empenhada,
ao rei de Espanha entregar-se
para pagar a promessa
á qual  o seu rei faltara.
Lusitano a corpo inteiro,
escorreito e verdadeiro,
foi meu orgulho primeiro.

Também Abril não é lenda,
é esperança, é promessa.
Estarmos aqui agora
é razão pra vida fora!
Não o deixemos morrer,
saibamos bem escolher
aqueles que nos governam,
porque o ideal de Abril
é do povo que trabalha,
é um mês que tem magia!
É o nosso eterno guia,
Abril é outro dia!

Maria de Lourdes Martins

GOSTO

GOSTO

Gosto de fresca poesia,
Salpicada de orvalho da manhã;
Que tenha suave melodia,
Qual canto de cotovia
E perfume de hortelã!

Um pirilampo vogando,
Como vela em alto mar;
Uma cigarra cantando
E um passeio ao luar…

As estrigadas do linho,
As vozes numa cantiga;
A prova do novo vinho,
Uma trança de rapariga…

Da mocidade, a beleza,
Do carolo do noivar;
Da graça da natureza,
No arco prá noiva passar…

GOSTO…

        Maria Irene Costa
       in “ Teia de afectos”

PORQUE OUSASTE APOSTATAR DEUS


PORQUE OUSASTE APOSTATAR DEUS

Porque ousaste apostatar Deus
Ó pais da inóspita geração!?
Quem foi que sabiamente soube urdir
Os traços da malfadada sedução?

Porque haveríeis de erigir assim
Toda a pertinácia em rebeldia
Porque transgrediste letalmente a lei divina
Sendo que uma só coisa se vos proibia?

A negação do paraíso etéreo
Longe do celso Deus que em vós vivia
Aguilhoou para sempre a humanidade
Impelindo-a para a férvida agonia…

Ó pais da potentada humana prole
Vosso arrojo não serviu à humanidade
Para buscar na rebeldia do engano
Novos caminhos erguidos em verdade…

                         Acilda

OUTONO; AVENIDA DA SERENIDADE!


OUTONO; AVENIDA DA SERENIDADE!

No prédio do tempo,
O ano tem um apartamento;
Um tê quatro
E nele o Outono um quarto,
Cuja janela dá para a Avenida da Serenidade
E nela vê folhas,
Feitas lágrimas, caindo no chão
Em melancólico e operático bailado
Com marcas do Verão passado!

O Outono,
À janela do seu quarto,
No apartamento do tempo,
Contempla a sua própria aguarela;
Crianças, jovens, e de meia-idade,
Passeiam, suavemente,
Na Avenida da Serenidade,
Até à chegada do Inverno
Que é quando o Outono recolhe sua aguarela
E fecha a janela,
Vendo,
Entre frestas das persianas,
O Inverno a varrer a Avenida da serenidade.

Quando possível, o Outono dá alegria à Avenida
Com um pouco de Verão, antes por si guardado,
Enquanto espera pela sua amiga Primavera!
Que lhe traga um ramo de rosas,
Para seu quarto ficar perfumado!

                          Silvino Figueiredo
         (figas de saint Pierre de lá-buraque)

OH TU, INTUITIVO SER!


OH TU, INTUITIVO SER!

Oh Tu!
Sim! Oh Tu!
Que intuitivo ser és,
Mesmo que disso,
Nem conta te dês,
Nem mesmo repares,
O quanto idealista és,
E o quanto desligado és.
Quanto, à sensibilidade,
Essa, sim, eu sei,
Teu mote é,
Teus dias guia,
Tal como um farol,
Que ilumina e guia,
Sim, eu sei!

Oh Tu!
Sim! Oh Tu!
Que intuitivo ser és,
Mesmo que pouco prático sejas,
Tantas e originais ideias,
Como bem, em ti proliferam,
Como mudanças no conceito global, geram,
Mesmo, quando com intangíveis assuntos, lidam,
Mesmo, quando afamados «clics»,
Os tais de difícil explicação,
Da tua alma se apoderam,
Devagar, devagarinho.
E, então,
Imaginação, asas ganhas,
Experimentalidade, aquela que tu adoras,
Desenvolves,
Tal e qual o teu original pensamento!
Afinal,
Um bom motivacional desafio,
Adoras lidar, fermentar, desenvolver,
Possibilidades,
Tu veneras!
Sim, eu sei!

