sexta-feira, 17 de junho de 2011

A MINHA ESSÊNCIA


A MINHA ESSÊNCIA

Escrevi teu nome na areia
para que as ondas o apagassem.
Teu nome foi-te nas águas…
     … e tu ficaste.

Gritei teu nome à montanha
para que os ventos o arrastassem.
Teu nome sumiu na aragem…
     … e tu ficaste.

Lancei teu nome às ravinas
para que o abismo o engolisse.
Teu nome caiu no vale fundo…
     … e tu ficaste.

Chorei teu nome na noite
para que o escuro o sorvesse.
Teu nome desfez-se em sombras…
     … e tu ficaste.

Tu ficaste… e ficas sempre,
encastrada na minha alma!

Por mais que trucide o teu nome, o esmigalhe,
o reduza a amarelecida poalha
a arrastar-se, inútil,
pelos becos da memória,
tu teimas em permanecer,
sempre cá, a fazer parte.

É uma questão de natureza,
não de nomes ou lembranças.

Não és acrescento como algo de movível,
adjacente.
Não é como timoneiro em barco
ou piloto em avião
que se ausentam se o comando
não se torna imprescindível.

Realidade constituinte do meu eu,
integras a minha vida
e o meu ser,
alimentando o que penso
e o que sinto,
o que digo e o que faço.

Eu sou tu…
     … e tu sou eu!

E se conseguisse arrancar-te de mim,
eu não seria!

Pelo menos…
     …não seria como sou!

Miguel Leitão
in O tempo e as coisas

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