terça-feira, 21 de junho de 2011

CUIDADO


( enfermeiro da alma )
CUIDADO

eu vou tocar as estrelas
vou tocar para as estrelas
o sorriso é interino
não quer sorrir pra ninguém
o meu sol é muito intenso
mas não sabe que é um Sol
e nem disso quer saber.

O meu rio tem peixes
e os meus peixes não dão filhos
meus generais são febris
meus soldados desarmados
meus canhões estão calados
comigo nada dá certo
por isso me vou embora
não pude continuar
nos sítios onde parei
aqui não quero ficar

Aqui não posso escrever
vou já tocar as estrelas
ponho um piano nas nuvens
e vou gostar de compor
vou tocar para as estrelas
onde me quero lembrar
onde me esqueço de ser
quero ficar e não posso
quero doer e não doo
quero viver a sorrir
mas não há sorriso algum
e então levanto voo
não pude continuar
nos sítios onde parei
aqui não quero ficar
vou morar para as estrelas
vou tocar música nelas
e se morrer que se lixe
à morte já eu me dei

Naquele dia em que ela
fez do amor desamor
agora vou todo torto
pelas ruas da cidade
sou mais que vivo sou morto
e nunca fui divertido
nem pratico a gargalhada
e perdi de vez o timbre
da paciência e da constância
estou contente de ser pardo
estou feliz de desespero
de todo o mal que me fez
de todo o bem que não faço
não sorrio pra ninguém
e tenho pena de mim
se nada disto mereço
não pude continuar
nos sítios onde parei
aqui não quero ficar

Pese embora algum momento
de flores, campos, montanhas
fujo, fujo, sempre a fugir do passado
corro, corro, e correndo ganho tempo
para viver as tristezas
vivê-las a cem por cento
pois nada mais me consola
pois nada mais me incomoda
pois nada mais me garante
que estou vivo, sigo adiante.

Fernando Morais

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