sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

DE QUE LADO ESTAREI EU?

Victor Silva Barros
DE QUE LADO ESTAREI EU?

Lados, lados, lados…
De que lado estarei eu?
Estou ladeado de lados
e nenhum deles é o meu.
Lado de cá, lado de lá
lado de fora, lado de dentro
mas continuo sem saber
em que lado me contento.
E o lado, alado que tenho
leva-me a ladear
o lado de onde venho
que é advérbio de lugar.
Há lados, postos de lado
mas em todo o lado é igual
mesmo um lado, desolado
tem o seu lado natural.
E entre o lado certo
e o lado errado
algures está, o lado
que é o meu
mas continuo encurralado
neste mistério intricado
que vai da tua terra ao céu.
Mas digam por todo o lado
de que lado estarei eu?


Kim Berlusa

BÍLIS COLORIDA

José González Collado
BÍLIS COLORIDA

Tenho um amigo pintor,
Seus olhos um estranho olhar,
Em tudo só vêem cor,
Pintam sem quase pintar.

Vira a natureza do avesso,
Por prazer altera as formas,
Faz da pintura arremessa
Contra as velhas formas!

Não sou invejosos dos pintores,
Eu só pinto com meus versos,
Mas neles uso as mesmas cores

Poetas e pintores têm colorida bílis,
Que, mesmo em nevoeiro espesso
A descarga é um arco-íris!..

Silvino Figueiredo

De que falamos nós, afinal?

José González Collado
De que falamos, afinal? Nós
a quem os outros chamam poetas?

Saliva é tinta
que escorre e pinta
folhas brancas com letras: mas
são os outros que das letras fazem
os sons; e imaginam (nas letras)
imagens que são
sons sem letras!

E dizemos: morte. Cantando
a vida. Norte. E o caminho
são todos os lados e todas as estradas.
Pontos e vírgulas são nossas Fadas.
E dizemos: tudo. E parece nada!

Dizem-nos: para quê?!...
Porque somos águas, assustamos.
Com tormentas.
Muitas. Quinhentas.
E dizemos: cores. Para que não vejam
o que lhes dizemos.

Escrevemos: sexo. Para que sintam
Amor. Sem ele. Também.
Não, não inventamos estrelas: apenas lembramos
que elas estão lá.
E dor? Ai!, é muito
mais que isso!

Porque falamos, afinal, se ninguém nos quer ouvir?

Gritamos: não digo mais!
E então, só então, têm saudade.

De nós.

Luís Nogueira
lido por Eduardo Roseira

AS ÁRVORES

José González Collado
AS ÁRVORES

Nas árvores que encontro, quase despidas,
Sinto a espera de um novo amanhecer;
São do meu olhar, jóia esculpidas,
Pela mãe natureza que ousa florescer.

Troncos lisos, rugosos, levantados,
Quase estátuas hirtas de um museu;
Mais tarde, serão como braços amarrados,
Encantos eternos que Deus nos deu.

Nas árvores cobertas e preenchidas
Encontro a sombra amiga do estio,
Recanto das cidades enternecidas,
Aonde as aves cantam ao desafio.

Há um doce aconchego que nos seduz,
E que está nas almas dos poetas;
Translúcido, o sol, em clareiras, reluz
E dá-nos as imagens mais secretas.

Jorge Vieira
in “Manhãs Inquietas”

RIO DOURO

Fernando Gomes
RIO DOURO

Da nascente até à Foz
Seu percurso infindável,
Paisagístico para todos nós
Com um mistério insondável.

Tens um toque nordestino,
Tuas margens são riqueza.
Douro, esplendor do Porto Fino
Nas vindimas da nobreza.

Internacional até Barca s’Alva,
Português até ao Porto,
Rabelos na manhã alva
Chegam à Foz ao sol-posto.

Tuas barragens dão vida
São o pão de cada dia
Energia consumida
Os peixes, a iguaria.

Trás-os-Montes e Alto Douro
Roteiros de obrigação,
Meu rio, teu leito é ouro
Para toda a região.

Poetas, músicos, cantores
Vos relembram com saudade.
Meu Douro de mil sabores
Rio, minha liberdade.

