sexta-feira, 30 de setembro de 2011

QUEM SOU


QUEM SOU

Sou andarilho.
Filha das entranhas da Terra.
Meu pai é o tempo,
a chuva me dá alento e
aqueço as entranhas
 na praia deserta.

Já tropecei e caí,
forte e hirta me ergui,
em pedra dura me transformei.
Sou montanha rochosa, cor de ocre
onde ressoam os ecos cinzentos do Silencio.

De verde me vesti e
de árvores a paisagem florestei.
Desci pelas vertentes…
… nas planícies estendo meus cabelos…

Minhas camas são as searas
onde me deito e amareleço.


Sou milho, trigo,
colhido e moído.
Sou o pão de todas as mesas,
” Hóstia Sagrada”.

Canto e assobio com os pássaros.
Choro amarguras com o vento agreste.
Quando subo nas nuvens
abraço os “Anjos” e
beijo o rosto a “Deus”.

Tenho os pés carcomidos
de tanto percorrer
terra, areia, penhasco e rochedo.

Nada me mete medo.

Delicio meus pés nos ribeiros
que percorrem meu corpo e
refresco-me nas águas do Oceano.

Enfeito-me de giestas,
de margaridas brancas e amarelas
e quando enfureço
me pinto de rubras papoilas
e distribuo alegria.

O Sol da vida em mim crepita,
braseiro que te aquece,
à noite a escuridão me arrefece.

Sou vagabunda na sombra,
tenho o luar por companhia e
no seu leito níveo, sonhos azuis.

Em segredo sou amante do mar,
entrego-me, deleito e vivo…
… de manhã volto  a nascer…        

 Fernanda Garcias

AMOR É AMOR


AMOR É AMOR 

Amor é amor.
Actividade emocional,
Aromática fragrância,
Essência romântica,
 Amor é amor!

Quem ama,
Partilha,
Incluindo o tempo,
Esse, tal…
Hoje em dia,
Regateado tão,
Nesta era de mutações súbitas,
Onde, mudança,
Palavra de ordem,
Em Amor se converte,
Sim, amor, mudança é!

Quem ama,
A dor alheia avalia,
Bem alivia-la tenta,
Alegria desenvolve,
Ao serviço do bem-estar,
Sempre,
Ao serviço do sucesso,
Dos outros,
Em auxílio, bem comutado,
Sem nada em troca esperar,
Sim, amor, compaixão é!

Quem ama,
Antídoto do ódio e do rancor,
Da intolerância e da inveja,
Rapidamente se altera,
Em calma,
Em seriedade transformado,
Em tudo de bom modificado,
Sim, amor, tudo de benéfico é!

Quem ama,
Apenas para sentido ser,
Sem misturadas palavras,
Seja na simples contemplação de um rosto,
Nele, o rosto de todas as criaturas,
Se vê,
Se observa,
E rapidamente,
Um em todos transmudado,
De todas as cores alterado,
Na alegria e união,
Do Amor, vida é!
Sim, amor é amor!
Sem dúvidas ou questões,
Simplesmente, amor é!

Cristina Maya Caetano

SONHOS DE AMOR


SONHOS DE AMOR

Trago os sonhos presos num navio,
ancorado ao cais do pensamento;
É um prazer senti-los em cada estio,
Na força da alegria, meu doce alento.

Nesses sonhos descubro a razão,
de ser e existir longe da dor;
sinto os compassos suaves do coração,
o carinho presente num grande amor.

Essa face que me olha e que sorri,
entrega-me a arte de amar;
È como o canto alegre do colibri,
que sente a natureza despertar.

De sonho em sonho, sigo esta vida,
Preso às raízes da minha cidade.
Essa jóia em granito esculpida,
Que é fruto da minha ansiedade.

Jorge Vieira

MÃE


Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembras-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.
 

Maria do Rosário Pedreira de O Canto do Vento nos Ciprestes
in “Diga Trinta e três”, os poetas das quintas de leitura
declamado por Celestina Silva

CHEGAR DEPRESSA


CHEGAR DEPRESSA

Quero chegar depressa
à magnitude do somente
onde o eco dum sussurro
se espuma docemente.

Quero chegar depressa
aos lampadários da madrugada
onde tudo se resolve
num posfácio feito nada.

