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sábado, 28 de agosto de 2010

FESTA NA ALDEIA de Aurora Simões de Matos

Manuel Gómez "Arce"
in: http://salaodaprimaverade2011.blogspot.com


FESTA NA ALDEIA

de Aurora Simões de Matos

Estralejam foguetes, vai a missa a meio,
“já estão os Santos”, dobra a devoção.
A capela é ovo, o adro está cheio;
Unidos em prece nesta comunhão,
Esquecem-se canseiras, distâncias vencidas,
Busca-se alimento para as nossas vidas.

De manhã bem cedo, a aldeia acordou,
ao som de morteiros que estoiram no ar;
os músicos chegam, a festa começou.
Aqueceu-se o forno, pôs-se a carne a assar,
cheiro apetitoso invade os caminhos,
repartem-se mimos pelos pobrezinhos.

Junta-se a família, chamam-se os amigos,
matam-se saudades, do longe se faz perto;
provam-se os petiscos com sabores antigos,
cada lar é hoje mais que um céu aberto.
São horas da missa, ninguém quer faltar,
fatiota nova, vai-se comungar.

E no fim da missa é a Procissão
com andores floridos até ao Cruzeiro.
Lá vão os Santinhos, nossa devoção,
parece que aos ombros vai o mundo inteiro…
Elevam-se preces que sobem ao céu,
nosso padroeiro é São Bartolomeu.

Vai gente descalça pisando a calçada,
cumprindo promessas, lembrando aflições.
Os anjinhos de asas e os da Cruzada
marcham bem certinhos ao som de orações!
Os músicos tocam com solenidade
e Padre João transborda bondade.

Pela tarde adiante, pela noite fora,
a festa continua no adro e na estrada.
Cantares e dançares, pedaços de outrora,
alternam com ritmos para a rapaziada.
Bebe-se uma pinga, compra-se pão-leve
No leilão das prendas que o Santo teve.

É assim a festa de S. Bartolomeu,
Para quem deu esmola… e para quem não deu.

Aurora Simões de Matos,
Imagens da Beira-Paiva

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O AMOLADOR de Aurora Simões de Matos por Miguel Leitão




O AMOLADOR

“A... mola navalhas e tesourinhas
Com... põe panelas e alguidares
Arran…ja guarda-chuvas e sombrinhas!...”

Num dia qualquer, bem cedo,
chegava ao Cimo do Povo
o fiel amolador
com seu carrinho de mão
mais o vibrante pregão
que, voando pela aldeia,
anunciava a chegada,
por todos mais que esperada,
que haveria de compor
a já furada candeia
e o velho borrifador.

Tinha a voz inconfundível
com mistura de assobios
feitos de dedos esguios
e a tirada musical
duma gaita especial
soprada bem à maneira
de quem queria ser diferente
no meio da outra gente
e que fazia os delírios
da atrevida criançada
que, à roda dele, se juntava
em algazarra animada.

Mas já chegavam, correndo,
tomando a vez dianteira,
as mulheres atarefadas
por vidas/todas canseira,
com as peças mais variadas
que se possa imaginar:
almotrigas e candeias,

tachos, panelas de folha
e panelas esmaltadas
já velhas, todas furadas
que, depois de muitos pingos
haveriam de durar
por mais uma temporada
pratos partidos em dois
à espera dos agrafos,
pontos com arte bordados
nas caçoilas de Molelos,
assadeiras e alguidares
todos de barro vidrados;
as facas e as tesoiras,
navalhas e canivetes,
tudo, enfim, o que tivesse
perdido o fio e fizesse
falta ao bom do lavrador
e às lides da mulher
na cozinha ou na costura,
trabalhando a vida dura;
guarda-chuvas desvirados,
varetas todas partidas,
sombrinhas desarranjadas,
tudo ficava perfeito
depois de, com muito jeito,
ao seu carrinho apoiado,
de roda sempre a girar,
as mãos do amolador
emprestarem seu valor
à aldeia onde ficava
ao serviço daquele povo
duas semanas a fio
e onde, com muito brio,
punha tudo como novo.
Só depois, nómada errente,
lá seguia sua vida
por outra aldeia... e então
num outro Cimo do Povo
soltava o pregão de novo:

“A... mola navalhas e tesourinhas…
Com... põe panelas e alguidares...
Arran... ja guarda-chuvas e sombrinhas!... ”


Aurora Simões de Matos,
Imagens da Beira-Paiva