João Pessanha
20/11/09

O PAÍS DAS MARAVILHAS

Victor Silva Barros
O PAÍS DAS MARAVILHAS

Falo-te de um outro país, que não vem nos mapas.
Falo-te de outro país, que não pode ser
medido geometricamente.
Falo-te de um outro país de formas assimétricas
e de coloridos lugares.
Falo-te sim, e sempre te falarei, desse país,
onde todos os sons, não passam de totais
ardis de silêncio.
Falo-te sim, desse país onde o sol, pairando
em luz e pólen, torna o poente ausente.
Falo-te dum céu, onde as estrelas, navegam
presságios serenos, refúgio duma outra dimensão.
Falo-te desse país, que pode ser singularmente
habitado, mas fora da possibilidade de habitação.
Falo-te do país das maravilhas, sem a Alice…

Kim Berlusa

UM DEIXA ANDAR

Victor da Silva Barros
UM DEIXA ANDAR

Fogo por todo mundo,
água por toda a terra,
vidas no fogo a queimar
ou na água a navegar!

Os deuses,
esses estão-se a guerrear
ou a passar férias;
num deixa andar!

Silvino Figueiredo

SEGREDO

José González Collado
SEGREDO

Presa nos espinhos da rosa florida,
A fímbria do vestido, um fio esgaçou;
Assim em teus olhos, minha alma dorida,
Pela libertação em vão esperou…

O silêncio escuta o segredo
Que conto incessantemente,
Dum amor próximo e distante
Que fala verdade, mas mente…

Nesse dia, claro e escuro,
Em cinza, do amor, ficou o fogo
E ainda hoje ao céu eu rogo,
Que deixe abater o muro,
Que entre nós se levantou
E a morrer, (sem morrer) me levou…

Quem roubou, minha flor
Teu suave perfume?
Quem desfolhou tuas pétalas,
Que encheu de negrume?
As tuas asas, quem as cortou?
Minha avezita, quem te pisou?

Terna saudade
Do meu jardim de afectos,
Quem despedaçou
As rancas dos abetos?

Em teus lábios, lenta, a vida se escoa…
Gélida palidez tua face cobre,
Por muito que o coração me doa,
No ar já ecoa, dos sinos o dobre…

Irene Costa
in “De Luz e de Sombra”
Antologia Poética

ANTOLOGIA POÉTICA

IRENE COSTA

O SECRETÁRIO DE ESTADO

Ameneiros
O SECRETÁRIO DE ESTADO

(pequena história para adormecer crianças irrequietas)

Face à rua do outro lado
vivia o poema interno
da varanda e do telhado
espreitava o movimento
dessa rua do Inverno.

Um Secretário de Estado
sempre em mau estado ia
vestia saia e casaco
conforme lhe competia
e colarinho engomado

Ia ele devagar
e muito compenetrado
a ninguém dava os bons dias
e a rua do outro lado
tinha um poema interino
que estava a ser vigiado
com cuidado Diamantino.

O Secretário de Estado
ordenara aos seus serviços
que não perdessem pitada
dos passos desse poema
na rua do outro lado.

Queriam ver se apanhavam
esse poema interino
nalguma falta maior
que lhe mudasse o destino
mas o poema era esperto
não se deixava apanhar
fugia pela fechadura
mudava o lado da rua
e nunca ficava perto

Quis a má sorte que um dia
o Secretário de Estado
ficasse de lumbalgia
e o poema dançou
na varanda e no telhado
na rua do outro lado
que era o lado donde via
tudo o que tinha passado.

E houve muita alegria
e os serviços pararam
e toda a gente se ria
com o poema contente
da rua ficar de frente
à casa do Secretário
que de nada se apercebia.

Vestia agora pijama
ficava o dia na cama
e fazer, nada podia.
Os serviços na Farmácia
às voltas com a receita
e o poema interino
a tratar da papelada
que de uma forma perfeita
elegesse outro regime
onde todo o secretário
prestasse contas à gente
conforme a lei define
em plena Democracia.

E da varanda ao telhado
o poema cantava o fado
e toda a malta dançava
nem perseguidos havia
na rua da Poesia
na rua do outro lado.