Quero chegar depressa
ao vigor, inquietante
onde o tempo se enleia
na fractura do instante.

Quero chegar depressa
à magnitude do somente
antes que o sonho adormeça
num sono, epicamente indigente.

Kim Berlusa

PALETA DE CORES


PALETA DE CORES

Paleta de cores primárias,
Que o pintor eleva ao expoente.
Infinidade de cores.
Mulheres de todas as raças.

Belezas, únicas...
Fazendo da tela, uma paisagem
Intemporal.
Difícil de deslumbrar.

Difícil de ser apagada.
Apenas pela Natureza "mãe",
Ou pelo pintor.
Que no fim, a assinou.

Concluída a obra,
Imperfeita, por ser Homem.
Recomeça a pintar noutra tela,
Mais bela, que as outras de outrora.

Ana Soares
21 Agosto 2011

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

POEMA DE UM TEMPO INACABADO


POEMA DE UM TEMPO INACABADO
NOITES de AMOR e POESIA


Quem poderá extinguir a luz que assim me acende
e ser mais que este braço diferente
brilhando de cor a cada instante
nos reflexos distintos do rio
a segredar falas de amante?

Quem poderá ser esta alegria
mais doce e ignorante da maldade
que parece impossível ser verdade
uma noite, ainda ontem, triste e fria?

Quem pode competir comigo, Nesta força da vida em que me vivo
Fazendo reviver o grão destino, Destinado a ficar pelo que digo?

Quem pode nas sombras alargar, Maior espaço no mundo que me toca, E ser mais que o sol e que o mar? Ninguém sabe o melhor em que me cinjo, Que labareda em meu contorno arde, Nem percebe a grandeza desta noite, Mais bela que um montão de coisas belas, Milagre que anoitece numa tarde ...

Ano 1959
Fernando Morais

O MEU TESTAMENTO


O MEU TESTAMENTO   

Resisti
ao que ergue uma casinha
                e diz: estou aqui bem.
Resisti ao que volta para casa
                e diz: Deus seja louvado.
Resisti
ao tapete persa das casas, aos andares
ao homenzinho do escritório
à firma de importação-exportação
à educação do Estado
ao imposto
e até a mim que vos narro.

Resisti
ao que saúda da tribuna, horas
                sem fim, aos desfiles
à beata que reparte
imagens de santos incenso e mirra
e até a mim que vos narro.

Resisti ainda a todos aqueles a quem chamam grandes
ao presidente do Supremo, resisti
às públicas música, às paradas
a todos os congressos que falabaratam
bebem cafés, congressistas, conselheiros
a todos os que escrevem arrazoados sobre a época
ao borralho do Inverno
aos votos de adulação, às imensas vénias
aos escribas servis para os seus sábios chefes.
Resisti aos serviços de estrangeiros e passaportes
às horríveis bandeiras dos Estados e à diplomacia
às fábricas de material de guerra
aos que chamam lirismo às palavras bonitas, aos cantos marciais
às canções delicodoces com os prantos
à assistência
ao vento
a todos os indiferentes e aos sábios
aos demais que fazem de vossos amigos
e até a mim, mesmo a mim que vos narro
                   resisti.
Poderemos então talvez seguros seguir para a
                   Liberdade

PS
           
O meu testamento antes de ser lido
 – como foi lido -
era um quente cavalo inteiro.
Antes de ser lido
não os herdeiros que esperavam
mas uns usurpadores pisaram o campo.

O meu testamento para ti e para os
anos foi atafulhado nos armários do tempo
por escribas, manhosos, notários.

Mudaram frases importantes
dobrados sobre ele temerosos durante horas
desapareceram as partes com os rios
o novo rumor nos bosques
o vento mataram-no -
percebi por fim o que perdi
            quem é que afoga.

E tu portanto
ergues-te assim mudo com tantas observações
sobre a voz
sobre o alimento
sobre o cavalo
sobre a casa
ficas desesperadamente mudo como morto:

Estropiada liberdade voltam a prometer-te.

