quinta-feira, 22 de setembro de 2011

MELANCOLIA


MELANCOLIA

Não posso ver os ramos do pinheiro
a oscilar, nostálgicos, ao vento…
É um adeus, aquele, o derradeiro,
que me veste de luto o pensamento.

E comove-me a chuva persistente,
batendo em gotas lentas na vidraça;
ao ver que tudo chora amargamente,
eu já sinto no ar uma desgraça.

Inquietam-me as ondas altaneiras
que se agitam, intensas, sobre o mar!
Lembram a raiva, as horas traiçoeiras,
a vaga da revolta a reclamar!

Mas como adoro o sol! Vê-lo nascer,
igual ao despontar de uma esperança,
como o desejo enorme de viver,
ouvindo o puro riso da criança!

Amo as águas, os rios, os lagos,
como se fossem o sangue destas veias!
São poemas cantantes, murmurados,
é poesia em vales e aldeias!

De tudo que este olhar tem visto
amo a terra! Às vezes abomino!...
Se, por consequência, nela existo,
inexoravelmente nela termino!

Maria de Lourdes Martins
in "Castelo de Legos"

ASPIRAÇÃO

ASPIRAÇÃO

Não quero contentar-me com o que faço
tal como o pintor louco, meu amigo,
que julga qualquer mancha, qualquer traço,
acima já de crítica ou perigo…

Sei que o artista tem de, passo a passo,
buscar do teto da Arte o doce abrigo
e, duro e persistente e sem cansaço,
lutar para vencer, lutar consigo…

Chegando ao termo, o prémio a recolher
não deverá talvez satisfazer
qualquer carência, ainda que banal:

Mas viva em nós a luminosa ideia
de termos dado um fio à branca teia
dum património de Arte social.

Oliveira Guerra
in Algemas

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Passei à frente da pressa


Passei à frente da pressa
num passo bem apressado
mas a pressa anda depressa
quase ficou a meu lado.
Mas depressa fui andando
com a pressa, atrás de mim
cada vez mais me apressando
pra chegar depressa ao fim.
Para manter a distância
que  existia entre nós
com a pressa da circunstancia
nem da pressa ouvia a voz.
Vi na pressa a impaciência
ante a distância que ganhei
mas para manter essa cadência
ainda mais depressa andei.
E muito apressadamente
bem depressa por sinal
pairou sobre a minha mente
esse dizer ancestral
sempre dito por alguém
que depressa e bem
há pouco quem.

Kim Berlusa

MONOTONIA


MONOTONIA

Leste os meus novos poemas,
aqueles escritos por último,
os derradeiros,
e eu não sei bem se gostaste,
mas comentaste
que nada tinham de original
e que, afinal,
eram iguais aos primeiros!

Pois é,
como se a dor que os inspira
fosse finda,
ou se mudasse,
e só para te agradar
tivesse de se mascarar,
e se te apresentasse
diferente daquilo que é!

Miguel Leitão
in "O tempo e as coisas"

DEPOIS DE MIM ?


DEPOIS DE MIM ?

Depois de mim ?

Que me interessa o depois de mim ?
Por mim nada,
Cá já não estarei,
Mas por outros sim,
Que por eles me inspirei!

Depois de mim haverá risos de crianças,
Amor,
Eternas esperanças num mundo melhor!

Depois de mim mares beijarão praias,
O Sol continuará a brilhar,
Noites terão seu luar,
Homens sonharão com saias!

Já fui criança, de permanente desejar.
Tive um antes de mim,
Um antes de mim houve,
Que eu não soube,
Mas o que eu desejo,
Depois de mim,
É um mundo sempre melhor,
Para pior basta assim!

Que o mundo seja melhor
Depois de mim!


Silvino Figueiredo

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A PEDRA


A PEDRA

A pedra para lá de ser a casa
é a nossa insurreição à dor do frio
o cão de guarda que não guarda nada
é um cão de pedra ali mesmo à entrada.

Mais clara em Lisboa é no Porto que é dura
na escama da sua pele brilham os cinzéis
e então é vê-la donairosa e segura
quando feita capela a receber os fiéis.