Fernando Morais
in "O Poema do outro lado"

CASA DA RASTEIRA É A SOMBRA

Pedro Charters d'Azevedo
CASA DA RASTEIRA É A SOMBRA

Nasceu e cresceu rasteira
Posição horizontal
A tentativa primeira
Foi um fiasco total
A árvore que a encantou
Permaneceu afastada
Ao seu corpo se agarrou
Sonhando ser respeitada
Mas o forte tronco astuto
Orgulhoso se ergueu
Seus galhos, folhas e frutos,
Lhes deram sinal de adeus.
Crescia triste e rasteira
Quando, para seu espanto,
Sorriu-lhe o botão à beira
Fugiu feliz do seu canto.
Foi crescendo orgulhosa
Pisando folhas e espinhos
Até sentir-se formosa
Para o encanto do vizinho.
O simples botão trigueiro
Deu-lhe amparo, carinho
Entregou-se por inteiro
Abrigou-a no seu ninho.
Ela engordava e crescia
Manhosa, engolia tudo
E com tanta cortesia
Cuidou do seu conteúdo.
Brilhava agora a rasteira
Conquistando multidões
No tronco de uma roseira
Colheu muitos corações.
Sempre maldosa e matreira
Entregou seu novo amigo
À dor, à mágoa e a tristeza
Roubou seu próprio abrigo.
Chorou o chão que a acolheu
O mesmo chão que a criou
Sorvendo o forte veneno
Percebendo o desamor.
Em resposta e com descaso
A rameira gargalhou
Não sabias por acaso
Que cobra fui e cobra sou…

Constância Nery
lido por Maria Antónia Ribeiro

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

TU NÃO SABES O VALOR QUE TENS!

José González Collado

TU NÃO SABES O VALOR QUE TENS!

Tu não sabes o valor que tens,
mas eles sabem, e tu sabes quem!
Eles sabem que tens bons braços e
boas mãos!

Tu não sabes o valor que tens,
mas eles sabem, e tu sabes quem!
Eles sabem que tens bom lombo;
(quanto mais largo melhor!)

Tu não sabes o valor que tens,
mas eles sabem, e tu sabes quem!
Eles sabem que tens boas pernas e pés!
Tudo isso eles sabem!
Usam-te para construírem um novo
mundo velho!

Tu não sabes o valor que tens,
mas eles sabem, e tu sabes quem!
Eles só vêem teus braços, tuas mãos,
tuas costas (quanto mais largas melhor)
tuas pernas e pés!
Fazem de ti um número,
um aparelho,
só isso lhes interessa!

Por mais evidente que seja,
por mais evidente que pareça,
eles não vêem nem contam com
a tua cabeça!
A tua cabeça não lhes interessa!

Tu não sabes o valor que tens, mas
bom seria que aprendesses a
não mostrares teus braços, tuas mãos,
tuas costas, pernas e pés, mas sim,
antes, mostrares, primeiro, o que és:
Mulher ou Homem, que outros não comem!

lido por Silvino Figueiredo e Eduardo Roseira

COIMBRA, SAUDADE

Luis Rebelo
COIMBRA, SAUDADE

O sol anda lá no céu
Tão contente atrás da lua,
Meu amor é só teu,
Minha vida é sempre tua.

Fui ao Mondego lavar
As penas das minhas mágoas,
Meu coração está a chorar,
Turvas ficaram as águas.

Coimbra velha cidade,
Recanto dos meus amores,
Trago presa a mim saudade,
De ti saem os doutores.

Ó penedo da saudade,
Saudade do meu encanto.
Coimbra nobre cidade,
Por isso te amo tanto.

Guitarras choram baixinho
As dores de uma paixão,
Na saudade de um carinho,
Coimbra tu és canção.

João Pessanha
Fevereiro/2009

O POEMA DO SONO

Carlos Dugos
O POEMA DO SONO

Inquietamente, o nosso sono demanda à pressa
os seus migratórios voos sobre mim.
O seu provisório ímpeto torna-se perceptível
e tudo, tudo se purifica,
se destila numa vitrina de seda,
dando lugar à
arquitectura dos sonhos.
Deixo escapulir de mim a luz,
como se de uma ternura se tratasse
e o escuro aparece,
solenemente como um intruso.
Na inocência despudorada,
ao idioma do dia seguinte.
Admirável e logicamente, sobreviveu apenas
um bocejo.

