sábado, 19 de março de 2011

POESIA NA GALERIA - 19 de Março de 2011

(da esquerda para a direita) Fernando Morais, Lourdes Martins, Teresa Gonçalves,
Leonor Reis, Silvino Figueiredo
Lourdes dos Anjos declama


Fernanda Cardoso



Teresa Gonçalves


João Pessanha

Maria Augusta Neves
Ana Almeida Santos
O Pintor José González Collado faz um breve discurso

Carlos Andrade e Fernando Morais


sexta-feira, 18 de março de 2011

FEIRA DA MINHA INFÂNCIA

José González Collado

FEIRA DA MINHA INFÂNCIA

A feira da gente da minha aldeia
era à segunda-feira!
O Domingo prolongava-se
num ritual atarefado –
- separar a roupa da arca:
saia de merino preto,
a blusa de chita florida,
o lenço verde estampado,
afagando o cabelo negro
apanhado com ganchos de osso
dourados,
a chinela de tacão
e uma saca de pano bordada
à mão!
O dinheiro não chegava
para a carreira,
ia-se a pé,
em ranchadas
de belas candidatas a namoradas!
Pelo caminho
cantava-se ao desafio
canções de trabalho
suadas!
Comprava-se o que as leiras
não davam:
o bacorinho, o vitelinho
as fazendas para o bragal,
o enxoval de mancebo
que ia a sortes
naquele ano,
os ouros
para as moças casadoiras,
os docinhos de amor
repartidos ao serão!
Os cheiros inebriavam:
fruta, melaço,
o borbulhar da solha frita,
as ervas de cheiro
escolhidas a dedo,
os chás de camomila e cidreira!
Uma leve troca de olhos
anunciava
companhia para a caminhada,
o rapaz com grande lábia
declarava-se
com frases muito alinhadas!
O fim da festa era triste
e cansado
terminado o sonho
que levou uma semana inteira
a encenar!
Maria Olinda Sol

PEQUENO-ALMOÇO DE DOMINGO

José González Collado

PEQUENO-ALMOÇO DE DOMINGO

O Domingo era de amoras,
dispostas por sobre a mesa,
numa geleia gelada,
barrando a fatia escura,
do pão cozido de madrugada!
O leite quente aguçava
a vontade de provar
aquela brancura perfumada
com canela e
pedaços de maça!
O queijo salgado de cabra
rescendia,
em tosta estaladiça,
preparando o paladar
para os figos
pingo de mel,
servidos com o orvalho
da manhã!
O cheiro a café era intenso
caindo de um saco surreal
e as dores morriam
no repasto matinal!
E a família reunida
deitada nesta ternura
fazia parar o tempo
e dava graças à ventura
de poder saborear
esta refeição divinal!

Maria Olinda Sol

quarta-feira, 16 de março de 2011

Não sei se isto é amor

José González Collado
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te, não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno…
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo…
Eu não sei que mudança a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

                                           Camilo Pessanha,
                                                            in "Clepsidra"
                                                        lido por Miguel Leitão

COMO A ROCHA

José González Collado

COMO A ROCHA

Meu velho Amigo Serrano
feito de granizo e de vento,
e de sol doirado
e quente
dos dias bons:

Nunca te dei um abraço.
gesto que não tem a ver
contigo,
com tua aparência
teu porte,
e tua forma de ser.

És rude,
és rijo e és forte,
esculpido em pedra dura
e firme,
como a amizade tem de ser.

                 E a tua é.

Meu Amigo Serrano:
O teu braço é força de aço,
pode sempre,
pode mais
e tu podes mais ainda
que o teu braço.

                Com ele eu posso contar
                e contigo.

E sob esse aspecto tão rude
há a arca do teu peito
onde guardas os segredos
e os teus filhos
e os amigos
e todos aqueles de quem gostas.