Mikhális Katsarós — Grécia (1919 — 1988)
Poeta marcado pela tragédia da ocupação alemã e pela guerra civil que se lhe seguiu.
Este poema "O meu testamento" foi publicado pela primeira vez numa revista de esquerda, tendo sido censurado pela direcção da mesma (para evitar problemas com a censura). Daí o "post scriptum" amargo que o poeta escreveu e causou profunda impressão na sua geração.
               
 lido por Eduardo Roseira

PORTO, CORAÇÃO DE REI


PORTO, CORAÇÃO DE REI

Um rei deu seu coração
A este povo tripeiro
Para dizer que o amor
No Porto, é mais verdadeiro

O Porto é verde e cinzento
E o seu povo não se cansa
De mostrar aos do poder
Que cinza é luta e esperança

Antes quebrar que torcer
É o lema que o Porto tem
Aqui a palavra medo
Não mete medo a ninguém

Somos alma que se vê
Temos vida que se sente
Somos humildes mas damos
Pão e Paz a toda a gente
                       LOURDES DOS ANJOS
in “Etc e tal Jornal”

SETEMBRO


SETEMBRO

Sai o Verão entra o Outono
As árvores vão-se despindo
Dão lugar ao abandono
Paisagem bela saindo

Por vezes dá ilusão
Dum Setembro lindo belo
No real a frustração
Desfez-se lindo castelo.

Castelo minha saudade
Do Setembro que vivi
Sem pensar na minha idade
Mas sempre a pensar em ti.

Setembro tu és canção
És saudade sentimento
Súbdito da ilusão
Verdade do próprio tempo.

. O teu reinado começa
Despedes assim o Verão
O Outono prevaleça
Sem haver destruição.

Mês das castanhas assadas
Vinho doce figos jeropiga
Das serenatas cantadas
Milho louro bela espiga.

                         João Pessanha
                        
03/09/2011

CARTA PARA O CÉU


CARTA PARA O CÉU
(dedicado a Cássio Mello)

Meu caro Cássio.
O endereço que o Pai nos deixou
Todos sabemos que te vai encontrar.
É a morada perpétua.
A ti, caro Cássio, dizemos-te que vais gostar dele.
É um homem singular;
Na alegria de viver e de comunicação simples,
Fazia da beleza a vida.
Por isso mereceu passar à outra,
Transparente, brilhante e simbólica.
Peço-te que o aceites, como nós o vimos aqui;
Olhando o Céu enquanto pisava no caminho
Crisântemos para dar expressão à dor da despedida.
Quando acontecer… fatalidade;
Guarda-nos o lugar junto do nosso Pai.
Queremos estar juntos de novo.
Não pela amizade que nos transmitia,
Tão pouco só pela alegria,
Mas por tudo de bom que possuía.
Possuía tanto, que ficámos contaminados.
Por isso merecemos o nosso pedido.
Dai-nos lugar junto dele
Quando for a vez da eternidade.

Luís Pedro Viana

HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM


HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neil
lido por Sofia Santos

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

IMPORTÂNCIA DE UM BANCO DE JARDIM


IMPORTÂNCIA DE UM BANCO DE JARDIM

Pacientemente, o banco de jardim
esperou. Chegou então cambaleante
um jovem triste, com um rosto de marfim;
e o banco dilatou-se expectante.

Lentamente o jovem olhou para mim;
desenhou no rosto um esgar distante...
Deitou-se nas estrias e, dormiu enfim,
entregando-se à droga confiante.

Adormeceu num prenúncio de morte!
Abdicou da vida, nada dela queria...
nem riquezas, nem amor, nem sequer sorte!

São coisas deste mundo, triste, confuso...
Aquele banco tornou-se companhia,
ninando o jovem no seu dormir difuso!...

                               Maria de Lourdes Martins

GAZETILHA

GAZETILHA

Neste mundo em louca festa,
Tão drogado e corrompido,
Perco o tempo que me resta,
Chorando o tempo perdido.

Já não há verdes caminhos,
Retalharam os penedos...
- Vejo os dias mais sombrios,
Com sobressaltos e medos.

Um jardim fadado eterno,
Feito colónia, afinal...
- Portugal é hoje Inferno,
E Sodoma a capital!

Na CEE, Portugal,
É só mão d' obra, e barata...
- Ser parolo não faz mal
Desde que se use gravata!

Pinto Cardoso

ALELUIA!


ALELUIA!

Dia de Páscoa
Na minha aldeia!
Ao dar as doze badaladas,
No sino da Igreja,
Os jovens precipitam-se
Para as capelas dos povoados,
Tocando as sinetas,
Até ficarem cansados!

