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sexta-feira, 30 de março de 2012

ANSIEDADE


ANSIEDADE

E a ânsia de fugir a tudo cresce, cresce!
É como a vaga que, feroz, brutal,
Embate, violenta, no areal.

E a ânsia dentro de mim alaga, alaga!
É um Niagara de fel e de revolta
O que anda à minha volta.

E a ânsia de sonhar aumenta, aumenta!
É como a labareda do desejo,
Que se não satisfaz com um só beijo!

E a ânsia de esquecer é enorme, enorme!
Quem pudesse dormir a vida inteira,
Como no berço uma criança dorme!

E a ânsia de viver ainda, ainda!
Deve ser igual à do doente
A quem a vida finda

Sei que esta ânsia jamais terá um fim,
Pois é a ânsia da humanidade inteira
Aquela que eu trago dentro de mim!


Esmeralda Tavares de Carvalho
lido por Alzira Santos

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

CANSAÇOS


CANSAÇOS

Cansada:
- De seguir sempre pela mesma estrada
- Desta vida parada,
Em que não há pecado nem virtude
- De ver o Sol nascer do mesmo lado
E sempre morar na mesma latitude…

- Desta cidade antiga e nevoenta
- Da fachada cinzenta
Da casa situada em frente à minha
- E de, quando por ti acompanhada,
Me sentir tão fria!... E tão sozinha…

- Destas tardes geladas e ventosas
- Das pétalas cetinosas
Das camélias que tenho no jardim
- das grades onde vivo encarcerada
E que não tem princípio…
            Nem tem fim!

Cansada:
- Das conversas que não me dizem nada
- De me sentir olhada
Como coisa banal entre outras mais
- De me julgarem simples e modesta,
Sendo eu bravia como os temporais…

- Do beijo que me dás a horas certas
- Destas noites despertas
Em que não há sonhos bons nem pesadelos
- Do feitio das tuas mãos plebeias
E da cor dos meus cabelos…

- De ver sempre louca a Humanidade
- E da vulgaridade
Deste viver – sem longes, sem espaços…
Cansada do carrego do meu eu
- E tão cansada já dos meus cansaços!

Esmeralda Tavares de Carvalho
lido por Alzira Santos

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

PARA O NORTE…


PARA O NORTE…
                PARA O NORTE!...

       A bússola do meu destino
Não quer nada com o Sul
Deste país pequenino,
Onde o mar é muito azul
          - Onde as águas, quentes, mansas,
          São o Céu para as crianças.

         Tem apenas um desejo:
- Que bússola caprichosa!
Ir um dia ao Alentejo
E parar em Vila Viçosa,
Procurar certa janela
Da rua do Angerino,
Onde nasceu Florbela
- A do trágico destino.
         E na doce claridade
Do Sol que se está a pôr,
Procurar “Soror Saudade”
Ou “Dona Charneca em Flor”.

       A bússola do meu Destino
Aponta-me sempre o Norte
Deste país pequenino
 - Que já foi rico e foi forte –
De mares (loucos, bravios)
Que me causam arrepios.

        E cá vou com o farnel
De saia muito rodada
Ao lado do meu Manel,
Cantando alto na estrada.

       Nesta jornada que faço
Quero parar no caminho
E procurar no espaço
O Poeta de Belinho,
Rezar as “Quatro Estações”
E com a alma lavada
 - De arrecadas e cordões –
Cantar de novo na estrada:
- “Para o norte, para o norte,
Que o norte é o meu caminho.
E a minha estrela da sorte
Está no norte…
Está no Minho”.

       A bússola do meu Destino
Quer que eu vá, estrada acima,
Para o norte… Para o Minho,
Para Viana do Lima,
Que reze em Santa Luzia
E à Senhora d’ Agonia.

Viana, que linda és
Na serra reclinada.
Com chinelinhas nos pés
E saia muito bordada,
Cheiras a rio e a mar
E à mimosa florida…
      - Quem me dera cá ficar
            Toda a vida…
              Toda a vida!...
    Mas a bússola da sorte
Diz-me sempre:
          “Mais p’ra o norte”!
        E de tropeço em tropeço
E de recife em recife,
Hei-de cantar no Carreço,
Hei-de bailar em Afife.
       Faroleiro, faroleiro!
Alumia o meu caminho,
Que eu tenho que achar primeiro
A sombra do “Fandangueiro”
Que dorme em lençol de linho.

     A bússola do meu Destino
 - Mas que coisa tão estranha! –
Para trás ficando o Minho,
Quer que eu vá até Espanha!
- Para as Rias, para as fontes
- Para o alto… para os montes!

       E a bússola do meu Destino
De “Vieiras” no chapéu,
Cajado do peregrino,
Leva o meu corpo, o meu Eu…
           … Nas asas do pensamento
                Ao Norte que me dá alento.

      - Bússola do meu coração!
Por que estranha fantasia
Queres que eu vá até Padron,
Onde morreu Rosalia?
       E porque – louca criança! –
Sem pensares nos meus desaires,
Queres que eu vá a “La Matanza
           Respirar
                        “Airiños aires?...
                             “Airiños, airiños aires…”

         E o meu pobre coração,
Tendo chorado em Padron
Novamente se comove
Porque
“Chove de mansinho
     - Porque de mansinho chove –
polas bandas de Laiño
polas bandas de Lestrove”.

      Já tenho um pé chagado
- São Tiago me conforte! –
Já perdi o meu cajado,
Já não sei onde há mais Norte…
      E de recife em recife,
E de tropeço em tropeço,
Não bailarei em Afife
Nem cantarei em Carreço.
            Porque a bússola da sorte
         Deixou-me só no caminho
  - Ficou para trás no Minho
              Para o Norte…
                    Para o Norte…

     São quatro horas da tarde.
A chuva cai na vidraça.
No lume, uma acha arde
Porque o frio me trespassa.

      Tenho esquecidos na mão
A agulha e o dedal.
A rádio toca Chopin
         - Música que me faz mal.

     Um chá torna-me feliz!
No lume brilha uma brasa
       - Que grande viagem fiz
         Sem sair de minha casa!...

                        Esmeralda Tavares de Carvalho
declamado por Alzira Santos