E lá no meio de tudo,
desassossegado,
descomposto
e com ritmo descompassado,
escondes um coração
de mel,
ou de manteiga,
podre de tanta afeição.

Meu Amigo:
Perdoa que te chame rude.
Olha,
vou deixar-te este segredo:

                   Estar contigo
                   tem grude
                   e as horas passam depressa.

                              Miguel Leitão

CONTINUIDADE

José González Collado
CONTINUIDADE

Sonha a gente projectos e propostas,
De um dia fazer algo e ser alguém
Mas o tempo demora nas respostas,
E como tarda a hora desejada,
O dia sonhado nunca vem!

Vão-se os dias e os sonhos vão morrendo,
O tempo vai ganhando em frustrações;
Com os anos, a vida vai perdendo,
Num desgaste constante à própria alma,
O pouco que ficou duma ilusão!

Mas, de seguida, o sonho é renovado,
Abrindo outros caminhos, novos trilhos,
Mistura de presente e de passado,
Com estrelas na senda do futuro,
E outros sonhos – que são dos nossos filhos!

Moreira da Silva
in "Claro-Escuro" - Poesia de esperança e desalento - Gaia, 1985
lido por Eduardo Roseira

CREPÚSCULOS

José González Collado
CREPÚSCULOS

Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d’ais comprimidos…
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados,

Sentem-se espasmos, agonias d’ave,
Inapreensíveis, mínimos, serenas…
- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos brancas d’anemia…
Os teus olhos tão meigos de tristeza…
- É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.

                                                   Camilo Pessanha
                                                            in Clepsidra
                                                   Miguel Leitão

COMO O LIMO

José González Collado
COMO O LIMO

Meu Amigo Varino,
que me escapas pelos dedos
quando te pretendo agarrar.

Como o peixe, como a enguia, como o limo
tens jeitos de te escapulir,
de te soltar
dos meus braços,
de escorregar
do meu peito
quando te quero cingir.

Meu Amigo Varino:
és como a água corrente,
que a cantar
desde a nascente
se oferece à nossa boca.

A que agora me convida
e em que mergulho a taça
é já outra,
é já diferente!

Tinham os Gregos por certo
que não bebemos duas vezes
da mesma água de um rio.
A que há pouco se me ofereceu,
aqui perto,
já não é a desta taça.

Já lá vai,
mas muito à frente,
a sorrir e a saltitar,
à procura de outras taças
para saciar novas sedes
e refrescar
nova gente.

Assim contigo,
meu Varino Amigo.

Já bebi a minha dose.
A sede volta a apertar
e a taça está vazia!

Com que água irei enchê-la?

Miguel Leitão

sábado, 12 de março de 2011

Canto à Vida Peregrina

José González Collado




Para todos que amam a vida
Que não se lembram de terem optado por nascer
Mas que não desejam a morte desde que se descobriram vivos!
Valdecy Alves

Vi o mendigo feliz
No sinal fatal do cruzamento da rua...
Li que o milionário infeliz
Matou sua mulher depois matou-se!
No mesmo quarto de motel
Onde fizeram amor! Amor?

Vi o cantor de invejável sucesso universal
Em plena decadência criativa e moral
Devorado pela mídia cancerígena que o criou...

Vi o sertanejo nos confins do interior atrasado
Entre mosquitos famintos, espinhos dolorosos
E calor insuportável...
Feliz sem os dentes
Ao lado da mulher desdentada
E seus dez filhos desnutridos e mal vestidos...

Soube da sexy atriz e símbolo de sensualidade
Deusa de tantos desejos e onanismos
Que se jogou do prédio
Completamente drogada
Voando para o seio da morte
Sem qualquer eficácia no arrependimento
Sem qualquer possibilidade de recurso...

Ouvi falar de um deficiente nanico, gay...
Negro, gordo e perneta
Que ao chegar a um bar
Espantava o tédio e parecia
Trazer consigo a alegria máxima
Que despertava a máxima alegria
Em todos que o rodeavam...

