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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Não valia a pena esperar


Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos!
Estávamos sós e essa solidão éramos nós;

Era indiferente sabê-lo ou não,
Ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
O grito era a própria indiferença.

Presente, apenas presente;
a memória, presente;
a esperança, presente.

E, no entanto, houvera um tempo
em que tínhamos sido talvez felizes,
quando não nos dizia respeito a felicidade,

e em que tínhamos estado perto
de alguma coisa, maior que nós,
ou do nosso exacto tamanho.

Como um animal devorando-se
por dentro de si mesmo,
consumira-se, porém,

o pouco que nos pertencera; os dias e as noites;
a certeza e o deslumbramento; a cerejeira e a
palavra «cerejeira» ainda em carne, na jovem boca.

Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse,
nenhuma renúncia que nos prendesse
ou nos libertasse, nenhuma compaixão que

nos devolvesse o ser,
ou o mesmo,
ou fosse a morada de algo inumano como um coração!

Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior
nenhumas pálpebras se abriam
como poderíamos não nos ter perdido?

Entre 10 elevado a mais infinito
e 10 elevado a menos infinito,
uma indistinta presença impalpável, na indiferença azul,

sós,
sem ninguém á escuta,
nem a nossa própria voz.
       
Manuel António Pina
in “ Os Livros”
lido por Fernanda Cardoso

A POBREZA DOS OUTROS


A POBREZA DOS OUTROS

O padre que, na infância, nos dava a catequese pregava a pobreza no púlpito mas, fora dele, tinha vinhas e senhorios e dizia-se que pagava as jornas mais avaras da região. Um dia em que apareceu com um carro novo, um Taunus azul escuro, o Américo, filho do taberneiro, pôs-lhe uma inocente questão teológica: porque é que Cristo andava a pé ou de burro e não de automóvel? O padre António ofendeu-se; respondeu que burro era ele, Américo, porque no tempo de Cristo não havia automóveis e que, se houvesse, Cristo teria um carrão. Nesse dia, a catequese foi sobre o pecado da
inveja e o Américo teve que prometer que se iria confessar.
Ocorreu-me esta história ao ler na DN que o Papa virá a Portugal (três horas de viagem) num avião adaptado para lhe assegurar o máximo conforto. “O espaço ocupado pela 1.ª classe terá um quarto com cama para o Papa, outro para o seu secretário pessoal, uma casa de banho, uma casa de banho com chuveiro, um salão social e até uma pequena capela”.
            Aprendi a lição do padre António e não duvido de que, se no seu tempo houvesse aviões, Cristo também andaria com cama, salão social e capela trás de si.
                                          
 Manuel António Pina
                                   in “Por outras Palavras”
mais crónicas de jornal
lido por Lourdes dos Anjos

terça-feira, 26 de julho de 2011

O QUE ME VALE


O QUE ME VALE

O que me vale aos fins de semana
é o teu amor provinciano e bom
para ele compro bombons
para ele compro bananas
para o teu amor teu amon
tu tankamon meu amor
para o teu amor tu te flamas
tu te frutti tu te inflamas
oh o teu amor não tem com
plicações viva aragon
morram as repartições

Manuel António Pina
lido por Ana Pamplona

sábado, 23 de julho de 2011

A FERIDA


A FERIDA

Real, real, porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste

que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.

Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado! Mas onde encontrar um passado?

Manuel António Pina
in “Os Livros”
lido por Leonor Reis

A POESIA VAI


A POESIA VAI

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –

Manuel António Pina
in “Poesia, Saudade da Prosa”
lido por Maria Lourdes dos Anjos

UMA PROSA SOBRE OS MEUS GATOS

UMA PROSA SOBRE OS MEUS GATOS

Perguntaram-me um dia destes
ao telefone
por que não escrevia
poesia (ao menos um poema)
sobre os meus gatos;
mas quem se interessaria
pelos meus gatos,
cuja única evidência
é serem meus (digamos assim)
e serem gatos
(coisa vasta, mas que acontece
a todos os da sua espécie)?
Este poderia
(talvez) ser um tema
(talvez até um tema nobre),
mas um tema não chega para um poema
nem sequer para um poema sobre;
porque é o poema o tema,
forma apenas.
Depois, os meus gatos
escapam de mais à poesia,
ou de menos, o que vai dar ao mesmo,
são muito longe
ou muito perto,


Manuel António Pina
in “Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança”
lido por Maria de Fátima

sexta-feira, 22 de julho de 2011

ÚLTIMO POEMA


ÚLTIMO POEMA
«Ó morte que me guiaste, ó morte
amável mais do que a alvorada»
S. João  da Cruz
A dor acompanhar-me-á,
a dor de não ter escrito
o teu nome e de não ter sabido
as perguntas e as respostas; nos teus braços quem me receberá?

E fará tanto frio
que a eternidade
se consumará sem mim no quarto agora vazio
de exterioridade e de contemporaneidade.

Só terei as minhas palavras,
mas também elas são mortais
mesmo as mais banais e mais
próprias para falar de coisas acabadas.

Terei talvez morrido; nunca o saberei.
Nem não o saberei tão perto estarei,
o rosto reclinado no teu peito,
a minha vida um sonho teu, desfeito.

Manuel António Pina
“Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança”
lido por Ana Maria

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Café do Molhe

Café do Molhe

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

                 Manuel António Pina
               “ Poesia, Saudade da Prosa”
     Lido por Ana Pamplona

AZUL

AZUL

A luz, se formos luz. A sombra
se formos sombra: os olhos, sombra;
o coração, sombra; a própria luz
do pensamento, exílio e sombra.