Ahhhhhhhhhhhhh!

Kim Berlusa

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

POEMA DA MATERNIDADE

José González Collado
POEMA DA MATERNIDADE

“Pode lá ser! Não quero! Não consinto!
Tudo em mim se revolta, a carne, o instinto,
a minha mocidade, o meu amor,
a minha vida em flor!
É mentira! É mentira!
Se o meu filho respira,
se o meu corpo consente,
a minha alma não quer!
Eu não quero ser mãe! Basta-me ser mulher!
Basta-me ser feliz!
E o meu instinto diz:
acabou-se, acabou-se! Agora, renuncia,
começa a tua noite, acabou-se o teu dia!
Tens vinte anos? Embora! A tua mocidade
perdeu chama e calor, perdeu a própria idade.
Resigna-te. És mulher. Foi Deus que assim o quis.
Já foste flor. Agora és só raiz.
Não pode ser! É injusta a minha sorte!
não quero dar a vida a quem me traz a morte.
Recuso-me a sofrer. A minha mocidade
exige-me horizonte e liberdade.
O meu destino há-de ter outro brilho!
Vida, quero viver! E morro, morro…

Filho!
Pode lá ser, Jesus! Eu não mereço tanto!
Filho da minha dor, eu já não choro, canto!
Porquê, Senhor,
há só uma palavra: amor, amor, amor!

Dai-me outra voz que nunca tenha dito
coisas más, coisas vis, e que saiba a Infinito.
Dai-me outro coração mais puro, mais profundo,
que o meu já se quebrou de encontro ao mundo.

Dai-me outro olhar que nunca tenha olhado,
que não tenha presente nem passado.
Dai-me outras mãos, que as minhas já tocaram
a vida e a morte, o bem e o mal, e já pecaram.

Filho, porque seria? Ao vires para mim,
mudaste num jardim
os espinhos da minha carne triste.
E como conseguiste
pintar de sol as horas mais sombrias?

Meu menino, dorme, dorme,
e deixa-me cantar
para afastar
a vida, esse papão enorme.

Vamos agora brincar?
Que brinquedo, meu menino?
O mar, o céu, esta rua?
Já te dei o meu destino,
posso bem dar-te a Lua.

Toma um navio, um cavalo,
uma estrela, o mar sem fundo.
Ainda achas pouco? Deixá-lo
Se quiseres, dou-te o mundo.

Porque não queres brincar?
Porque preferes chorar?...
Jesus! Que tem o meu filho?
Que vida estranha no brilho
do seu olhar?

Uma vida inquieta e obscura,
que eu não lhe dei,
anda a queimar-lhe a frescura.
Ainda hoje, meu filho, não sorriste!
e o teu olhar é triste…
cheiras a noite, a luto, a azebre…
Senhor, o meu filho tem febre,
o seu hálito queima, o seu olhar escalda!
Ele que ao respirar cheirava a cravo,
e tinha um olhar de estrela ou de esmeralda,
agora tem a boca um amargo travo
e cheira a noite, a luto, a azebre…
Senhor! O meu filho tem febre!
Tirai-me dos meus olhos céu e luz,
livrai-me da blasfémia… Deus, Jesus!
Pois se o meu filho morre, se agoniza,
porque há flores no chão que ele não pisa?
Se num coval o hei-de pôr, de rastos,
porque estarão tão alto os astros?
Senhor! Eu sou culpada, eu sei o que é pecado!
mas ele, meu Jesus, ainda não tem passado.
Para mim não há mal que não aceite,
mas ele, ainda tão perto do teu céu!
A sua vida era beber-me o leite…
No olhar com que me olhava tinha um véu
De neblinas, de névoas de outras vidas.

