quarta-feira, 15 de junho de 2011

SAUDADE QUE A MINHA ALMA SENTE


SAUDADE QUE A MINHA ALMA SENTE

Do lugar que tu bem sabes
vejo a paisagem que certo dia
me ensinaste:

São telhados e telhados
a perder de vista
com chaminés, clarabóias, antenas,
postes e fios,
um entrelaçado de fios
a esquartejar o céu azul
que nem chumbo a separar
os pedaços
coloridos
de um vitral.

Só elevada perícia na visão
e no voo
permite às gaivotas driblar
e desenhar
seus brancos traços
de espiral,
sem ficarem cativas,
de asas suspensas
nos ardilosos fios metálicos.

Para lá dos telhados,
o Douro,
a querer aconchegá-los
em jeitos de cachecol.

Mais além do rio,
na margem de lá,
o casario,
a cidade ao espelho,
o Porto a mirar-se
em águas douradas e mansas.

Para cá dos telhados,
estou eu,
aqui.

Eu,
na vertigem da paisagem
dos telhados e telhados
a perder de vista.

Eu,
sem ti,
mas não só.
Comigo,
este vazio.

E a tingir o que vejo, de tons de nostalgia,
esta saudade pungente,
profunda,
que a minha alma sente.

Miguel Leitão
in O tempo e as coisas"

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