A cornija, o arco e as volutas
algumas tão amigas, enrugadas, musgáveis
são páginas da história, pergaminhos do tempo
escadarias sem fim e varandas ao vento.

Vamos soletrar a paz para as crianças
vamos chamar a ilusão e o sonho
vamos impedir a sórdida matança
e não deixar nunca torná-la popular

Vamos gastar os dias e as noites
a escrever no espaço bem visível
em vez de satélites-espias
a palavra paz de forma inesquecível.

Vamos, então, antes que tudo acabe
com a acabar de cada um de nós
saibamos dar à vida mais um sopro e um alento
antes que fiquemos totalmente sós.

Fernando Morais
in O Poeta Escondido

chegou o canto dos pássaros


chegou o canto dos pássaros
anunciar a primavera.
em perfeita harmonia
premeiam delícias do amor
unem-se aos doces frutos
ao perfumado coração das flores
seduzem em seus voos
espelhos cristalinos
onde triunfa a nascente
rios de almas antigas
entregues à corrente.
cantam a bênção da brisa
elevam com alegria a poesia
entre o pulmão da vegetação.

chegou o canto dos pássaros
renova-se o espírito da Natureza
alimentar a raiz da vida.

Teresa Gonçalves
in Pleno Verbo

A JANELA


A JANELA

A luz do sol numa oferenda
descia sobre a janela;
e a cortininha de renda
transmitia, através dela,
a sombra da laranjeira
que bailava, louca ao vento,
sua eterna brincadeira,
tão presa como eu no tempo!

Àquela hora do acaso
em que o sol d’oiro esbatido
se debruçava ao acaso,
num livro aberto, esquecido,
eu pensava quanto o mundo,
sendo na vida um momento,
às vezes é tão profundo,
tão rico de sentimento!

No enquadrar da janela,
a minha neta, a Ainhoa,
que vive lá dentro dela…
é a canção de Lisboa
e o flamenco andaluz
no seu corpo em puberdade;
dois mundos em contraluz
sentido em disparidade…

Dentro da mesma janela
oiço a voz da Beatriz:
- Te quiero mucho abuela –
dedinho em riste me diz!...
Olhos a janela, o momento
em que me embala a doçura…
existe um céu ternurento
dentro daquela abertura!

Ficou-me preso na alma
esse recanto tão vasto!...
Nos longes da tarde calma,
outro recanto assim casto
no coração está presente!
Na vida nada fenece…
outro espaço, outro lugar,
tudo de novo acontece
se quisermos recordar!

Maria de Lourdes Martins
in Castelo de Legos

SAUDADE

SAUDADE

A minha irmã Saudade é companheira
que não me desampara um só momento,
como se houvera feito um juramento
de conviver comigo a vida inteira.

Às vezes, fatigado à sua beira,
eu penso abandona-l’a, e, nesse intento,
procuro companhia mais palradeira
que possa dar-me algum contentamento.

Mas como abandonar por um só dia
em troca duma insípida alegria
a velha amiga a quem eu não resisto?

Se conseguisse dela separar-se,
dela eu voltava logo a aproximar-me,
com novo apego nunca dantes visto…

Oliveira Guerra
in Algemas

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

SETEMBRO

SETEMBRO

Abraça-me na robustez
das tuas coxas,
troncos de arvores fortes…
E,
nas folhas amarelecidas
dos ramos delgados,
como os teus lábios finos,
pendem avulsos beijos rubros,
fruta esquecida mas mel,
languida aguardo o São Miguel
na estática do tempo…
Sacio meu corpo na colheita,
na barriga proeminente,
grávida e bela,
anafada pela natureza e ciclo de vida...
Com tua mão forte e dócil,
afagas meus seios como sonhos…
E no negro breu dos teus cabelos
chega o esfriado vento
sulcando palavras, versos idílicos
nas rugas do meu rosto…


Teus olhos Luz crochetam em nós
as nossas noites de sexo partilhado…
Setembro,
em passeios pelo mar de Árvore,
em troca de saliva falada,
desfaço aos pés os rendados da espuma
das noites sem teu olhar…
À boca chega o sabor do salitre.

