sexta-feira, 2 de julho de 2010

MARIA VIRGÍNIA MONTEIRO filha de OLIVEIRA GUERRA


Maria Virgínia Guerra é filha do saudoso Oliveira Guerra, falecido no início da década de sessenta, que desenvolveu um projecto Luso-Galaico, de que foi resultado a revista "Céltica" que fundou e dirigiu nesta cidade.
Dela disse a poetisa Olinda Sol: «Li com prazer o livro de poemas de Maria Virgínia Monteiro “As Palavras, Este Canto, Este Rio”.
É um livro de poesia despretensioso e leve que tanto pode ser de leitura sentida, como cantada, tal é a sua musicalidade.
A poesia de Maria Virgínia é intimista que absorve sentimento e emoções e os larga depois para o mundo em métrica poética. São versos para a fazer renascer, servir razões sem senãos nem porquês, que não a deixam apagar a chama que ainda bruxuleia inquieta.
As palavras fluem e são um dicionário de sentimentos.
A poeta lê o seu eu e outros eus dando ênfase à profundidade com que olha a vida.
As lembranças do passado e a saudade estão bem presentes em versos ritmados e sussurrantes e pássaros que voam de saudade memórias de rostos, de ti lembranças.
É uma poesia também nostálgica:

“onde ecoa
saudade de pessoas e coisas”

“eu e tu, nenhum direito nos assiste
a não ser o direito de esquecer
olhando-nos nos olhos de não ver”

“Paremos na tarde
como se as mãos a tarde nos juntasse
e nas palavras das manhãs
ainda brilhasse
de um tempo já perdido
a hora intensa”

“ou vendo-te partir como partiste”

O romantismo centra-se no embalo de paisagens a dois, com pássaros, mar, sonhos, azuis mágicos, sonho de paixão.
Repete sucessivamente as palavras: pássaros, sonho, mar, barcos, silêncio, corpo, paixão, amor, coração.
As perdas encontram-se no meio dos poemas para lhes dar vida adensando gritos, copos adormecidos, partidas inesperadas adeus sempre neste gosto das lembranças com saudade revivente.
É uma poesia que emana vida embora, por vezes, sofrida de passos sem razão, e nuvens estéreis de varão, caminhadas sem riso.
Percorre este livro um lirismo bom transportado em doçura e navios misturados de ilusões.
A sua poesia retrata paisagem e bichos:

“Na calma silente
da praia sem ondas
o barco encalhado
nas rochas dormidas”
“Onde uma gaivota
cinzenta e esquiva
de asa ferida de asas quebrada”

“O mar é mesmo azul,
ou negro, ou cinzento”

As buscas são permanentes para fazer renascer no presente Maios sentidos e acabar de vez com pensamentos negativos de não valer a pena dormir para acordar de novo, ou ouvir pássaros de vozes perdidas, que gritam cantos mudos ou feridas nos pés doridos de andar.
As perdas estão lá escritas sob as fontes, as águas, os rios, nos lentos dias vazios.
As mágoas batem também à porta nas asas feridas, mas asas quebradas, em pássaros perseguidos, no sufoco de gritos reprimidos. Mas sobretudo esta poesia é para ser partilhada com quem concorda com a opinião de Eduardo Lourenço quando em entrevista afirma que a poesia é divina.
Só um ser atento às coisas do homem e do mundo é capaz de se aventurar nesta arte maior que é a de criar um poema.»

OLIVEIRA GUERRA

Manuel de Oliveira Guerra nasceu em Oliveira de Azeméis, a 24 de Agosto de 1905. O pai, Augusto de Oliveira Guerra, natural da Marinha Grande, um especialista nas artes do vidro, há-de ficar para sempre ligado à história da indústria vidreira em Oliveira de Azeméis.
Após haver frequentado a Escola do Conde de Ferreira, e quando, aos 11 anos, se embrenhava já na indústria do vidro, atingiu-o o chamado "mal de Pott", uma das várias manifestações da tuberculose óssea que o levou ao Sanatório Marítimo do Norte, em Francelos, onde permaneceu durante nove anos. Neste estabelecimento, criado pelo sábio Dr. Ferreira Alves, Oliveira Guerra entregou-se à leitura e ao estudo, aproveitando as lições de uma professora que lhe procurava minorar o sofrimento, completando então, no Liceu de Aveiro, o 1.º ciclo, única habilitação académica oficial. Iniciando-se na escrita, colabora no "Girassol" - boletim do sanatório - e quando, em 5 de Outubro de 1922, o "Correio de Azeméis" sai dos prelos pela mão de Bento Landureza, aparece entre os seus primeiros colaboradores, contando apenas 17 anos.
Dado como curado, em 1925, regressa ao fabrico do vidro, dando à estampa, em 1932, a sua primeira obra - "Padre Nosso" - que originou grande polémica, mas que se esgotou em escassos dias. O pai chama-o ao gabinete e aplica-lhe grave raspanete, o que levou o autor a suspender a publicação de "Avé Maria" e a abandonar a carreira literária.
Após um intervalo de quase trinta anos, Manuel Guerra reedita "Padre Nosso", publica, finalmente, "Avé Maria", mais tarde "Caminho Longo", "Algemas" e "Coisas Desta Negra Vida".
Entrega-se apaixonadamente no estreitamente das relações do Norte com a Galiza, fazendo publicar os "Cadernos de Estudos Galaico - Portugueses", trabalho interrompido pela morte precoce em Miragaia, aos 58 anos de idade, a 4 de Junho de 1964. O referido incidente familiar terá feito com que repouse em Espinho, e não em Oliveira de Azeméis, junto dos seus maiores.

