quarta-feira, 27 de julho de 2011

Não valia a pena esperar


Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos!
Estávamos sós e essa solidão éramos nós;

Era indiferente sabê-lo ou não,
Ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
O grito era a própria indiferença.

Presente, apenas presente;
a memória, presente;
a esperança, presente.

E, no entanto, houvera um tempo
em que tínhamos sido talvez felizes,
quando não nos dizia respeito a felicidade,

e em que tínhamos estado perto
de alguma coisa, maior que nós,
ou do nosso exacto tamanho.

Como um animal devorando-se
por dentro de si mesmo,
consumira-se, porém,

o pouco que nos pertencera; os dias e as noites;
a certeza e o deslumbramento; a cerejeira e a
palavra «cerejeira» ainda em carne, na jovem boca.

Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse,
nenhuma renúncia que nos prendesse
ou nos libertasse, nenhuma compaixão que

nos devolvesse o ser,
ou o mesmo,
ou fosse a morada de algo inumano como um coração!

Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior
nenhumas pálpebras se abriam
como poderíamos não nos ter perdido?

Entre 10 elevado a mais infinito
e 10 elevado a menos infinito,
uma indistinta presença impalpável, na indiferença azul,

sós,
sem ninguém á escuta,
nem a nossa própria voz.
       
Manuel António Pina
in “ Os Livros”
lido por Fernanda Cardoso

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