Às vezes, tinha as pálpebras descidas
e punha-se a chorar no meu regaço,
(com saudades, talvez, do céu, do espaço,)
O meu filho tem febre!
Porque andam a cantar pelos caminhos?
Porque há berços e ninhos?
Vida! O meu filho era belo,
o meu filho era forte!
Vida, que mãe és tu? Defende-me da morte!
Vida, Vida, Vida…

Louvado seja Deus! A morte foi-se embora,
já não tens febre agora!
O meu menino vive,
este menino, o meu, que só eu tive!
E o meu menino chora, e eu posso já cantar!
E o meu menino ri, e eu posso já chorar!
E o meu menino vive e toda a vida canta,
toda a terra é uma fresca e sonora garganta!
Que toda a gente o saiba e toda a terra o vejo!
Louvado seja Deus!
Louvado seja!"

Fernanda de Castro
lido por Fernanda Cardoso

TODOS OS HOMENS SÃO MARICAS QUANDO ESTÃO COM GRIPE

José González Collado
TODOS OS HOMENS SÃO MARICAS
QUANDO ESTÃO COM GRIPE

Pachos na testa
terço na mão
uma botija
chá de limão
zaragatoas
vinho com mel
três aspirinas
creme na pele
grito de medo
chamo a mulher
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer
mede-me a febre
olha-me a goela
cala os miúdos
fecha a janela
não quero canja
nem a salada
ai Lurdes Lurdes
não vales nada
se tu sonhasses
como me sinto
já vejo a morte
nunca te minto
já vejo o inferno
chamas diabos
anjos estranhos
cornos e rabos
vejo os demónios
nas suas danças
tigres sem listras
bodes de tranças
choros de coruja
risos de grilo
ai Lurdes Lurdes,
que foi aquilo
não é a chuva
no meu postigo
fica comigo
não é o vento
a cirandar
nem são as vozes
que vêm do mar
não é o pingo
de uma torneira
põe-me a santinha
à cabeceira
compõe-me a colcha
fala ao prior,
pousa o Jesus
no cobertor
chama o doutor
passa a chamada
ai Lurdes Lurdes
nem dás por nada
faz-me tisanas
e pão de ló
não te levantes
que fico só
aqui sozinho
a apodrecer
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer.

António Lobo Antunes
lido por Eduardo Roseira

MEU PORTO

Fernando Gomes
MEU PORTO

Meu Porto, és o cordão umbilical,
Bem preso à raiz do meu ser;
És a minha linda cidade, a capital,
Aqui existo, aqui quero viver!

Mesmo que a neblina ainda percorra
Os limites deste infinito,
Que haja alguém a nascer ou que morra,
Serás o meu brasão e o meu grito.

Meu Porto, tens o velho casario
Coberto de dores adormecidas
E na foz desse teu lindo rio
Há lágrimas e dores já ressequidas.

Prisioneiro deste tempo que avança,
Trago em mim as franjas da cultura,
A fé intensa e no peito a esperança
Do raiar do sol à noite escura.

Jorge Vieira
in “Manhãs Inquietas”
lido por Pilar Veiga

POR QUE TEMPO NOVO CHAMAIS?

Victor Silva Barros
POR QUE TEMPO NOVO CHAMAIS?

Por que chamais ano novo
ao tempo que é tão velho,
como tão velho é o fogo
e a água fazer de espelho?

O tempo por nós não passa,
nós é que por ele passamos
e nele deixamos marca
no tempo que lhe gastamos!

Mas se, como diz alguém,
o tempo tem sua idade,
então, meditando bem;
Lar da Terceira idade
é a Terra, na idade que tem,
a rodar na eternidade!

Mas, pergunto eu, de novo:
porquê
chamar novo ao velho,
se tão velho como fogo
e a água como espelho?

É que tempo não tem tempo,
porque tempo não nasceu,
mas sabemos todo o tempo
que cada um tempo viveu!

Silvino Figueiredo

3.

José González Collado
3.

Ouvi os teus passos
do outro lado das árvores
lavei o linho
e temperei o anho

Na cama puz a colcha da alegria
que nas janelas anuncia a festa
no meu olhar todas as cores da aurora
na boca o coração de uma cantiga

Chegaste devagar. Como se o tempo
fosse um menino de cabelos doces

Disseste-me mulher disseste lua
buganvília alfazema cachoeira
disseste água do mar
disseste lava

E um rio atravessou a nossa casa
um pássaro fez ninho na almofada
o fogo amotinou-se na lareira
sobre a mesa nasceu
uma roseira brava.

