terça-feira, 12 de julho de 2011

INDÍCIOS


INDÍCIOS

Sou um homem dos anos 60.
Foi lá que tudo me aconteceu.
O despertar para a consciência social e até com
motivações familiares pois nasci, há mais de
sessenta anos, numa “ilha” de bairro operário.
A campanha eleitoral de Humberto Delgado.
Um pouco de jornalismo e o cine-clube do Porto.
Por fim o amor. O amor militante.
E a prisão, na rua do Heroísmo. Seis meses da
mais difícil luta que travei.
Uma volta inteira a Portugal na clandestinidade.
A fuga para Paris. E Maio de 68.
Nas barricadas.
Um salto para o infinito e sempre acompanhado
pela poesia. Por meus irmãos poetas.
Até chegar aqui…

Viajo por dentro do poema
baloiçando demais a traquitana
e se não tenho dor não tenho pena
que não é a pena que me desengana

Viajo no interstício da emoção
da palpitante carreira das palavras
e às vezes é no ar, outras no chão
que solto todas as amarras

Principalmente à noite quando tudo
parece mergulhar ao longe pela margem
é que me vejo melhor e fico mudo
de tanto soletrar esta viagem

No desfile das viúvas todo o negro se espalha
tinge a rua e as casas e o tempo escurece
o relógio assinala onde a flor esmorece
nenhum silêncio se cala, nenhum gorjeio ralha.

Je maldigo as cidades, je tropeço no escuro
faço votos que o Tempo nunca mais nos deixe
quando saio da igreja é o luar prematuro
com as mãos engelhadas e o corpo num feixe.

Quanta página preta desfolhei no monte
quanta coisa aprendi na solidão de mim
mas, depois, a vida não era assim
feita de incertezas e sem horizonte.

Feita de destroços, de crenças no outro
feita de desfeitos areais de nada
das sobras do lixo ainda fiz poema
e as casas mais lindas eram… uma pena…

As paisagens mais lindas eram inventadas
as mulheres atraentes eram passajadas
as cores do mundo estavam desbotadas
no desfile do vento almas descarnadas.

Tive ainda este sol que me dizia amor
tive esta promessa duma vida melhor
mas só a morte pode resolver a vida
que não soube viver.

No tempo dos anseios, dos risos e das fugas
dos cheiros apurados, dos sabores esquisitos
os laços de amizade sempre tão bonitos
faziam-nos suaves onde hoje temos rugas.

Nesse tempo vivíamos de luares liquefeitos
nem queríamos sóis de tanta luz havermos
continha-se em nós a esperança de termos
um futuro total sem erros nem defeitos

E por isso me olho nas mãos que me sugiro
frente aos espelhos que mentem este brilho interior
a pessoa que porto e pela qual respiro
antes, ágil e nova, capaz de todo o ardor.

Deste modo de ser, deste gesto de nada
não tive sucesso, não subi escada
desta forma de agir, incessante paragem
a correr contra a vida…

Os passos no escuro não me deram vento
que o vento comigo era só aragem
que a aragem comigo era só de passagem
e melhor seria ter sido mais eu…

Deste modo de ser não tive sucesso
só talvez meu avô saberá de mim
a quem devera pedir agora não peço
fui ultrapassado muito antes do fim…

À semelhança e ao fluir do oxigénio
o corpo das nossas mãos tudo tacteia
e vem o Sol depois das grandes chuvas
e faz amor connosco sobre a areia.

As árvores, então, esgueiram-se pelos ramos
perfumam-se à noitinha com essências raras
os bichos mais pequenos dão grandes festas de anos
desconhecendo como a vida é curta e cara

Sobram dois sóis para cada casa à sombra
e os de fora gozam o calor que há na terra
desperdiçando as alegrias sãs e tão perfeitas
para regar com seu sangue o rude chão da guerra

Pudera ter vivido, um outro sonho
Pudera ter sonhado uma outra vida
se nem ao que é fatuidade sobreponho
a minha escrita vadia e aborrecida

Pudera ter querido e encontrado
as alegrias, os festejos, os fulgores
de tanto caminhar assim parado
de tanto rir assim das próprias dores

Pudera ter sabido no momento exacto
a palavra chave, a tal que vale um livro
em vez de me fazer, mal feito, este retrato
que em vão pretende parecer-se comigo

Como sucede ao luar e às montanhas
muda-se de rosto periodicamente
e eu que tanto mudo sem mudar
faço mudanças de tempo e de lugar

Não procuro nada que não tenha já em mim
e passo a vida inteira a procurar
ninguém me ensina o que mais quero saber
e nas aulas da vida não ando a aprender

Esqueço-me tanto nas fraldas da memória
que às vezes não sei se o que fiz fui eu…
não há nada a fazer que me recorde
as coisas todas que perco sem as ter…
                    
Fernando Morais
in O Poeta Escondido

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