Oh Tu!
Sim! Oh Tu!
Que intuitivo ser és,
Mesmo que não saibas,
A energia universal,
Aquela que em ti circula,
Está lá!
Sempre lá!
Mesmo que a abafes,
Mesmo que a cales.
Inteligente,
Forma de se manifestar,
Sempre, arranja!
Desenvolvida está!
Teu berço é!
Pensamento rápido demais,
Pular de assunto em assunto,
Uma constante se torna,
Conexões,
Velozmente,
Também, tu vês,
Fórmulas complexas,
Também, tu fazes e desenvolves.
Sim, eu sei!

Oh Tu!
Sim! Oh Tu!
Que intuitivo ser és,
Bastas, são as vezes,
Que em desvantagem,
Numa conversa,
Em negócios,
Tu ficas,
Dificuldade, no expressar tuas ideias,
Tu tens, sim, eu sei!
O medo bloqueia,
As dúvidas entorpecem o pensamento,
A rejeição dói,
E mais uma vez,
Tu sabes,
Que nem todas as pessoas
Paciência, para lidar contigo têm,
Não obstante, eu te digo,
Que, lindo, lindo ser, tu és,
Benquerença, em todos os teus poros está,
E é com assentimento,
Com verdade,
Que sinceramente te digo,
A uma só voz,
Aquela directamente da alma vinda,
Que em doçura EU TE AMO!

Cristina Maya Caetano

terça-feira, 25 de outubro de 2011

OUTUBRO


OUTUBRO

Outubro.
Já ouço o zunido do vento.
Corre as primeiras chuvas
nas costas do meu corpo.
Sinto nos pés a geada,
é o regresso do frio…
As andorinhas partiram…
Mas as gaivotas permanecem
em voo, rasgando marés
no rendado das ondas…
 Perduram nas matas
as despedidas das carrascas,
das estevas na sua cor azul-violeta,
e ficam os esqueletos das urzes.

Já apetece o arroz de cabidela.

É o regresso às marmeladas,
às compotas e aos doces de mel…

Outubro convida,
ao gozo da leitura,
no aconchego do sofá
ou rever um filme já esquecido…

Outubro.
É o regresso
aos trabalhos de mão,
ao silêncio e à calma.

      Fernanda Garcias

FOLHA DE OUTONO



Quase nada tenho já para viver
Quase tudo ficou ainda por fazer
Correram os anos e,num repente,
Foi-se a coragem de olhar a vida de frente

Tão curto foi o tempo de criança
Tão poucos os momentos de esperança
Crescem os filhos entre auroras de encanto
Foge-nos a luz dos olhos afogada em pranto

Sou agora, frágil e ressequida folha de outono
Que um vento de fim de tarde arrancou do trono
Recordação terna dos dias que lhe mudaram a cor
Promessa de primavera num afago de fugidio amor

A folha amarelecida, outrora verdejante,
É hoje avó feliz, carinhosa e tolerante
Pedindo à vida algum tempo, algum espaço
Para saborear o que resta na ternura dum abraço.

Lourdes dos Anjos
in ENTRE O GRANITO E A NEBLINA

O MEU CANTO


O MEU CANTO
            
Um lugar especial
Reservo para mim
Todo ele confidencial
Esse lugar Meu Jardim

Jardim essência da vida
Do sonho à realidade
O meu canto força vivida
Num hino à vida e à saudade.

Num sussurrar ouve-se o vento
O meu canto fica audível
Prelúdio desse momento
Sublime inatingível.

O meu canto me acalma
Recanto minha aventura
No canto se eleva a alma
Sensível imaculada e pura

Te canto ó meu país
O meu canto tem amor
No meu canto sou feliz
O meu canto é louvor

                  João Pessanha
12/09/11

SONHOS

SONHOS

Dei com os meus sonhos espalhados pelo chão,
A alma em pedaços ainda a resistir
Soluçava de dor meu coração
E a boca rasgada ainda a rir.

Finjo que estou sempre contente
Vivendo de sonhos e recordações
Que povoam a minha mente
E me trazem cheia de ilusões.

Não é possível sem sonhos viver,
Sem mergulharmos no abismo dos seus apelos,
Sem sentirmos a sua vontade o seu querer
Mesmo, quando já são brancos os cabelos.

O sonho não tem fronteiras nem idade,
Chega e está sempre de partida
Deixando em nós o sonho, uma saudade
Do sonho que nos traz preso à vida.

Leonor Reis
in “Poemas feitos de saudade”
Porto 2004

Não sei quantas almas tenho


Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.