Sei do cego sábio e repentista
Que se tornou lenda
Cantando e declamando suas poesias...

Muitas vezes vi a prostituta da ponta noturna da rua
Que simbolizava todo o encanto, beleza e luxúria
Jamais vividas!
Que cobrava pelo prazer passageiro
Porém de graça espalhava contagiante felicidade
Como o sol raios de luz
Ao contrário da madame frugal, artificial
Que mal amava e era mal amada
Macaca das colunas sociais
Que cobravam fortunas para exibicionismo inútil
Prédio de alicerce fácil
Das areias do vazio orgulho...
Sei que a serpente
Sem perna e sem mãos
Respeitada e temida
Não alvo da piedade
Na maravilhosa floresta
Onde a vida é regra
Flor que brota da putrefata morte!

Sei do morcego cego
Que mora na caverna escura
Onde também é inquilino o odor do mofo
Mas que voa e voa alto! Altíssimo!
Com as pontas das asas tocando estrelas...
Como nenhum Ícaro jamais voou!

Sei das frágeis gotas de chuva
Que se tornam rio e depois mar
Percorrendo milhares de quilômetros
Sem bússolas e sem pernas...

Sei do músico cadeirante
A tocar no baile em pleno carnaval
Com suas músicas e notas
Mais feliz que o mais ridente dos foliões
Com o seu pó e sua bebida
Em infinita embriaguês!

Assim, amigo!
Assim, amiga!
Não há equação objetiva para felicidade
Não há fórmula subjetiva para o paraíso
Mas há espaço para o sonho infinito
E para luta sem fim!
Sonhar e lutar e sonhar e lutar e sonhar...
Como o vai-e-vem das ondas do mar na praia
Como o vai-e-vem sobre a mulher amada...
Afigura-se como a maior das ferramentas!
Para maior das possibilidades!

Valdecy Alves
Escrita em 05/03/2011 - Fortaleza (CE)

quinta-feira, 10 de março de 2011

MULHER, TEU CORPO É O JARDIM…

José González Collado

MULHER, TEU CORPO É O JARDIM…

Teu corpo é o jardim onde germina,
O desejo, o amor e a vida humana.
Teu rosto é flor, tuas mãos são rama,
De bondade imensa e genuína.

Tens a semente da vida em tua sina.
E para quem te fecunda e te profana,
Com a alegria e a dor que em ti se ufana,
Rasgas em mãe, tua candura de menina

E em teus braços que embalam a criança,
No teu colo, onde chora, em seu lamento,
És ninho de amor na árvore da esperança,

De amor eterno, mistura de tormento,
Com generosidade e entrega imensa
Como um sol divino, em firmamento.

Rui dos Santos

BILHETE DE IDENTIDADE

Carlos Dugos
BILHETE DE IDENTIDADE

Seja de Inverno ou de Verão
Haja ou não nuvens no céu
Eu, em qualquer estação
Uso sempre o meu chapéu.
Mesmo em dias de sol
Se está frio, de manhã
Não esqueço o meu cachecol
E o meu gorro de lã.
Para desporto, uso boné
Para bodas, a capelina
Usava boininha, até
Para o colégio, em menina.

Nos dias em que estou triste
Quando a saudade me ataca
Eu ponho o meu chapéu preto
Feito em tecido de alpaca.
Um chapéu dá sempre graça
Se com graça é colocado
Quanta mágoa se disfarça
Sob um chapéu derrubado!
E o meu chapéu de praia?
Esse é que não dispenso
Enquanto o olhar se espraia
Vou-lhe contando o que penso.

Ou por isto, ou por aquilo
E às vezes, só por vaidade
O chapéu é o meu estilo
O meu Bilhete de Identidade.

Maria Augusta Silva Neves
in "Turbilhão de Emoções"

MÃE!

José González Collado
MÃE!