Rosa Lobato Faria
lido por Lourdes dos Anjos

REUNIÃO DO BURLESCO

José González Collado
REUNIÃO DO BURLESCO

Numa usual reunião familiar
o patriarca no seu tom de sabedor,
falou de mil e uma coisas importantes
e d’entre elas falou de sexo e de amor.

Dizia com a voz colocada que:
“-O sexo, é uma coisa muito má!...”
Contudo ia galando a curvilínea criada,
enquanto esta lhe servia um chá.

Mas logo uma filha encantadora…
daquelas de bom ar e de bom tom,
disse com voz arrebatadora:
“-O Sexo é uma delícia, é mais que bom!”

E nisto, ouviu-se um suspiro
“-Ohohohohoh!!!...
Sexo, sexo, oh! pobre de mim…”
E toda a gente viu,
que num canto sentado,
era o avô, quem suspirava assim!

KIM BERLUSA

GAVETAS DAS MEMÓRIAS

Maria Carmen Calviño
GAVETAS DAS MEMÓRIAS

Memórias são fragmentos
Em acontecimentos vividos
Diluíveis com os tempos
Secretos desinibidos.

Como gotas tão sensíveis
Deslizando na face nua
Sentimentos imperdíveis
Na face que é só tua.

Para os não perder de vista
Arranjei essa gaveta
Tão íntimos primeira lista
São memórias são faceta.

O cérebro hermético fechado
Como caixa de surpresas
Tem tudo bem controlado
Nas certezas ou incertezas

No percurso da vida
As memórias vão aparecendo
Lapsos da própria partida
Tudo vai acontecendo.

Princípio meio e fim
Tem sempre o sentimento
Ilha de encanto jardim
Memórias são pensamentos.

João Pessanha
5/12/10

PERDÃO

José González Collado
PERDÃO

Senhor, ao ver-te aí,
Diante de mim,
Pregado na madeira
Nesse calvário
Feito pelos homens,
Pergunto-me
Terá valido a pena
O sofrimento
Para a redenção
Disseste tu,
Do mundo inteiro?
Sempre que olho
Os teus olhos tristes
Reflectindo sem dúvida
Tanta dor,
Peço perdão
Por mim,
E tantos outros
Que se não apercebem
E passam indiferentes
A esta magnifica
Lição de amor!

Maria Antónia Ribeiro

AMO AS PALAVRAS

Nunes Amaral
AMO AS PALAVRAS

Amo as palavras.
Não, não amo as palavras,
amo os símbolos.

A Lua é talvez um planeta,
mas a lua que eu amo,
nimbada de luar,
é a lua inventada,
algo de branco, puro,
inacessível,
algo para cantar
quando o silêncio, a noite, a solidão
são lágrimas de sangue que o Poeta
se recusa a chorar.

Fernanda de Castro
in “Obras Completas Poesia II”
lido por Pilar Veiga

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Zé-Ninguém

José González Collado
ZÉ-NÍNGUEM

de olhos cerrados
vêem o futuro
que não existe.

de braços cruzados
acolhem a esperança
que não chega.

de corpos caídos
dormem a fadiga
do cansaço que não têm.

quando chegam a casa
lavam o suor
que lhes cai pelo corpo
devido ao esforço
da labuta de mais um dia

sem trabalho.
à noitinha,
de barriga vazia
em reza agradecem
o pão-nosso de cada dia
que ignoram quando chega.

quem são eles?
são quem são
sem serem alguém.
mistura do sim e do não
por serem:

os “zé-ninguém.”

Eduardo Roseira
In: "A Colheita Íntima"

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

TOADA DE PORTALEGRE

Carlos Godinho
TOADA DE PORTALEGRE
                      ao FRANCISCO BUGALHO

Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Morei numa casa velha,
Velha, grande, tosca e bela,
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela…

Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- Quis-lhe bem, como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como ao do meu aconchego.

