quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

OUTONO


OUTONO

O sol desce pelas fachadas
e vem enroscar-se nas flores
depois sobe em luzes vivas
arrogantes, subversivas
até às nuvens distantes.

Quando é Outono desenha
de todas as ruas o corte
e vai montado no vento
no seu clarão de espavento
mas a luz é menos forte.


O fulcro das ideias passa pelo corpo
no qual se insere um multi-vivas formas
é por isso que às vezes encontramos flores
mais frágeis que miosótis e mais lindas que rosas.

O que perdura no corpo é memória de beleza
algum encanto misturado de prazer e suavidade
é por isso que há sorrisos tão indefiníveis
como aquela página do livro que ficou em branco

O destino que damos aos gestos perde-se no tempo
evola-se como aromas ressentidos na infância
a nossa serenidade alimenta-se de ânsia
como o ardor é moral no seu intento

As emoções também, os sentimentos perto,
tão difícil controlar, conviver nesse defeito
às vezes ponho-me a pensar e é certo
ficar tristíssimo, sem perdão, sem jeito.

Ao menos um dia gostava de saber, de me acertar
pelo relógio da vida onde o todo se faz luz
e parecido com os que parecem estar
à espera do universo que tanto nos seduz.

Sei das fontes que havia na cidade
onde a água cantava de esplendor
sei das cortinas brancas nas janelas
e das varandas floridas e pintadas.

Sei dos caminhos cheirando a resina
do lavadouro público com vozes de mulher
do ar lavado pelo Sol de Outubro
e do azeite vendido ao domicílio

Sei dos jornais tingindo as mãos de escuro
naqueles sábados de galos no quintal
e de mil insectos passeando confortavelmente
por entre o povo caminhando ao trabalho.

Sou desse tempo que revivo e não esqueço
das relações de vizinhança estremecidas
e dos hábitos de dar e receber
estreitados no espaço quotidiano.

Sei dessas noites de candeeiro na mão
a devassar as sombras do inesperado
sei do jogo do pião, do eixo e rebaldeixo
e dos poemas do ANTERO ao doce acordeão

Houve mil homens nos tempos antigos
e por cada ano passado mais mil de mil
que fizeram das pedras mudas coisas vivas
e dos campos lavrados rendas de bilros

Na história dos povos anda sempre viva
a enorme apetência de deixar marcas
e para além da morte ficar gravado
nosso símbolo de poder e força

O canto dos pássaros riu-se imponente
no som mavioso nos trinados suaves
de tanta batalha no sangue perdida
com tanto chorar já tardio, distante

Qual o homem desses tempos remotos
que pôde adivinhar a minha chegada
e do que eu diria, faria, pensasse
ao dobrar a vida como uma esquina?

O silêncio que desfez a máquina do tempo
e a aparente serenidade do passado
flirta connosco o cadáver esquisito do futuro
nas expressões de pânico dos actuais letrados

Dizem que tudo vai ser pior, pior mil vezes
e que os nossos netos vão sofrer de tudo
A ciência, entretanto, vai-se rindo à sucapa
inconsciente da moral e do bem estar perdido

A cidade falida, desfeita em fumos, nivelada
exposta aos furacões dos recibos por pagar
tritura-se, suicida-se, para passar nas ruas
e deixa rastos de sangue nas praças policiadas

O calor quando cai arrasa tudo por demais
a chuva quando engrossa arrasta casas e casais
os ricos mais ladrões roubam-se uns aos outros
porque o frio desde há muito matou todos os órfãos

Nesta tragédia global aparece o dois mil
dizendo que basta um sorriso da beldade
para que o Mundo fique em plena primavera
no farfalhar das notas que o banco nos entrega.

Será que é assim o mundo? Que não há mal que dure?
Será que é assim a vida? Que todo o fogo extingue?
Toda a velhice acalme e toca a doença cure?
E todo o crime se esqueça e já ninguém se vingue?

OXALÁ!

Os meus poemas
ficaram vivos tantos anos, tanto tempo
abandonados, desconhecidos,
e sem correr, pernas pequenas,

Os meus poemas
sem viajar pelas antenas
apenas vivos, vivos apenas
de tão parados, de tão retidos,
ganharam pó, cresceram penas
tanto penaram a sós comigo…

De mim fugiu até a grande esperança
a do bem estar dos povos e a do meu
que, vendido ao dinheiro, já tudo perdeu
Desiludido fugi, então, para França

O doloroso percurso fi-lo várias vezes
e em nenhuma delas vi a felicidade
o bem que procurava era em verdade
fugir das minhas próprias fraquezas

O debate principal no mundo continua
a ser entre quantidade e qualidade
quando uma sobe a outra cai na rua
e quando cai desfaz-se em nulidade

Ninguém quer o que tem mas o que anseia
ninguém anseia ter menos que o vizinho
 e por isso o meu povo só a lua tem cheia
e em tudo o resto, um pouco, poucochinho…

O mal que virmos, a nós, não nos faz bem
e a aflição dos outros será nossa aflição
ligados todos, contra vontade, siameses
na sociedade que fizemos de ambição

O professor Agostinho bem o disse e com clareza
temos um destino para sermos dignos dele
mas nos últimos setenta anos de avareza
só tivemos em Abril… e foi aquele.

ao Mário Cláudio

Com quanta agitação se satisfaz o anseio
e as larvas vivem na ignorância do belo
mas se na vida nada do que existe é feio
porquê, então, tanto choro, lamentações, desvelo?

O sumo da existência é tirar sabedoria do pouco
a corrida para o tudo é ineficaz e absurda
O pouco é tanto no que em si encerra
que o muito de tudo é o que na vida muda.

Não há essência das coisas senão no pensamento
nem sujeição que não traga a revolta
a flor dos dias é o amor à forma do vento
sabendo nós como o vento se forma.

Já tenho dores nos olhos
de tanto ver o egoísmo
e tremo de nervosismo
de sentir a intolerância

A ganância que faz no mundo
tornou o solo infecundo
destruiu a agricultura
e a grua invadiu tudo.

Já tenho dores nos olhos
tremo de nervosismo
de ver tanta intolerância
que, neste mundo, a ganância,
tornou o solo infecundo.

As gruas crescem na terra
que era da agricultura
como sementes de fome
onde sorria a fartura.

A luz é vista pelos meus olhos
senão, para mim, não existia
mas tu, querida, mesmo sem te ver
existes. Quando toco, palpo, a harmonia.

Quando te sinto a pele e estremeces
insuflas de vida o peito meu, raso.
Nem tudo na velhice é um descaso
quando a memória de ser novo me esclareces.

até os versos doem de ser vistos
na página do livro que floresce
e a luz que dele sai é o artigo
mais raro e caro que no mundo cresce.

Fernando Morais
in "O Poeta Escondido"

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