Linda flor
Puro amor
Palavra tão querida!
Canseira e calor
Alegria e dor
A melhor amiga.
Bondade e ternura,
Infinita doçura,
Essência da vida.

Joaquim Brandão

O PAPEL SORRI

José González Collado
O PAPEL SORRI

silenciosamente,
de forma quase inaudível
o lápis sussurra palavras ao papel.
e o papel sorri.

letra após letra,
o lápis acaricia
a alva folha
que de felicidade sorri.

do lápis
as ideias brotam
sobre o papel
e ambos fazem nascer
a poesia.

lápis e papel
trocam afagos com letras.
dão abraços com palavras.
são sentimentos
através das ideias
e em conjunto constroem o poema
até à palavra fim.

(…o lápis cansado
deita-se em merecido descanso…
…enquanto de alma preenchida
o papel sorri.)

Eduardo Roseira
in "O Sorriso de Deus"

NUNCA DIGAS QUE É TARDE, MEU AMOR

José González Collado

NUNCA DIGAS QUE É TARDE, MEU AMOR

Nunca digas que é tarde, meu amor
Se esta vida está aqui p’ra ser vivida,
Se o amor ilumina a nossa vida,
E a tristeza e sofrimento me dão dor.

Nunca me digas “É tarde!”, meu amor
Só é tarde quando não houver saída,
P’ro sofrimento da tua partida,
Em quem te adora e te ama com fervor.

Um dia que eu não possa ver teu rosto,
E ouvir tua voz doce e perfumada,
Ficarei com a amargura do desgosto,

De te perder p’ra sempre, minha amada.
Até lá tenho o que mais gosto,
Depois, não tendo a ti, não tenho nada.

Rui dos Santos

ACONTECE

José González Collado
ACONTECE

Não gosto de encruzilhadas;
gosto do caminho aberto…
aberto para alvoradas!
Embora esteja por perto
minha sombra anunciada.
Mas este gosto que eu tenho
é jóia n’alma gravada
em que ponho muito empenho.

Quando a sombra me envolver,
quero partir, fronte altiva,
porque esse foi meu viver.
Não tenho a alma cativa,
usei minha consciência
como um farol, o meu guia!
Vivi com sã apetência
e respeito com quem vivia.

Consciência é meu lema!
Quem não a usa em pleno,
consultando-a por sistema,
como há-de viver sereno?
Não gosto de encruzilhadas…
vem de longe esse direito!
Em meninice tinha asas,
voava à noite no leito!...

Agora, o sono é calmo;
tudo me deixa em sossego;
rememoro palmo a palmo
esse meu doce aconchego.
E nas minhas madrugadas,
sinto uma certa acalmia…
Pego na pena e palavras
e acontece poesia!

Fevereiro 2011
Maria de Lourdes Martins

VIAGEM À PRIMAVERA

José González Collado

VIAGEM À PRIMAVERA
(Passeio de camioneta em 03/03/09)

Olho através das vidraças:
Nos montes ensolarados
Avistam-se lindas noivas
Nos seus vestidos rendados
Seus róseos véus ondulados
Quase que tocam os céus
Como se fossem chamados
Pela doce voz de Deus

Outros noivas, mais além
Sobre o abismo debruçadas,
Dos seus toucados desprendem
Petalazinhas rosadas
No vale, o rio luzente
No seu curso natural
Exibe à noiva distante
Um leito nupcial
Mas elas casam com os montes
Aí seus filhos vão ter
Aí os filhos dos homens
Mais tarde os hão-de-colher

Para lá da névoa dos céus
Que o sol rasga, por momentos
É a mesma voz de Deus
Que abençoa os casamentos
Trago os olhos inundados
Desses belos horizontes
Desses vestidos rendados
Das noivas de Trás-os-Montes
Trago os olhos inundados
Inebriados de cor
Daqueles mantos rosados
De amendoeiras em flor!