Toda aberta ao sol que abrasa,
Ao frio que tolhe, gela,
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
De redor da minha casa,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Era uma bela varanda,
Naquela bela janela!

Lá num craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus…,
E, louvado seja Deus!,
Eis que uma folha miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a cepa cansada
Que dava cravos sem vida
Naquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela…

E era então que sucedia
Que em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Aos pés lá da casa velha
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- A minha acácia crescia.

Vento soão!, obrigado
Pela doce companhia
Que em teu hálito empestado,
Sem eu sonhar, me chegava!
E a cada raminho novo
Que a tenra acácia deitava,
Será loucura!..., mas era
Uma alegria
Na longa e negra apatia
Daquela miséria extrema
Em que eu vivia,
E vivera,
Como se fizera um poema,
Ou se um filho me nascera.

José Régio

POETAS, NÃO SE CALEM!

José González Collado
POETAS, NÃO SE CALEM!

Não calem as vozes dos nossos poetas
Nem rasguem as folhas dos seus poemas;
Não nos castiguem com mágoas secretas,
Para denegrir os nossos lemas.

Essas vozes trazem belas mensagens
Que a memória ousa repetir;
Não são inúteis nem fúteis miragens
- Não as queiram subtrair!

Deixem os poetas serem os peregrinos
Da verdade, da revolta e da paixão;
Façam a vossa festa, deixem tocar os sinos,
Ao ritmo cadenciado do coração.

E se as vozes dos poetas se calarem,
Por essas que as quiseram denegrir,
Outras bocas impacientes, se falarem,
Farão outros mais poetas existir.

Jorge Vieira
in “Manhãs Inquietas”

25 DE ABRIL

Carlos Alberto Santos
25 DE ABRIL

E tu ó meu povo, meu povo sagrado
te digo
com lágrimas no rosto, escorrendo pelo peito
com este geito
que tenho de chorar de emoção
que fizeste a maior, a mais bela e forte
a mais sedutora e poética
das jornadas da vida e do amor
contra a morte
Que fizeste Abril quando
já nenhum outro povo pensava
que Maio pudesse ressuscitar.
Tu fizeste um novo Maio
uma Comuna dos sem esperança
vingaste o Ultimatum, vingaste Soeiro, vingaste o Tarrafal
trouxeste Portugal
para as páginas do mundo
fizeste o país novo surgir
do restolho das lixeiras mundanas
e trouxeste o brilho que dos olhares tinha fugido
e o sangue lusitano voltou a correr-te nas veias
e mil sóis atómicos na poesia dos caminhos
fizeste sentir.
Da aldeia à capital alimentaste o fogo sacro
milhentas vezes repetido
a plenos pulmões
em hossanas que acordaram as pedras mais antigas
que despertaram os palácios e as retretes públicas
e atroaram os ares
fazendo resplandecer os vidros foscos das janelas foscas
das persianas cerradas há séculos.

E tu, ó Povo, meu povo eleito
para escrever enfim com o suor do trabalho
a semente da palavra
fincaste no duro chão a bandeira que já ninguém brandia
e com ela te vestiste e com ela viveste e com ela dormiste
no intervalo de cada jornada
apesar dos broncos de gabinete
dos medíocres de meia tijela
dos enterrados vivos na lama dos chefes
dos que seguram com raiva o livro de cheques.

Tu, que nem sabes
nem mesmo hoje sabes
tudo o que fizeste, tudo o que pudeste, tudo o que nos deste.
Tu a quem jamais foi dito
como sempre acontece nas páginas da História
quando se superam os factos e se atinge a morte
com a força da vida,
que tinhas feito ABRIL ao fazer-te adulto
que tinhas ganho Abril ao tornar-te culto
que tinhas triunfado do teu fado oculto
e que agora surgias na manhã do nevoeiro último
como um raio divino que tudo esclarece
como a aurora do mundo cujo amor enobrece
tão vitorioso que nem deste por isso
tão natural foi Abril para ti
ao dá-lo assim a tudo o que na Terra há
de vivo e subtil.

Fernando Morais
in "O Poeta Escondido"

PALHAÇO

José González Collado
PALHAÇO

É arte muito complicada
Saber ou fazer rir,
Sensibilidade concentrada
Sua profissão, divertir.

