quinta-feira, 21 de julho de 2011

AZUL

AZUL

A luz, se formos luz. A sombra
se formos sombra: os olhos, sombra;
o coração, sombra; a própria luz
do pensamento, exílio e sombra.

Na infância (pois fomos
jovens um dia) atrás dos reposteiros
o invisível vigiava
o nosso sono desperto.

Agora que acordámos
do amarelo e do azul
e do branco e do azul
e do coração e do azul,

como regressaremos
a este mundo?
(O azul não é deste mundo,
nem os olhos são destes mundo)

À nossa porta batem
inúteis as lembranças: sombras.
Cegámos. Os amigos (sombras)
morreram de doenças de velhos,

o enfarte, a solidão, ou só
de morte, e nem
uma réstia de azul iluminou
o seu último olhar.

Se ao menos tivéssemos
envelhecido sem motivo, sem tempo,
desaparecido para dentro
lucidamente, como uma coisa desprendendo-se.
                
                      Manuel António Pina
                      “ Poesia, saudade da Prosa”
                           antologia pessoal
                   Lido por Irene Lamolinairie

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