Maria Augusta da Silva Neves
in "Turbilhão de Emoções"

O INVERNO DA VIDA

José González Collado
O INVERNO DA VIDA

É por dentro de mim que peregrino,
Nesta hora de angústia e de amargor!...
Pois já venho sofrendo. De menino,
Maus Invernos, de morrer e de rigor!

Deus quer que eu cumpra assim o meu destino
De Poeta e Mendigo do Amor!...
Quem nasceu para os rumos do Divino,
Terá que ser eterno sofredor!

Depois de tanto Inverno e tempestade,
Do que fui, vejo assim tombar a árvore,
Só me restando a compaixão de Deus!

Quando chegar a hora do meu fim,
Não importa se lembrem mais de mim,
- Mas não deixem morrer os versos meus!

Castro Reis
lido por Leonor Reis

VIVE MAS NÃO MORRE!

José González Collado
VIVE MAS NÃO MORRE!

Um pensamento
É poesia em movimento
Criança a crescer no tempo
O Homem do amanhã
Que se move e protesta
Matéria e Espírito
Ao encontro da felicidade
E que em indecisas alvoradas
Ama e sofre.
Vive mas não morre
Porque é Poeta!

Joaquim Brandão

BÊBADO NÃO SOU

José González Collado
BÊBADO NÃO SOU

vós?olhais para mim
dizeis-me bêbado.

não. não e não.
foi a vida que me pôs assim
mas olhai bem
pois bêbado eu não sou.
só bebo para lavar a mágoa
que vai em mim.

não. não te rias.
pois és tu.
sim, tu. Oh! Mundo.
o culpado de eu estar assim.
não bêbado eu não sou.

lavo-me por dentro
para limpar a tristeza
que vai em mim.
sim lavo-me.
com vinho cerveja enfim.
ou já viram alguém
fazer lavagens ao estômago
com sabão?
não. eu também não.
porque lavo eu o estômago assim?
é para limpar o fingimento
a que o mundo me obriga a mim.
sim fingimento.

algumas vezes sou engenheiro
outras poeta doutor
e até já fui cangalheiro.
mas seja lá o que for
bêbado não.
bêbado eu não sou.
não, não te rias de mim.
pois um dia pensa bem
e talvez acordes assim.

não bêbado eu não sou.

Eduardo Roseira
in "A Colheita Intima"

DOURO, MEU RIO

António Ameneiros
DOURO, MEU RIO

Este Douro que apartou os montes,
Com gente e sonhos e barcos fez pontes,
Fez vales e penhascos e socalcos
Fez vinhedos ostentando caprichosos penteados
Fez margens com gosto de mel
Fez vidas amargas de fel
E fez-se rio
Este Douro que enegreceu o xisto
Fez-se amor, ódio, perdição
Fez medo, feitiço, devoção
Fez braços de vida e de morte
Fez-se Mundo, Porto e Norte
E fez-se Rio
Este Douro inquieto e guerreiro
Que descansa nos braços do povo tripeiro
É um mar sereno quando, ao entardecer,
A cidade Invicta se deixa envolver
No seu manto de nevoeiro frio
E, ternamente, lhe chama: Douro, Meu Rio!

Maria Lourdes dos Anjos
lido por João Pessanha

ME TEM

José González Collado
ME TEM

Vem me envolver no teu abraço
Diz-me para me deitar no teu regaço
Quando eu não conseguir
Afastar este cansaço
Vem me dar o teu beijo
E olhar-me com desejo
E com carinho me fazer dormir
Mas não quero que me venhas iludir
Quero que me ames
Que me faças sorrir
Quero que leias a minha alma
E que segures o meu corpo
Quando estiveres deitados na cama
Vem olhar os meus olhos
E fazer eu delirar
Quando me estiveres a amar
Vem limpar meus olhos
Quando eu estiver a chorar
Me tem amor
Faz-me sonhar…

Emília Costa
in "Sarrabiscos de ontem, De Hoje ou Talvez Do Amanhã"

DESABAFO

José González Collado
DESABAFO

Hoje vou soltar-vos os meus tigres de papel
o meu riso sarcástico
que desde a noite dos tempos não se ri

Hoje vou chamar pela vossa consciência
e dar-lhe um pontapé.