Fernanda Garcias
2011 / 09 / 07

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

AQUI E ALI


Cristina Maya Caetano
AQUI E ALI

Aqui, estou,
Mas ali,
Pareço também estar,
Não! Tal impossível é,
Se aqui fiquei,
E daqui não saí!
E se afinal,
Um só corpo tenho!

Mas...,
E se o meu corpo,
Crescer, crescer,
Em dois se tornar,
E em toda a parte ficar?
Como tal, mesmo pode ser?

Com toda a intensidade,
Alma femenina minha,
Vibrações masculinas outras,
Em todos as dimensões estou,
Aqui!
Ali!
Para cima falando,
Para baixo andando,
Para os lados voando,
Sem limites,
Com a divina benção,
Em todo o lado estou!
Mesmo em confusas situações,
Para todo o sempre,
Nesta vida,
Vidas outras,
Dimensões várias,
Tudo e nada
Me pertence.

Oh, corpo meu,
Que formas sempre varias,
Alma minha,
Que a mesma sempre és,
Como evoluir sempre vais,
De vários conhecimentos,
Sempre impregnada,
Daqui!
Acolá!
Lá!
Num todo formado,
Melhor ficas,
Mais bela,
Expandida, forte e iluminada!

Subitamente...
Agora, alma minha,
Tudo invades,
Neste mundo,
Tudo transformando,
Contribuindo,
Na planetária massa,
Em diferentes meios e modos,
Aqui!
Ali!
Tudo és!
Ao passo de uma consciência universal,
Tudo abrangendo,
Tal como electrões e protões vários,
Células unidas,
Corpos, formas fazem.
Do mesmo material,
Transplantário,
Consciência do corpo,
Bem me trato,
Evolui alma minha,
Expandida, aqui e ali!
Transcendendo-me a mim própria,
Ali e aqui, muito mais sou!
Eu!
Do que algum dia,
Pensar, pensava!
Para além do que cremos,
Todos, muito mais somos,
Infinitamente,
Para além do que vemos!

Cristina Maya Caetano

E OS VAPORES DA TERRA


E OS VAPORES DA TERRA

Que encontro de gente,
Que ao acaso Se conhecem.
Que semente pulverizada,
Que terra tão indulgente.

Virgílio Liquito

Corpo; altar da dor e da saudade!


Corpo; altar da dor e da saudade!

Quando alguém parte;
foi fogo
que de seu corpo sua alma levou!
ficando só alicerces, como altar,
no corpo de quem ficou,
onde arde a dor da saudade,
mas, com a argamassa da dor
e com pincéis procure a beleza da cor
para pintar novo interior,
nova paisagem,
onde, com claridade
sobressaia o amor
por quem partiu de viagem.

Nos corpos que ficam,
ficam como altar,
onde a dor, como fogo lavra
tentando que, dos alicerces,
a vida lavra como lavrava;
a melhor homenagem,
a quem partiu de eterna viagem,
que onde quer que esteja
na vida de quem ficou se reveja!
                              Silvino Taveira Machado Figueiredo
                                     ( o Figas de Saint Pierre de Lá-Buraque)

Do velho baú do tempo


Do velho baú do tempo
quantas canções esquecidas
tiramos para reouvir.
Num misto de sentimentos
retornamos a momentos
com um olhar, ou um sorrir.

Farrapos de nostalgia
invadem -nos de mansinho
seja noite, ou seja dia
com lufadas de carinho.
Oh, quanta melancolia
voa no pensamento
enquanto a melodia
dessa canção esquecida
que e pigmento da vida
não cai no esquecimento.
E quando a canção acabar
algo a volta a guardar
no velho baú do tempo

Kim Berlusa

Quantas vezes me fechei para chorar


Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho, da casa de minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava…
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio,
e chorava
sem um desgosto, sem uma cor, sem um lenço
sem uma lágrima,
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim, só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguémviu um vestido a chorar

