sexta-feira, 29 de abril de 2011

A VENDA DOS BOIS

A VENDA DOS BOIS

I

O velho, entrara triste: a pé, junto ao lar,
Estava a companheira, absorta, a meditar.

- Mulher, a fé perdi, falei a toda a gente,
E ninguém me valeu! – E ela, com voz tremente:
            “Dize-me: e o brasileiro?”
            - Esse foi o primeiro.
Bati, fui ter com ele à casa do jantar.
Expliquei-lhe ao que vinha… entrou a gracejar:
“Com que então você quer livrar o seu rapaz?...
            Vizinho, tão mal faz!
Deixe-me ir cada qual à sorte e ao seu destino!
Seu filho é um mocetão valente e muito digno
De servir o país…”

                        E descascava um fruto…
Desatei a chorar… “Homem, não seja bruto!
A farda não é morte…”
                        E disse mais e mais
- Cousas de quem não sabe a dor de uns tristes pais!
E, enquanto o velho punha a vista lacrimosa
Nos brasidos, a voz da mãe, aflita e ansiosa,
Perguntou: “e o prior?”
                        - Negou, negou também –
            A angustiada mãe
Retorcia o avental com mão febril, ardente.

No silêncio da noite, então, distintamente,
            Um profundo mugido,
            Triste como um gemido,
Longo e longo chorou no lúgubre aposento…
            Entreolharam-se os dois…
Nisto, acode à mulher um estranho pensamento…
            “Temos ainda os bois!
Vendámo-los!” E ria…
                                   O entristecido olhar
Do velho lavrador de lágrimas nublou-se.
            E entrou a suspirar:
- Uns pobres animais, a quem só mingua a fala
Para serem cristãos! Parece que me estala
No peito o coração… Vender os infelizes!...
Pois seja assim, mulher! Farei o que tu dizes…


II

            Vinha rompendo a aurora
Risonha, virginal, feliz como um noivado.
Das aves à compita, o trémulo trinado,
Entre as balsas, gorgeava. Era em descanso a nora.

No entanto, o lavrador, tremente e vacilante
Com um ladrão nocturno, ou como um namorado,
Abriu, de par em par, as portas do curral.
            Súbito, nesse instante
Volveram para a entrada os bois o olhar leal,
            Bondoso, humano e franco.
            Que festiva alegria
O frequente menear das caudas traduzia
Resvalando em seu forte e musculoso flanco!

            O velho, antigamente,
Tinha sempre, ao chegar, uma palavra amiga,
            Um dito, uma cantiga,
A que sempre um mugido alegre respondia.
Mas, naquela manhã, silenciosamente,
            Fatal como o dever,
O velho foi buscar, a um canto, uma correia,
             E lançou-a a tremer
Dos anafados bois, às pontas recurvadas.

E saíram os três.
            Nos côncavos da aldeia
Choviam as canções das aves namoradas.


III

No cais, há o moirejar das fábricas ruidoso.
            Feroz e discordante,
Junta-se à voz humana, arfar estrepidante
Dos valentes pulmões das máquinas inglesas.
            Em novelos, ansioso,
Golfam as chaminés o denso e o escuro fumo
            Que ascende e toma o rumo
Do claro e vasto azul, vazio de tristezas.

Como um cetáceo ingente, encarvoado e feio,
            Um enorme vapor
            Por outros, avulta em meio.
Em seu largo convés, a marinhagem canta
E, na faina febril; as âncoras levanta.

Naquela espessa nau, um velho, um lavrador,
Entre a faina do cais, fita o dolente olhar…
é que ali dentro, vão os bois, o seu amor…
            E àquela mágoa intensa
            E inenarrável dor
Responde a descuidosa e gélida indiferença
Dos Homens, e dos Céus, e do profundo Mar…

Gonçalves Crespo (1846-1883)
 lido por Fernanda Cardoso

2 comentários:

  1. A nossa Nandinha a dizer qualquer poema ...é cá uma doçura! Ai, Nandinha tenho uma "invejidade" de TU...

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