Sei que à minha volta
entre os que nós elegemos progressistas
sem ter ido votar
já muitos estão envenenados e doentes
pela força da demagogia vencedora,
tantos e tantos
dos que podiam ser salvos
do reino do acomodatício, do fácil,
da esperteza lucrativa
da insanidade bem vestida.

Depois da vivenda e do automóvel
e da casa de campo e da casa de férias
e das máquinas malditas para substituir o pensar
e o uso das mãos…

Depois do telelé em cada canto
que nas vossas casas já é mais que as peúgas
e mais 3 cães de raça
e os 4 gatinhos “pedigree”
e mais 5 periquitos
e mais 6 anéis numa só mão
e mais aquilo que comprais
e que de nada vos serve
mas que pode ser enterrado convosco
no jazigo de família…
Sei. Sim. Sei que tendes o sorriso
estampado na cara
… que esta vida são dois dias…

E por isso pensais,
(se é que o cabeleireiro quotidiano
de tanto vos apalpar e massajar a moleirinha
vos deixa’inda pensar um pensamento)
pensais que pouco vos importa,
que este vosso amigo
não siga as pisadas dessas vidas
e seja tão antiquado e passadista
que não tenha tempo para rir às gargalhadas;
e não faça parte do exército do Whisky
e do cigarro estrangeiro
porque as forças da invasão rasteira
que faz descer o homem à escala do bicho
não conseguiu amordaçá-lo,
não logrou ainda arrastá-lo ao fundo da ravina
porque estremece nele algum luzeiro de cultura
algum poema com vida
que mande à merda esta medra toda;

e sei
que isso não vos tira o sono
porque viveis para comer, passear e dormir
e se a barriga vos crescer demasiadamente
sempre há, no vosso cartão multibanco,
o suficiente para aquela clínica inglesa
donde se sai mais jovem, mais risonho,
mais conformado e mais estúpido.
Porque somos do país dos navegantes,
do país que tem heróis no passado
para trocar por dólares no presente
e queremos lá saber da Pátria
e da África com fome e do lixo das cidades…

Nós, o que queremos, é que o lixo não entre em nossas casas
não perturbe a nossa comodidade,
o nosso bem estar.
Nós somos todos ex-revolucionários
os que podem exigir ao poder em quem votamos
que tire já, IMEDIATAMENTE,
o lixo que ficou à nossa porta.
Porque pagamos impostos mesmo contra vontade
e daí e com isso, compramos direitos consignados
nos discursos falaciosos feitos para o voto
pelo voto e nas vésperas do voto
e na ignomínia do voto.

Mais exigimos que o Morais se cale
e não venha para aqui incomodar-nos
com a sua incapacidade de ser
um bom burguês à maneira.

Hoje vou soltar os meus tigres de papel
porque dizem que em Israel
e reparem que eu disse em Israel
que em Israel existe
uma extrema direita.
Mas então se Israel é a extrema direita do Mundo
como pode existir lá e na oposição uma extrema direita?
Só se fosse a extrema direita da extrema direita…

Mas que grande descoberta…
Eles querem-nos fazer crer que a extrema direita deles
a oficial,
não é senão uma simples direita coitadinha,
estais a ver o filme,
assim uma coisa como o PS quando se põe de acordo com o PSD e o
CDS…
Isso levaria a concluir que o Centro afinal é a esquerda
e já agora a esquerda é a extrema esquerda
Se empurrarmos mais um bocadinho, então, a extrema esquerda actual
terá de ser aniquilada por falta de espaço no espectro das cores.