               Fernando Pessoa
                      Lido por Ana Maria

ENERGIA E ÉTICA


ENERGIA E ÉTICA

Sei isto: a minha energia está canalizada
Para a palavra fazer, gosto da ideia de construção
E o que dela existe nos movimentos normais.
Agrada-me a palavra engenharia e o que ela
Representa: não saias de um sítio sem deixares algo
Atrás de ti. Dirijo-me apenas às coisas que me excitam
Positivamente e me levam a fazer outras coisas, dirijo-me
Às pessoas que gosto, nunca às que não gosto;
Sempre me pareceu insensato que na vida se pare,
Nem que por um momento, de admirar, há
Sempre actos e coisas que nos ajudam
neste cálculo infernal da distância entre o dia de hoje
e a nossa morte. E qualquer pessoa dar um passo que seja
em direcção ao que não aprecia, para insultar, ou derrubar,
parece-me brutal perda de tempo, uma falha grave
no órgão de admirar o mundo
(deves combater uma ou duas vezes na vida,
se combateres duzentas vezes
é porque os combates são fracos).
Não sei pois como viver. O que li e vi
Serve-me apenas para ser mais lúcido, não
Para ser melhor pessoa. Adquiri esta regra (ou nasci com ela):
          - e é talvez uma moral –
mover-me apenas em direcção ao que gosto.
Se o prédio alto, escuro, feio
me impede de ver o sol, não fico a insultá-lo, não
moverei um dedo para o deitar abaixo:
contorno sim os edifícios necessários
até chegar ao espaço de onde possa receber aquilo que
quero. Se chegar lá de noite, montarei acampamento.

                                     Ana Pamplona
                              in “Diga trinta e três –
os poetas das quintas de leitura”

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

REQUIEM


REQUIEM

Este poder oculto, que adivinho,
E que em mim próprio julgo possuir,
Dá-me a visão de um mundo tão mesquinho,
Que, em vez de entristecer-me, faz-me rir.

Parado, sem vontade de seguir,
Ao contemplar o lixo p’lo caminho,
Imagino os vindouros a cair
Como avezinha implume cai do ninho…

Quer  na pornografia, quer na droga,
Tão enganada vai a Juventude,
Que, num só dia, toda a vida afoga.

Num desgaste precoce assim se ilude,
Levando a Natureza pela soga,
A tão breve Futuro: Um ataúde!

Manoel do Marco

RENASCER ABRIL


RENASCER ABRIL

Era Abril, Abril, Abril em Portugal!
E o meu País tornou-se universal!
Quebraram-se as correntes das prisões
e ergueram-se bem altas as
razões que jaziam no tempo aniquiladas!
As almas que viviam amordaçadas
libertaram-se das garras do algoz
e, orgulhosamente, não mais ficámos sós!

Foi dupla primavera a ressurgir!
milhares de cravos rubros a florir
depois de longa e triste letargia…
nas nossas mãos trementes de alegria
segurámos inteira a liberdade!
E gozámos até à insanidade
essa coisa tão doce, para nós remota,
como era para um cão, preso à casota!

Entoava-se “Grândola Vila Morena”…
E cresceu a terra que era pequena…
Foi árvore que gerou densa raiz,
e espalhou-se em força no País!
Era o sinal mais caro, mais premente,
como a dar a luz ao cego indigente!
E o Zeca cantava a toda a hora
a expandir-se pela Europa fora!

Hoje o verde pinho arde na serra;
findou o pacto do povo cá na terra
com a pujança fantástica da tropa,
que ajudou a levar-nos prá Europa;
ergueram pontes, estradas, esperança…
mas foi-se o elo dessa aliança
e o ideal maior do nosso Abril
vai fenecendo sob o céu de anil!

Olhando além o voo das gaivotas
que pairam sobre as nuvens ignotas,
eu quedo-me inquieta a cismar:
Se nós outrora vencemos tanto mar…
que essa mesma coragem se repita!
Tem fome nossa pátria, necessita
de novo Abril, morra a corrupção!
Vamos banir esse cancro da nação!

Tomemos pela mão a lusa sorte
buscando novamente o velho norte!
Se a ganância que impera é voraz
o povo quando unido é eficaz!
Para que Portugal se robusteça,
sejamos donos de tudo que aconteça!
Há sempre primavera após Inverno,
assim Abril renasça e seja eterno!
         
Maria de Lourdes Martins

Este poema, imaginem-no


Este poema, imaginem-no
com uma letra, somente
e imaginem que ele sente
o que sente , imensa gente
++++++++++++++++++++
Sente o fulgor da paixão
como o comum dos mortais
o estertor da solidão
e outras dores ,como as demais.
++++++++++++++++++++++
Sente a vida, às vezes presa
simplesmente por um fio
entre a duvida e a certeza
a ternura e o desvario.
+++++++++++++++++++
Este poema de facto
com uma letra somente
torna-se o auto retrato
do viver de muita gente.