A opinião de Antonieta Silva

Torna-se para mim um pouco difícil emitir opinião acerca de sonetos, pois a métrica e a rima impedem, por vezes, a liberdade do poeta, de jogar com as palavras e sentimentos.
Deixo, no entanto, a nota, que foi uma agradável surpresa ler a Antologia de sonetos do poeta Manuel de Oliveira Guerra.
E o que mais me surpreendeu foi o rigor com que descreve tipos da 1ª metade do século XX, o quotidiano difícil vivido por trabalhadores, as doenças de época inclusive a tuberculose, os fracos salários, o desemprego, a vida farta do clero, a hipocrisia da sua fé, a soberba dos ricos, o sofrimento dos pobres.

Dos Curas e suas atitudes diz ele:

“Olha, mulher, eu já nem sei se sinto
a caridade, que Jesus um dia
pregou por este mundo… (o vinho tinto
que me deste hoje, é muito bom, Maria)”

“O senhor padre chega sorridente
acompanhado pelo sacristão
que traz a cruz de Deus solenemente
e a dá a beijar com muita devoção”…

e enquanto fala, sério, compungido

“E o senhor Padre fica comovido
A libra que há na salva – o seu folar
enquanto lhes falava (dando um jeito)
à cruz de pedraria que em seu jeito
Fulgia com rebrilho nunca visto”

“e; vai muitas vezes, findo o seu serão
forjando absorto, um cândido sermão
vai, sem pensar, pró quarto de Maria”

“Que desde há muito estava amancebado
de casa e pucarinho, cum … coirão.
e àquele que pratica tal pecado
a Santa Igreja nega a absolvição”

Fala na sua poesia das vocações forçadas. Na época a miséria era tanta que os pais induziam os filhos a tornar-se padres.

“ – Senhor Abade: “Peço-lhe a fineza
de me dizer se faço bem mandando
o meu rapaz para padre … A vida pesa
e no futuro dele vou pensando”

“Por compaixão dizei-me o que farei
para salvar! Por compaixão dizei!...
- E quantas missas podes pagar?

Dos operários diz:

Gastaram toda a féria na merenda
- um farnel farto de galinha assada
e vinho do melhor, do da Bairrada
ainda ficaram a dever na venda”

Critica na sua obra atitudes da burguesia e seus criados!

“E um servo de libré lustrosa e fina
pra gáudio do menino e de menina
enxota a pontapé e bofetão
um garotete que “malandro ousara”
para espreitar aquela vida cara
meter o nariz sujo no portão”

“E toda a gente, triste retirou
pensando que quem tanto cá deixou
está no céu, por certo, descansado”

“Quando tu passas de olhos repisados
pelo passeio longo do Rossio
olham-te muito os dândis perfumados
que andam à espera que lhes morra um tio”

“E os indigentes levam, pressurosos
as dádivas dos ricos generosos
que compram deste modo a salvação”

Apresenta a nobreza falida

“Vem dos Cabrais, Soares Albergaria e
Coutos Lencastres, Magalhães e Serras
nada o seu sangue deve à burguesia
e muito menos a plebeus e a perras
Infelizmente agora empobrecido
anda por tascas procurando o olvido
com azeitonas, tinto e salpicão”

Mostra na sua poesia preocupações sociais

“é um crime, indigno, crede, de perdão
- Vós mandais vir os filhos e afinal
não tendes para lhes dar calor nem pão”

Nos seus poemas perpassa uma voz revolucionária, do contra

“Se sete desejo de que toda a gente
leve da vida negra um ar contente
de quem não conheceu nunca um calvário
é criminoso anelo sem razão
que deve conduzir-me a uma prisão
prendam-me já: sou revolucionário”

Critica ainda atitudes sociais:

“Eu vejo que ninguém de mim se abrira
senão para levar do que eu tiver
alguma coisa mesmo que eu não queira
porque de nada vale o meu querer”

Retrata com as suas palavras de poeta quadras quotidianas do inicio do séc. XX

“À feiticeira luz desta manhã
reboca o macho o carro bem pejado
com a hortaliça túrgida e louçã
que vem do campo e vai para o mercado”

“As lavadeiras batem com vigor
as roupas sujas sobre a pedra dura
e as roupas ganham, pouco a pouco, alvara
enquanto as águas vão tomando cor”

É, Manuel Guerra, além de intervencionista um homem que brinca liricamente com as palavras:

“daquela arquitectura irregular
que tem varandas cheias de luar
e cravos perfumando as cercanias”

“No meu lindo cantinho a marulhar
há uma levada pura de cristal
que desliza por entre um salgueiral,
correndo brandamente a soluçar”

“De quando em quando vibra e tremulina
um riso de criança ao pé do bar
e duma jarra tomba a chuva fina
de pétalas mais brancas que o luar”

Ficou-me de Manuel Guerra uma poesia que retrata o inicio do século XX com as suas discrepâncias sócias, a pobreza do operariado e dos agricultores, a hipocrisia dos Curas, a insensibilidade dos ricos, a doença terrível – a tuberculose, que dizimou milhares de portugueses, um país sem potencial porque não investia na educação e um poeta que sofria com toda esta situação e para que ficasse como prova registou sofridamente nos seus versos o retrato de um país pequeno.

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