Fernando Morais
in "Um Estalo na Modorra"

quarta-feira, 9 de março de 2011

MAIS UM ESPAÇO DE ARTE

José González Collado

MAIS UM ESPAÇO DE ARTE

Mais um Espaço de Arte se anuncia,
Um espaço de encontro e de cultura:
Onde a Arte, o Belo e a Poesia,
Se entrelaçam na mesma formosura.

É preciso coragem e vontade
Para tomar tão alta iniciativa…
Mas tudo nos merece esta Cidade
Que na Poesia e Arte – está bem viva.

Os Artistas, Poetas e Pintores,
Estão de parabéns por este evento.
Pois é digno dos mais altos louvores
Quem à Arte se dá se amor sedento.

Mais um Espaço de Arte – belo espaço,
Nasce hoje, como chama de coragem.
Que ele traga consigo o ardente abraço
Da Poesia e da Arte, - num só traço -,
Que perpetue ao mundo a sua Imagem.

Castro Reis
lido por Leonor Reis

Palavras-cruzadas

José González Collado
Palavras-cruzadas
Alinhadas pela mente,
Letras formando frases
Animam o pensamento.
Verticais e horizontais
Revelam o prazer,
Ajudam a não esquecer
Sublimando a Escola.

Coexistem na vida,
Reflectem-se nas ideias.
Um crer no saber,
Zombar e gracejar,
Ao descobrir o erro
Depois de o emendar.
A Cultura a fascinar
Sobre a perfeição!...

Joaquim Brandão

terça-feira, 1 de março de 2011

AO FIM DA TARDE

Fernando Pamplona

AO FIM DA TARDE

Subo pela Avenida…
O clima me entristece,
Falo para a brisa.

É Inverno!

Ouço o troar dos trovões,
Estremeço,
Sensação de medo…

As águas correm
Lavam a Cidade,
Ainda bem!

Ao fim da tarde,

As ruas ficaram limpas
Mas… graças às nuvens
Que não cobram impostos.

Joaquim Brandão

O CORRER DA TINTA

José González Collado

O CORRER DA TINTA

Deixo correr a tinta
Numa folha de papel
Deixo sair a emoção
E a caneta
Vai puxando a minha mão
E o sonho
A solidão
Vai-se transformando
Palavra a palavra
E as frases ficam
Em papel registado
E esta caneta
Não deixa de sarrabiscar
E a minha alma
E o meu coração
Se deixa seguir
Com a caneta
Puxando a minha mão.

Emília Costa

A PROPÓSITO DE ESTRELAS

José González Collado

A PROPÓSITO DE ESTRELAS

Não sei se me interessei pelo rapaz,
por ele se interessar por estrelas,
se me interessei por estrelas, por me interessar
pelo rapaz. Hoje, quando penso no rapaz ,
penso em estrelas e, quando penso em estrelas,
penso no rapaz. Como me parece,
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias, parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias.
Nunca saberei, se me interesso por estrelas,
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas. Já não me lembro
se vi primeiro as estrelas,
se vi primeiro o rapaz
se, quando vi o rapaz, vi as estrelas!
de O POETA DE PONDICHERY,
Frenesi, 1986, Adília Lopes
lido por Fernanda Cardoso

QUERO SER EU!

José González Collado
QUERO SER EU!

Não quero ser ave
Nem nuvem, nem sonho
Nem vento
nem pensamento
Não quero ser nada disso!
Não quero deixar de ser gente
Nem preciso de ser diferente
Quero apenas um pouco de céu
E quero SER EU!
Quero ser livre no meu país
Quero gritar: sou Feliz
E quero SER EU!
Quero ensinar e aprender
Quero semear e colher
Quero partilhar contigo o meu dia
Quero adormecer com alegria
Quero ser livre no meu país
Quero que também sejas feliz
E quero SER EU!

Cristina Pessoa

LAVRADOR

José González Collado
LAVRADOR

Sou lavrador de poesia,
A caneta é a minha enxada,
Semeio palavras, dia a dia,
Do Sol-pôr à madrugada.

