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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

NATUREZA MORTA COM FLORES

Rosa Elvira Caamaño

NATUREZA MORTA COM FLORES

Artemísia aneto cebolinho
endro arruda estragão

azeda borragem beldroega
aipo coentro cerefólio

hortelã poejo e tomilho
orégão alface erva-cidreira

salsa e salva e serpão
manjerona alecrim manjericão

e tomate-cereja natural
com flores-de-gelo sálvia e sal

Domingos da Mota
in "Bolsa de Valores e Outros Poemas"

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

ENCONTRO

Rosa Elvira Caamaño
ENCONTRO

Tivemos colo de mãe
Para nascer e para acordar,
Ver o mundo e ser feliz.

Tivemos braço de pai
Para apontar e para dizer
Que a felicidade e a vida
Só são de quem
Se der ao trabalho,
Ao prazer,
E à loucura de as conquistar.

Somos asas,
Somos vento
Que se alevantou deste chão
Feito de pedras e sol,
Feitas de agruras e mel,
E partiu
Em cavalgadas de aurora
Por manhãs frescas de azul.

Fomos,
Lutámos
E cumprimos o destino de viver,
Sem nunca ter esquecido
A doce canção da esperança.

Temos os olhos tingidos de roxo
Que é o cor do rosmaninho,
Os pulmões cheios de verde,
Cor do aroma das giestas.
A alma,
Forrada a loiro das searas
E o corpo,
De tez morena
Como os rostos destas gentes.

Estamos de novo e sempre aqui,
Vindos da infância
E do longe
A brincar,
A viver e a sentir,
E a celebrar o sonho que nos habita.

Encontro - que grande missa!
Vermo-nos – que grande festa!

Miguel Leitão
in Em nome das palavras

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A MINHA NOSSA SENHORA

Rosa Elvira Caamaño
A MINHA NOSSA SENHORA

Tinha três ou quatro anos.
Era dia de aniversário
E minha mãe me ofereceu
A Santa Virgem do Céu
Com um pendente rosário.

Feita toda de madeira,
Trabalhada toda à mão,
É já velha a minha imagem!
Tanta labuta ao serão,
Tal cuidado e tal canseira
Teria dado ao fazer
Para eu a poder ter
Entre flores e folhagem
Ao lado da cabeceira!

Sua mão tem estendida
De onde o rosário lhe cai.
Parecia que, ao deitar,
Ficava triste, ofendida,
Se as contas não passasse,
Uma a uma, pela mão,
Uma conta… uma Avé-Maria.
Nenhuma noite fugia
A tão fiel devoção.

Passaram anos, cresci…
E para longe de ti.
Deixei meu ninho, meu leito,
E a minha Nossa Senhora,
Bela prenda protectora,
Que me dera minha mãe,
Deixei também.

Esquecida,
Foi varrida do meu peito!
Certa vez, voltei ao lar.
Notei, então, ao deitar
Que o rosário tão belo
De matéria argêntea, prateada,
De crucifixo amarelo
Estava negro, mui negro
Com a prata embaciada!

Corri as contas nos dedos,
Quis rezar…já não sabia.
Contrito, atormentado,
Fui depô-lo, febrilmente,
Na mão da Virgem Maria
Para me ajoelhar ao lado.

Alcei os olhos. Que vi?
Duas lágrimas derramaram
Os olhos da Senhora,
Dádiva de aniversário!
Que alegria senti
Quando as contas do rosário
Que lhe descia da mão
Uma a uma se limparam!

Seria do pranto da Virgem,
Ou da minha contrição?

Miguel Leitão
in Em nome das palavras

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Um poema

Rosa Elvira Caamaño

Um poema


eu escrevi um poema
para mulher que eu nem sei quem é
e nem ela sabe quem eu sou

eu escrevi um poema
para uma mulher triste
rosto marcado por rugas precoces

eu escrevi um poema
para uma mulher que eu nem sei quem é
sei apenas que é triste
e tem o rosto marcado por rugas precoces

eu escrevi um poema
para uma mulher que nem sei quem é
e nem ela sabe quem eu sou
mas é uma mulher triste
rugas precoces no rosto
e uma criança nos braços
a sugar-lhe o seio murcho

eu escrevi um poema triste
para uma mulher triste
que estava sentada num degrau da escadaria
da catedral da sé de são Paulo
com uma criança nos braços
a sugar-lhe o seio murcho

eu escrevi um poema triste
que não vai mudar a vida dessa mulher triste
sentada num degrau da escadaria
da catedral da sé de são Paulo
e nem da criança que ela tem nos braços
a sugar-lhe o seio murcho

a mulher triste nunca vai saber quem eu sou
nunca tomará conhecimento
do meu poema triste
uma mulher triste como tantas mulheres tristes
que habitam o lado mais triste do país

eu escrevi um poema triste
para uma mulher triste
que nem sabe o que é um poema

Júlio Saraiva (S. Paulo/Brasil)
dito por Jorge Sousa Braga