Nas suas camas,
As gentes rezam
Uma oração,
Numa alegria
De Ressurreição!
Estrondeiam foguetes!
E as almas singelas
Erguem as mãos
Em fervorosas preces!

Todo o dia de povo em povo,
As cruzes visitam os lares
Levando a bênção
A todos os lugares!

A campainha emudece as aves,
Que aguardam a calma
Do entardecer!
Desfolham-se camélias vermelhas,
Pelos caminhos, pelas escadas,
Que o “Senhor” há-de pisar.
Correndo e rindo,
A pequenada,
Nesse dia,
É a passarada!

Enfeitam-se as mesas…
As famílias correm
A beijar o “Senhor”!
E esse dia,
É um dia de amor!

Num pratinho, escondido,
Sob pano de renda,
Descansa o folar,
Que ao Senhor Abade,
Se dará de prenda!

Ao deitar, coração em festa,
Agradecem ao Crucificado,
Por tanta alegria,
Que lhes tem dado!

Maria Irene Costa
in "Teia de Afectos"

O CÉREBRO DE UMA CADELA


O CÉREBRO DE UMA CADELA

Apenas porque a minha cadela salta para beijar-te,
disse ela, de cada vez que entras em casa,
não significa que ela saiba o que está a fazer.
Provavelmente, ela aprendeu isso comigo, viu-me
a beijar-te, & pensa que essa é a coisa certa
para fazer, mas ela viu-me a fazê-lo antes de eu saber
que eras um idiota, & ela não consegue distinguir.

Hal Sirowitz
Lido por Ana Pamplona

GRITEI, ALCEI A VOZ


GRITEI, ALCEI A VOZ

Gritei, alcei a voz
E ergui infindos vendavais
Que soturnos e infaustos
Erguiam suas rubras asas
Seus troféus maculados
Sobre o esquálido despovoado
Sobre a inextinta aridez humana

Gritei alçando a voz
Mas era o silêncio
Intocado, inerte, inexausto
Que implacável me olhava
Na sua fixidez
Na sua impenetrável virilidade
Na sua inviolável rigidez…

E eu gritei alçando minha voz
Mas de tudo ficava apenas
Um eco que soletrava
Esmaiado em sua dilacerante mudez
Um eco que se esbatia
Contra o branco umbroso, contra fenestras
E contra tanta robustez

Acilda

QUASE


QUASE

Um pouco mais de sol – eu era brasa.
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
Ai a dor de ser-quase, dor sem fim….
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos de alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E, mãos de herói, sem fé, acorbardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

........................................................
........................................................
Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
                                  
Mário de Sá Carneiro
lido por Alzira Santos

A PRIMEIRA IDEIA


A PRIMEIRA IDEIA

            Aquela, que é sempre a mais verdadeira!
            Que do primeiro pensamento advém,
Solta, fluida, rejubilante,
Certamente, que da intuição directamente vem!
           
Vozinha, sempre presente, é.
Das entranhas de cada ser, vem.
            Nos íntimos botões se transforma,
E o EU SUPERIOR,
O tal invisível amigo,
Em anjinho-da-guarda transformado,
Sempre transporta!
Sempre!
Ouçam! Ouçam!
Atentamente!
Directamente, do coração vinda!

Ai como aquela primeira coceirazinha,
Razão sempre tem,
Se atentos estivermos,
E assim compreendermos.
Centrada em si mesma,
Sem influencias externas,
Cresce, cresce,
E,....
Harmoniosamente floresce!
Sentidos,
Desperta e alerta,
E intuir, numa forma de viver se transmuta,
Compactada, com a verdadeira essência,
Aquela, que cada qual transporta,
Mesmo que inconscientemente,
Mesmo que conscientemente,
Sempre! Sempre!

Oh exactos e preciosos componentes do Universo!
Saborear mais,
Possível se torna,
Mais e mais,
Alegria incorporar, se volta,
Pausadamente,
Tal e qual a primeira ideia,
            Aquela, que é sempre a mais verdadeira!
            Que do primeiro pensamento advém,
Solta, fluida, rejubilante,
Que certamente, da intuição, directamente vem!

Cristina Maya Caetano

PORTO


PORTO

Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e
Invicta,
Cidade do Porto.

El Dorado Português.