A vida dele dia a dia,
É igual a qualquer pessoa.
À noite, ele dá magia,
Sua alma, essa, voa.

Transmite tanta alegria
Quando entra em acção.
A música é companhia,
Serrote, clarinete, acordeão.

Os seus números têm graça,
Fazem rir sempre as crianças,
São timbre da sua raça
Consubstanciada nas danças.

Ele ri, canta e chora
É sensível ao amor
Presente em qualquer hora
Na alegria e na dor.

O traje é encantador,
A máscara, diversão
Tem fleuma e cantor,
Palhaço é emoção

JOÃO PESSANHA
10/02/2010

AMOR INCONDICIONAL

Carlos Godinho
AMOR INCONDICIONAL

Amo incondicional
É como sol que aquece
O corpo e a alma.
Dá vida e esplendor
Sem nada pedir em troca.
É como chuva benéfica
Que permite a seiva às plantas
Para que cresçam,
Se transformem
Em flores, frutos e pão,
Sem nada em troca pedir.
É como jardim florido
Que oferece inequivocamente
Beleza e alegria
Ao triste olhar daqueles
Que precisam de ver a vida
Mais colorida.
É como luar benfazejo
Que ilumina a noite escura.
Dá brilho às sombras
Inebria os espíritos,
Inspira poetas
Ao aspergir luz
Sem nada receber!

lido por Constância Nery
Mª Antónia Ribeiro
in “Inquietudes”

PINTORES QUE PINTAM POR DENTRO

Carlos Dugos

PINTORES QUE PINTAM POR DENTRO

Pintores que pintam por dentro

Quando faltam pincéis!
Quando na tinta não há cor!
Quando tudo é preto!
Quando se esvai a inspiração!
Quando a vida nos trama
É quando nos sentimos em ascensação,
E sem paleta,
Sem pincéis,
Sem cores,
Pinta-se, com os dedos da mão,
O sentir da alma na ardência
e no esfriamento dos amores!

Quando a obra nasce,
Sob luminosa luz,
Reina a calma,
O contentamento,
Por nos termos pintado por dentro!

Silvino Figueiredo
(O Figas de Saint de lá Buraque)

VIVER NAS HORAS MORTAS

José González Collado
VIVER NAS HORAS MORTAS

É nas horas absortas,
as tais ditas horas mortas
que consigo viver mais.
É quando zarpo do cais,
tripulando o pensamento,
no revolto mar do tempo,
tempo que nunca é demais.

Procuro,
na linha do horizonte,
a tal seta que me aponte
qual o rumo a tomar.
Descubro-o no navegar do divagar.
Aguaceiros de palavras,
ventos de prosas e rimas,
fustigam-me
o barco-alma,
ó tempestades divinas.
E na ilha do instante,
Alagam-se em luz,
todas as janelas.
Abrem-se em êxtase todas as portas,
para entrar o meu viver,
nas tais ditas horas mortas.

Kim Berlusa

domingo, 23 de janeiro de 2011

2011, Janeiro, 15

Fernando Morais a declamar

João Pessanha declama um dos seus poemas

Irene Costa sob o olhar atento de Jorge Vieira
Carlos Andrade e o seu violão
Jorge Vieira a coordenar os poetas

Constância Nery e Jorge Vieira a dar início à sessão de poesia
Constância Nery fazendo uma breve introdução antes da sessão 

15 de Janeiro de 2011

Augusto Nunes declama com Jorge Vieira a seu lado
Pilar Veiga declama um poema de Jorge Vieira


Pilar Veiga, a seu lado Jorge Vieira, e atrás Miguel Leitão
e Cristina Pessoa
Miguel Leitão a declamar um dos seus poemas

Lourdes dos Anjos declama entusiasticamente
Maria Antónia Ribeiro a declamar
Silvino Figueiredo "O Fisgas de Saint de lá Buraque"
Eduardo Rosei a encenar o poema "Todos os Homens são maricas quando
estão com gripe" de António Lobo Antunes
Eduardo Roseira, João Pessanha e Jorge Vieira
A garra de Lourdes dos Anjos