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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A LÁGRIMA

Aristides Meneses


A LÁGRIMA

Manhã de Junho ardente. Uma encosta escalvada,
Seca, deserta e nua, à beira de uma estrada.
Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha,
Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha.
Sobre uma folha hostil de uma figueira-brava,
Mendiga que se nutre a pedregulho e lava,
A aurora desprendeu, compassiva e divina,
Uma lágrima etérea, enorme e cristalina.
Lágrima tão ideal, tão límpida que, ao vê-la,
De perto era um diamante e de longe uma estrela.

Passa um rei com seu cortejo de espavento,
Elmos, lanças, clarins, trinta pendões ao vento.

- No meu diadema, disse o rei, quedando o olhar,
Há safiras sem conta e brilhantes sem par,
Há rubis orientais, sangrentos e doirados,
Como beijos de amor a arder, cristalizados.
Há pérolas que são gotas de água imensa,
Que a Lua chora e verte e o mar gela e condensa.
Pois brilhantes, rubis e pérolas de Ofir
Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir
Nesta coroa orgulhosa, olímpica, suprema,
Vendo o globo a meus pés do alto do teu diadema!

           E a lágrima celeste ingénua e luminosa
           Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.

Couraçado de ferro, épico e deslumbrante,
Passa no seu ginete um cavaleiro andante.
E o cavaleiro diz à lágrima irisada:

- Vem brilhar, por Jesus, na cruz da minha espada!
Far-te-ei relampejar, de vitória em vitória,
Na Terra Santa, à Luz da Fé, ao sol da glória!
E à volta, há-de guardar-te a minha noiva, ó astro,
Em seu colo auroreal de rosa e de alabastro.
E assim alumiarás com teu vivo esplendor
Mil combates de heróis e mil sonhos de amor!

           E a lágrima celeste ingénua e luminosa
           Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.

Montado numa mula escura, de caminho,
Passa um velho judeu, avarento e mesquinho.
Mulas de carga atrás levam-lhe o tesoiro,
Grandes arcas de cedro abarrotadas d'oiro.
E o velhinho andrajoso e magro como um junco,
O crânio calvo, o olhar febril, o bico adunco,

Vendo a estrela exclamou: - Ó Deus que maravilha!
Como ela resplendece e tremeluz e brilha!
Com meu oiro em montão podiam-se comprar
Os impérios dos reis e os navios do mar.
E por esse diamante esplêndido trocara
Todo o meu oiro imenso a minha mão avara!

            E a lágrima celeste ingénua e luminosa
            Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.

Debaixo da figueira então um cardo agreste,
Já ressequido, disse à lágrima celeste:

- A terra onde o lilás e a balsamina medra
Para mim teve sempre um coração de pedra.
Se, a queixar-me, ergo ao céu os braços por acaso,
O céu manda-me em paga o fogo em que me abraso.
Nunca junto de mim ranchos de namoradas
Debandaram, cantando, em noites estreladas...
Voa a ave no azul e passa longe o amor,
Porque ai! nunca dei sombra e nunca tive flor!...
Ó lágrima de Deus, ó astro, ó gata d’água,
Cai na desolação desta infinita mágoa!

          E a lágrima celeste ingénua e luminosa
          Tremeu, tremeu, tremeu… e caiu silenciosa.

E algum tempo depois o triste cardo exangue,
Reverdecendo, dava uma flor cor de sangue;
Dum roxo macerado e dorido e desfeito,
Como as chagas que tem Nosso Senhor no peito...
E ao cálice virginal da pobre flor vermelha
Ia buscar, zumbindo, o mel doirado a abelha!

Guerra Junqueiro
lido por Miguel Leitão

MORENA

EZEQUIEL JORGE


MORENA

Não negues, confessa
Que tens certa pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena.

Pois eu não gostava,
Parece-me a mim,
De ver o teu rosto
Da cor do jasmim.

Eu não... mas enfim
É fraca a razão,
Pois pouco te importa
Que eu goste ou que não.

Mas olha as violetas
Que sendo umas pretas,
O cheiro que têm!
Vê lá que seria,
Se Deus as fizesse
Morenas também!

Tu és a mais rara
De todas as rosas;
E as coisas mais raras
São mais preciosas.

Há rosas dobradas
E há-as singelas;
Mas são todas elas
Azuis, amarelas,
De cor de açucenas,
De muita outra cor,
Mas rosas morenas,
Só tu, linda flor.

E olha que foram
Morenas e bem
As moças mais lindas
De Jerusalém.
E a Virgem Maria
Não sei... mas seria
Morena também.

Moreno era Cristo.
Vê lá depois disto
Se ainda tens pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena.

Guerra Junqueiro
lido por Miguel Leitão

sábado, 13 de novembro de 2010

A VALSA

CRISTIANE CAMPOS


A VALSA

A vida
   é uma valsa
      de falsa
         ilusão.
      Volteia
   tão cheia
de sonho
   e paixão.
      Começa-se
         a medo,
      passinhos
   sem jeito,
tropeços
   que a mãe
      ampara
         no peito.
      Não caias!
   Sai dessa,
caminha,
   vá lá.
      Acerta
         o compasso.
      É isso,
   já está!
Começa
   a correr,
      começa
         a saltar.
      Prá frente,
   sem medo!
Começa
   a sonhar!
      E vem
         a escola,
      liceu,
   faculdade;
Percebe-se
   então
      qual é a
         verdade:
      emprego,
   trabalho,
cansaço,
   tormento,
      juntando
         à mistura
      amor,
   casamento.
E o ritmo
   diário,
      ternário,
         acelera:
      manhã,
   tarde, noite,
não corras,
   espera!...
      E vêm
         os filhos,
      sarilhos
   dobrados.
E vem
   a doença
      com cheiro
         a finados.
      E luta
   que luta,
sem tréguas.
   Coragem!
      A vida
         é assim!
      Prossegue
   a viagem…

E chega-se
   ao fim
      olhando
         p’ra trás…
      A vida
   esfumou-se,
cansada,
   fugaz.
      O que é
         que ficou?
      Vazio…
   Saudade…
e um fundo
   receio
      da eter-
         nidade.
      Que está
   para além
do que
   já passou?
      Que a valsa,
         tão falsa…
      essa
   terminou!

José A. C. Pacheco de Andrade
in “Salpicos de Vida”
dito por Elvira Santos