Meu Porto dos pregões e do Fado vadio,
do trinado da guitarra do Carlos Andrade,
das gentes de trabalho sem medo nem frio,
mas de garra para amar e erguer a Cidade.

Rio Douro é do país a veia jugular;
Em ti corre o vinho, o nosso sangue,
que dá vida e nobreza a Portugal;

E o Rio Douro corre calmo defronte a Massarelos,
 a Foz enfeita-se ao vê-lo chegar,
com vasos de cravos vermelhos e amarelos
e varandas de roupa colorida, acenar.

Meu Porto Histórico, S. Nicolau e Miragaia,
das casinhas coloridas amontoadas em cascata, 
Porto que da janela da velha Sé, sob o luar,
namoras a menina Gaia, à socapa…
Igreja de S. Francisco e Palácio da Bolsa,
que sobranceiros à Ribeira, sois mirante,
vedes as Caves do Vinho do Douro, o nosso Porto
e a Casa de D. Henrique, o Nosso Infante.

Oh Ribeira das arcadas góticas,
dos passeios dos rabelos entre pontes,…
das tripas e pataniscas da Rosinha
e da juventude em convívio, aos montes.

Meu Porto das gaivotas à beira rio a voar…
Do Clube das Avós e Púcaros Bar, …

Fernanda Garcias
2011 / 03 / 23

SETEMBRO, OUTRA VEZ!



SETEMBRO, OUTRA VEZ!

Este mês é Setembro, outra vez!
D'outros Setembros já não me lembro,
Mas, a este Setembro chegado
Estou eu, nele embarcado,
Neste navio do tempo, sem dono,
Mas com rumo ao seu destino;
Caminho do Outono,
Navegando
E pirateando a beleza dos verdes,
Os castanhos, os dourados
E, ao porto do destino chegado,
Depois de recolhido o viço do Verão,
Descarrega a melancolia da Natureza,
Despida,
E tudo fica no chão!
 
A Natureza prepara-se para a letargia do sono, E cobre-se com o manto branco
do Inverno, Até nova Primavera renascida; Nova vida em pleno!
 
Ao cais do tempo chega sempre o barco de Setembro, Neste estou embarcado, de
outros não me lembro, Mas, todos os meses me trouxeram até aqui, Porém, não
sei qual deles me leva, Estou no cais, à espera!

..............................xxxxxxxxxxx..........................................
Autor: Silvino Taveira Machado Figueiredo
(o figas de saint pierre de lá-buraque) Gondomar
declamado por Maria Lourdes dos Anjos

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

acordo. abro os olhos


acordo. abro os olhos
entram pássaros dançarinos
pela janela do meu quarto
enchendo-o de poesia.

sinto a poesia a abrir os lençóis,
a beijar-me o rosto, a vestir-me a alma.

outro canto alegre e livre corta o silêncio
no palco do arvoredo
numa melodia de sonho e aventura
saudando docemente o meu despertar
com o anil do céu e o brilho do sol

escuto a poesia na terna melodia do rouxinol
música da Natureza que faz nascer em mim
o desejo impossível de um pássaro ser
para aprender a sua poesia
no canto da melodia

já que asas não tenho para o acompanhar!

Teresa Gonçalves
in "Pleno Verbo"

MELANCOLIA


MELANCOLIA

Não posso ver os ramos do pinheiro
a oscilar, nostálgicos, ao vento…
É um adeus, aquele, o derradeiro,
que me veste de luto o pensamento.

E comove-me a chuva persistente,
batendo em gotas lentas na vidraça;
ao ver que tudo chora amargamente,
eu já sinto no ar uma desgraça.

Inquietam-me as ondas altaneiras
que se agitam, intensas, sobre o mar!
Lembram a raiva, as horas traiçoeiras,
a vaga da revolta a reclamar!

Mas como adoro o sol! Vê-lo nascer,
igual ao despontar de uma esperança,
como o desejo enorme de viver,
ouvindo o puro riso da criança!

Amo as águas, os rios, os lagos,
como se fossem o sangue destas veias!
São poemas cantantes, murmurados,
é poesia em vales e aldeias!

De tudo que este olhar tem visto
amo a terra! Às vezes abomino!...
Se, por consequência, nela existo,
inexoravelmente nela termino!

Maria de Lourdes Martins
in "Castelo de Legos"