Na infância (pois fomos
jovens um dia) atrás dos reposteiros
o invisível vigiava
o nosso sono desperto.

Agora que acordámos
do amarelo e do azul
e do branco e do azul
e do coração e do azul,

como regressaremos
a este mundo?
(O azul não é deste mundo,
nem os olhos são destes mundo)

À nossa porta batem
inúteis as lembranças: sombras.
Cegámos. Os amigos (sombras)
morreram de doenças de velhos,

o enfarte, a solidão, ou só
de morte, e nem
uma réstia de azul iluminou
o seu último olhar.

Se ao menos tivéssemos
envelhecido sem motivo, sem tempo,
desaparecido para dentro
lucidamente, como uma coisa desprendendo-se.
                
                      Manuel António Pina
                      “ Poesia, saudade da Prosa”
                           antologia pessoal
                   Lido por Irene Lamolinairie

TODAS AS PALAVRAS

TODAS AS PALAVRAS

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa,
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram, levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias:
as minhas últimas palavras.

Manuel António Pina (1943)
in Poesia Reunida
lido por Fernando Cardoso

HEGEL, FILÓSOFO ESPORÁDICO?

HEGEL, FILÓSOFO ESPORÁDICO?

Ninguém morreu de morte tão natural como Hegel.
Alguns anos antes tinha descoberto, horrorizado,
que Deus o havia colocado
no centro de Tudo.
Morreu como um bárbaro: subitamente o seu

coração parou de bater, e inclinou levemente
a cabeça sobre o lado direito.
É sempre Outro quem escreve (Como poderia o escritor, ele
[próprio, mesmo quando é
um Filósofo, reconhecer o que está ali para ser escrito?)

Quem escreveu o poema A Eleusis que Hegel, já 200 anos,
dedicou a Hölderlin? Porque combateu Hegel a positividade?
A que descobertas chegou Schelling, conservador em Berlim,
entre
os seus papéis? Que mão deitou fogo, em 1946, à Sala dos
Apócrifos do Museu Gnóstico de Tübingen?


Manuel António Pina
in “Poesia, Saudade da Prosa”
uma antologia pessoal
lido por Danyel Guerra

Última parte da sessão de Homenagem a Manuel António Pina

Manuel António Pina



Manuel António Pina
Manuel António Pina a agradecer a homenagem prestada declamando
um poema inédito de sua autoria





 Oferta de uma serigrafia de António-Lina ao homenagiado de modo a
agradecer a sua presença

 A menina Leonor foi a escolhida para tirar o número sorteada desta sessão
 A serigrafia "Tempestade no Douro" de António lido saiu a Ana Maria



 João Pessanha com Manuel António Pina

quarta-feira, 20 de julho de 2011

TUDO O QUE TE DISSER

TUDO O QUE TE DISSER

São feitas de palavras as palavras
e da melancolia da
ausência da prosa e da ausência da poesia.
É o que falta que fala
do lugar do exílio
do sentido e da falta de sentido.

Tudo o que te disser
tudo o que escrever
sou eu a perder-te,

cada palavra entre
o que em mim é corpo
e é nela sopro.

        Manuel António Pina
     in “ Nenhuma Palavra, Nenhuma Lembrança”
         Lido por João Pessanha

A EQUAÇÃO DE DRAXE

A EQUAÇÃO DE DRAXE
 (Numa exposição de Ilda David’)

Entre duas águas
(entre H e HO)
corre uma água só
transportando a equação do mundo
até ao mais fundo
sítio do coração,
onde se torna vida o mundo
e a água respiração.

Vinda do mundo,
corre para dentro a vida da pintura,
entre tempo e tempo,
líquida e pura.
Volta-se uma última vez para trás,
e a única coisa que dela vês
é o seu olhar olhando-
-te e desprendendo-se de ti.

                             Manuel António Pina
                             in “ Nenhuma Palavra, Nenhuma Lembrança”
                                      Lido por Ana Maria

AMOR COMO EM CASA

AMOR COMO EM CASA

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
                               Manuel António Pina
                               in “ Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo.
Calma é Apenas um Pouco Tarde”
                                       Lido por Miguel Leitão

A BOCA E OS OUVIDOS

A BOCA E OS OUVIDOS

As palavras depõem
contra o coração,
que não quer dizer nada
nem ouvir nada.

As suas mãos alheias
tocam balbuciando
o meu coração.
Como se lhes negará o meu coração?

A baba do sentido
devassa a minha boca
com sórdidos ouvidos.
Como me calarei? Sem que palavras?

Oh, apenas um instante de silêncio,
uma palavra de
harmonia e solidão,
de morte e de indistinção!

            Manuel António Pina
            in “ Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança”
            Lido por Irene Lamolinairie

terça-feira, 19 de julho de 2011

16 Julho, Homenagem a Manuel António Pina

 Danyel Guerra

 Danyel Guerra
 Danyel Guerra
 Danyel Guerra
 Danyel Guerra declama um poema de Manuel António Pina
 Danyel Guerra

 Danyel Guerra cumprimenta o homenagiado
 Ana Maria
Ana Maria
 Alzira Santos 
Alzira Santos
 Alzira Santos
 Alzira Santos
Alzira Santos
 Fernando Morais

 Fernando Morais
Fernando Morais e Manuel António Pina