KIM BERLUSA

REDAÇÃO

REDAÇÃO
“Não acorde o menino”
Drummond, no poema Infância.
          Para Carlos Drummond de Andrade, com respeito.

minha mãe tinha ternuras antigas nos lábios
meu pai ensinava matemática
eu nunca aprendi a prova dos nove

mas na esquina da minha rua
que se chamava antônio bento
o bonde fazia seu ponto final
o motorneiro se chamava manolo
usava boné na cabeça - no pé não podia usar

ele era espanhol e falava em política com meu avô
que era português
eu que não sabia política
apenas sonhava…

um dia tiraram os bondes da minha rua
manolo foi embora
carregando franco nas costas
e eu me apaixonei por thais
um dia ela também foi embora
me trocou por menino bonito
meu avô português morreu debaixo de um caminhão
eu vi
e por thais e por meu avô
na falta de coisa mais importante
virei poeta
                        Júlio Saraiva
São Paulo, Brasil
lido por Eduardo Roseira

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

PINTANDO…

Cristina Maya Caetano
PINTANDO… 

Sinto! Vejo! Um olhar puro, translúcido…
Uma alma livre, solta, leve…
Olho à minha volto e…
Vejo! Sinto!
Docemente…
Tudo, nos devidos lugares surge,
Significados e cores,
Próprias e adequadas surgem!
E brincam, brincam…

Tal como a minha mão…
Um singelo pincel…
Inúmeras gotas de tinta….
Uma branca tela….
Todos, à minha imaginação unidos,
Todos, à minha criatividade reunidos,
E, imagens, surgem e surgem…

Tal como o meu secreto mundo,
A minha intima pintura,
Assim ao exterior revelado,
Onde apenas, o prazer importa!
Aquele, que o acto de criar comanda!
Aquele, que amor e paz englobadas,
Ganham voz e triunfam!
Tal como o meu secreto mundo,
Aquele, que como ser
Integrante e participante
Nesta imensa humanidade…
Sinto! Vejo!
Vejo! Sinto!
A minha visão!
A minha vida!

Cristina Maya Caetano

ENTRE A SERRA E O CÉU


ENTRE A SERRA E O CÉU

Fica o bailado das borboletas
em seus maneios plácidos e quentes…
O recordar a sós o gosto dos teus beijos
num madrigal de cheiros e cores.
Ente a serra e o céu
fica teu sorriso calmo em barba cor de ébano
e o tropel aflito da tua ausência, Aviador.
Entre a serra e o céu
fica nas águas do Reno, o Morfeu
contrabandista de noites de insónia
e as ancas parideiras do nosso amor.
Entre a serra e o céu
fica o recolher das chapadas fortes do vento
na ebulição da abertura das vogais
nas palavras ainda não ditas,
dum matrimónio e juventude mal vividos…
Entre a serra e o céu
fica o trincar de cerejas em teus lábios,
na frieza das castanhas outonais e
o desejo dum envelhecer sonhado,
entre a escrita e o amor…

Fernanda Garcias
2011

A UMA SIBILA

A UMA SIBILA

Fala-me do teu oráculo, ó Sibila
E diz-me seguramente que no futuro
Não haverá almas acorrentadas
Nem homens derrubados sob o peso do jugo
Nem vozes silenciadas no não ser…

Diz-me que não haverá quem cale para não dizer
Que não haverá fachos erguidos na noite escura
Que nos guiam para onde não deve ser…

Diz-me que a claridade não cobrirá o seu nascer
Que o sol se erguerá em cada fresta
Que o dia será dia em qualquer dia
Que não haverá homens esfaimados de viver.

Diz-me, ó Sibila que a luz será eterna
Que não será ofuscado o brilho do luar
Que não haverá ideias moribundas
Acenando no seu duro agonizar.
        Acilda

NATUREZA MORTA


NATUREZA MORTA

- Onde bebem os pardais?

Na terra tão ressequida
Já não desponta a vida.
A semente não germina
E a desolação predomina
Nos campos e nos pinhais!

Um pardal eu vi pousar
Numa folha a debicar,
Mas nem o orvalho da manhã
Que é precioso talismã,
O seu bico vi molhar.
Mesmo uma ervinha verde
Já vai murchando com sede!
Do céu, nem uma gota cai
E julgo que ouvi um ai,
Do coração da terra-mãe!

A árvore luxuriante
É já estrela cadente,
Que o incêndio devastou!
A chispa que deflagrou,
A labareda enlouquecida,
Destruiu toda a vida
E tudo em cinza tornou!

O braseiro assustador,
A tragédia e o clamor,
Os pobres seres violados,
Pelo fumo encurralados,
Agora jazem calcinados.

- Onde bebem os pardais?
                 Maria Irene Costa
        in “ Teia de afectos”