Raízes de inspiração
Trovas a fortificar
O sentir do coração
No tempo a germinar!

Por amor à Grei
No papel adubei
Cultura a desbravar.

Porque me convenço
que a mentira venço
Com a verdade a povoar.

Joaquim Brandão

MULHER, TEU CORPO É O JARDIM…

José González Collado

MULHER, TEU CORPO É O JARDIM…

Teu corpo é o jardim onde germina,
O desejo, o amor e a vida humana
Teu rosto é flor, tuas mãos são rama,
De bondade imensa e genuína.

Tens a semente da vida em tua sina
E para quem te fecunda e te profana,
Com a alegria e a dor que em ti se ufana,
Rasgas em mãe, tua candura de menina

E em teus braços que embalam a criança,
No teu colo, onde chora, em seu lamento,
És ninho de amor na árvore da esperança.

De amor eterno, mistura de tormento,
Com generosidade e entrega imensa
Como um sol divino, em firmamento.

Rui dos Santos

CANTAR PORTUGAL

Fernando Gomes
CANTAR PORTUGAL

Te canto, meu verde Minho
Com encantos naturais
Esse Gerês, pergaminho
Rei de vários festivais.

Trás-os-Montes e Alto Douro
Região de belos vinhos,
Os rabelos eram ouro
Na rota desses caminhos.

Vem o Douro Litoral,
Lindas cidades mais Porto,
Rio, mar, tão natural,
Belo clima, conforto.

Coimbra, bela cidade,
Penedo da Saudade, e Mondego,
Teus monumentos, verdade,
Tuas lembranças eu levo.

Lisboa sempre airosa,
Capital de Portugal,
Tens o perfume da rosa,
Tudo em ti é genial.

Setúbal, Faro, Portimão,
São oásis a conservar,
Madeira, Açores, a solução.
Cantar Portugal, todos vamos cantar.

João Pessanha
06/08/2010

PEQUENO MÚSCULO

José González Collado
PEQUENO MÚSCULO

Neve caindo lá fora,
ao alcance da minha mão
gela tudo numa hora,
não gele o meu coração!
Coração quente de amor,
que nunca soube odiar,
mesmo estalando de dor,
sempre pronto a perdoar.

Geme por vezes baixinho…
para que eu não perceba,
discreto no seu caminho
com a maior singeleza.
Meu coração tão valente,
mas que às vezes assusta
quando olha tanta gente
em situação injusta.

As coisas que ele sente!
Um pedacinho apenas,
nunca diz não, nunca mente,
e nele se juntam penas.
Meu coração escondido,
dentro do peito calado…
quase sempre oprimido
pelas agruras do fado.

E sendo tão pequenino,
de quanto ele é capaz,
leva-me pelo destino,
tão corajoso e audaz.
Eu sou apenas o escrínio
desta jóia fabulosa,
relógio ainda exímio
nesta senda dolorosa.

Ai maravilhoso motor!
Dentro de mim hás nascido,
será minha a tua dor
no fim dos tempos rendido.
Quanto sangue, quantas penas,
quanto de bom me ofereceste;
além dos filhos, poemas,
pr’ além da morte, viveste.

Janeiro, 2011
Maria de Lourdes Martins

MUNDO SEM CONFLITOS

Jozé González Collado

MUNDO SEM CONFLITOS

Gostava de ser pássaro
Para voar, voar
Entre as nuvens
E as ondas do mar.
Subir, subir
Por essas montanhas além
À descoberta de um paraíso
Ao encontro do bem.
De um Mundo sem conflitos,
Sem ódios, nem guerras,
Nem hipocrisias.
Encontrar
Paz, amor e felicidade
Para a humanidade
Que bom seria
Ali escutar
Composta por Deus
A mais bela Sinfonia de Amor.

Joaquim Brandão