Ana Pamplona

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

VENDRÁ DE NOCHE


VENDRÁ DE NOCHE

Vendrá de noche cuando todo duerma,
vendrá de noche cuando el alma enferma
se emboce en vida,
vendrá de noche con su paso quedo,
vendrá de noche y posará su dedo
sobre lá herida.
Vendrá de noche y su fugaz vislumbre
volverá lumbre la fatal quejumbre;
vendrá de noche
con su rosario, soltará las perlas
del negro sol que da ceguera verlas,
todo un derroche!
Vendrá de noche, noche nuestra madre,
cuando a lo lejos el recuerdo ladre
perdido agüero;
vendrá de noche; apagará su paso
mortal ladrido y dejará al ocaso
largo agujero…
Vendrá una noche recojida y vasta?
Vendrá una noche maternal y casta
de luna llena?
Vendrá viniendo con venir eterno;
Vendrá una noche del postrer invierno…
noche serena…
Vendrá como se fue, como se ha ido


Miguel de Unamuno
in "Antologia Poética"
lido por Ilda

“FILHOS DA PUTA”


“FILHOS DA PUTA”
05/03/2007

Intróito:
A poesia, em princípio,
pode contribuir para que o animal Homem seja mais humano.
Cada poema pode ajudar à sua maneira.
Esta é a minha maneira.
Sei que pode causar espanto,
(nem sempre sou poeta do azul e das estrelinhas)
mas pode ajudar.

Ponham a hipocrisia de lado.
Aqui vai:

“Filhos da Puta”
podia eu chamar a quem a inocentes anda a roubar,
mas não,
a gente não deve ser cretina,
porque todos os “Filhos da Puta”
são também criação divina!...
e com Deus não se deve brincar!

“Filhos da Puta”
podia eu chamar a alguns filhos de Deus,
que permite a filhos seus outros irmãos explorar,
mas não,
ao fim e ao cabo,
talvez Deus me dissesse que tais “Filhos da Puta”
não são filhos seus, mas sim do Diabo!

“Filhos da Puta”
podia eu chamar aos filhos do Diabo,
por permitir que filhos seus matem,
escravizem,
e ainda por cima se ficam a rir,
mas não,
talvez o Diabo me dissesse
que tais “Filhos da Puta” são filhos da Tentação!

Afinal,
de quem são os “Filhos da Puta” que por aí há?

Podem não ter pai!
Podem não ter mãe!
Mas que os há,
lá isso há!:
Muitos “Filhos da Puta”
sem que esta tenha culpa!


Silvino Figueiredo

DESFILE DE ABSURDOS


DESFILE DE ABSURDOS

Rodopios, lava-pés,
clítoris e clichés,
colorofila clonada
                 Desvairios…
Fait-diver’s,
veia cava embevecida,
cava a vida inacabada,
o começo doutra vida.
                 Clausura…
Rasto de ciber-loucura,
alcalina, celulóide,
paisagismo periférico,
celulite, alcalóide,
num complot atmosférico.
Colectânea depressiva,
sinfonia em recessão,
histeria colectiva,
glossário, colisão.
Veracidade impulsiva,
a mentir por omissão!


Kim Berlusa

O PULSAR DAS PENAS…

O PULSAR DAS PENAS…

Quais penas incandescentes desapareceram
das pequenas ossadas emparedadas,
neste corpo roído de suposta bem-
aventurança.
Que impedimento me falseia o voar pelas
planícies,
já sulcadas,
se tais penas se mortificarão com o meu
pulsar.


Virgílio Liquito

POVEIROS


POVEIROS

Ser Poveiro,
é ter as amarras de todos os ventos
ancoradas no peito,
é ser um povo que escreve
parte da historia nos Oceanos,
é ter no mar o sustento e a morte.
Ser Poveiro,
é ser saudade viva no peito ardendo
e nunca desistir após naufrágio,
é ter no cântico das sereias,
seu próprio canto e gritar com garra:
Ala ala arriba poveirinhos…
Ala ala embarcação…
e navegar… sulcar as águas da Póvoa…
É ser sal no tempero da vida
e tecer com as redes sua própria estória.
Ser Poveiro é amar o mar
e enfrentá-lo com respeito e adoração,
é ter coragem e audácia
e vencer a bravura das águas alteradas,
é ter na mulher caravela viva,
timoneira na ausência do homem…
Ser Poveiro,
é pertencer aos mares por direito próprio;
é rasgar rotas no mapa do mundo,
é ter a tez crestada pelo Sol e nas mãos
as marcas das amarras tempestivas…

Fernanda Garcias   
2011  / 04  / 30